Café com Karnal

Que sorte a minha conversar sobre pimentão com um dos maiores historiadores do País

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2018 | 02h00

Lá estava eu, no meu melhor estilo eterna estudante, com minha mochila preta meio furada, tênis nos pés e livros nos braços, quando vi o cartaz anunciando uma palestra do Karnal na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Fiquei toda feliz e logo reservei a data na agenda. Depois de uma meia hora, baixou em mim o espírito neymariano da ousadia e alegria, e pensei: “Embora eu não o conheça e eu imagine que ele não faça ideia de quem eu sou, posso pedir o e-mail dele no Estadão e enviar uma mensagem simpática”.

E assim foi. Quando a resposta chegou, fiquei até um pouco atônita. O Karnal dizia que gostava muito do meu trabalho e que seria ótimo marcarmos um café. Era mesmo sério aquilo? O sorriso rasgado que estampou meu rosto era exatamente o mesmo que deu o ar da graça quando o Ignácio de Loyola Brandão me mandou um e-mail elogiando minha crônica sobre os chuveiros europeus. Acho que nunca estarei pronta para isso.

Quando acordei na quinta-feira, o dia estava gelado e uma tempestade estava caindo sem bom senso. Mas lá estava eu, toda contente e ansiosa, indo tomar café da manhã com o Karnal. A caminho do local combinado eu comecei a me perguntar sobre o que nós conversaríamos. De repente, fiquei em pânico. Imaginei o professor dizendo um milhão de coisas inteligentes e eu travada, sem conseguir dizer nada que prestasse.

Tentei ensaiar uma breve apresentação sobre a (re)internacionalização do Direito do Trabalho através da política de comércio externo, minha pesquisa de doutorado. Tentei pensar em algo muito interessante que eu soubesse sobre a história de Lisboa. Tentei lembrar dos melhores livros portugueses que li ultimamente para comentar coisas pertinentes. Cheguei ao restaurante tão tranquila como quem chega a uma entrevista de emprego. Tomara que o Karnal não leia isso porque eu até acho que disfarcei bem. 

E eis o que sucedeu. Começamos conversando sobre a maravilhosa sopa de ervilhas da irmã dele e sobre minha infalível receita de bolo de milho de liquidificador. Depois falamos sobre uma flor roxa muito bonita que estava num vaso sobre a mesa, que parecia lavanda, mas era meio peluda. Falamos também sobre nossos sobrinhos e sobre suas esperanças de que nós, como bons tios, os levemos à Disney qualquer hora dessas.

Debatemos questões acerca de dificuldades digestivas. Ele reclamou da lactose, eu reclamei do alho, ambos reclamamos do pimentão. O Karnal me contou que tirar a pele do pimentão ajuda muito a resolver esse problema. Conversamos também sobre nosso limitado conhecimento de vinhos, sobre tantos vinhos ruins que já bebemos e sobre as valiosas sugestões do Beato.

Reclamamos daquela chuva que não parava de cair, falamos sobre o trabalho do meu marido, sobre rabanada e sobre frango com catupiry. Dividimos algumas lembranças de infância e, acima de tudo, demos muita, muita risada durante aquela uma hora que voou. Quando nos levantamos, comentei que minha cunhada tinha sido aluna dele na Unicamp. Ele se lembrou dela e eu comentei “então, ela é a mãe da Rita”, como se ele já fosse íntimo da minha sobrinha mais velha.

Mais tarde, assisti à sua palestra na universidade. Aí, sim, ouvi o Karnal falar brilhantemente sobre história do Brasil e de Portugal, sobre os processos de colonização, sobre filosofia, sociologia, democracia, ditadura e, acima de tudo, sobre ética. Um grande professor é sempre um grande professor.

Acabei o dia pensando que o trabalho, a cultura, a expressão e o conhecimento nos fazem admirar alguém. Mas são o riso, a humanidade, a proximidade e a leveza que nos fazem gostar de alguém. E não é raro as pessoas admiráveis perderem a capacidade de tomar um café desarmado e risonho. Que sorte a minha conversar sobre pimentão com um dos maiores historiadores do País.

 

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