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O cantor Caetano Veloso Instagram/@caetanoveloso

Caetano Veloso, Maria Bethânia e outros artistas são alvo de fake news de aglomeração no réveillon

'Único intento é o de macular a honra e a imagem', declara advogado; postagem viralizou e, após repercussão, foi apagada

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2021 | 10h09

Um vídeo mostrando Caetano Veloso, Maria Bethânia, Regina Casé, Mart'nália e outros artistas em um momento de aglomeração viralizou nesta segunda-feira, 4. Isso porque, em tempos de pandemia de covid-19, esse tipo de festa é alvo de críticas e cancelamentos.

Uma cantora de nome Nayat Jordan foi a responsável pela disseminação da imagem que, de acordo com advogado de Caetano Veloso, é de 2019. Depois da repercussão, ela decidiu apagar o vídeo do perfil no Facebook, porém, diversas contas já haviam espalhado as imagens na internet. Agora, a cantora bloqueou o Twitter e o Instagram dela, o que impossibilita a averiguação, caso decida publicar o conteúdo novamente. Nayat se declara "fechada com Bolsonaro" em suas redes sociais, faz publicações exaltando a cloroquina e criticando a imunização contra o coronavírus.

Na postagem que fez associando o vídeo antigo aos artistas neste réveillon de 2021, Nayat Jordan fez a provocação: "Olha que legal o réveillon na Bahia festejando 2021. Galera boa, Regina Casé, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Mart'nália, filha do Martinho da Vila, e adjacências. Parabéns sem medo da peste chinesa. Festão do covidão". 

Em algumas horas, Caetano Veloso usou as redes sociais para explicar ao público que o vídeo era antigo. "É fake! Este vídeo é de 2019 e não do ano novo de 2020/21", escreveu o cantor no Twitter. A companheira Paula Lavigne também ficou indignada. "Isso é fake, é de 2019! Que absurdo. Ligando para os meus advogados", avisou a atriz, que republicou o vídeo, já disseminado por outro perfil de nome Martin Hofer.

 


 


O perfil oficial de Maria Bethânia também se manifestou sobre o vídeo disseminando a fake news. "Está circulando na internet um vídeo falso em que Maria Bethânia aparece com Caetano Veloso e outros amigos festejando o réveillon de 2021. Em respeito a todos, deixamos claro que não houve nenhum tipo de comemoração neste ano e trata-se de um vídeo de fevereiro de 2019, antes da pandemia começar", diz a legenda da publicação.


 


No fim de semana, Elba Ramalho foi alvo de críticas após uma festa ter sido realizada na casa dela, que estava alugada, em Trancoso, na Bahia, em meio à pandemia do novo coronavírus. A cantora se defendeu e, em um vídeo nas redes sociais, garantiu que não sabia da confraternização que foi realizada no local.

Também no fim do ano, o jogador Neymar não fez questão de esconder a grande festa que realizou para o réveillon. No entanto, o evento causou repercussão negativa em todo o mundo

O advogado de Caetano Veloso, Caio Mariano, enviou uma carta para a cantora que disseminou o vídeo antigo e solicitou que ela apagasse das redes sociais. "A postagem possui o mero intuito de atribuir, ao artista e aos demais, a prática de ato irresponsável e lesivo à saúde coletiva, confundindo assim a opinião pública sobre a sua conduta e responsabilidade", afirma. 

Mariano também quer que Nayat peça perdão publicamente: "Solicito ainda seja formalizado pedido de retratação e de desculpas, em postagem própria, esclarecendo sobre a falsidsde das informações postadas na publicação que se exige remoção, cujo único intento é o de macular a honra e a imagem de Caetano Veloso".

Confira a nota na íntegra:

"Prezada Nayat Jordan,

Na qualidade de advogado de Caetano Veloso e familiares, venho por meio desta solicitar a imediata remoção da postagem realizada através do link Referida postagem afirma falsamente que o artista, amigos e familiares estariam aglomerando socialmente em plena pandemia, atribuindo a estes a prática irresponsável e criminosa de aglomeração social em tempos de pandemia ocasionada pela covid-19. Tal pratica é totalmente repudiada por todos aqueles filmados no referido vídeo, que se trata de registro de um evento familiar ocorrido no ano de 2019.

A postagem possui o mero intuito de atribuir, ao artista e aos demais, a prática de ato irresponsável e lesivo à saúde coletiva, confundindo assim a opinião pública sobre a sua conduta e responsabilidade. Solicito ainda seja formalizado pedido de retratação e de desculpas, em postagem propria, esclarecendo sobre a falsidsde das informações postadas na publicação que se exige remoção, cujo único intento é o de macular a honra e a imagem de Caetano Veloso. Na hipótese de não atendimento à presente solicitação, tomaremos todas as medidas judiciais cabíveis para reparação de danos materiais e morais causados. Certo de sua compreensão quanto a urgência e gravidade da sua postagem, aguardo remoção. Cordialmente, Caio Mariano (OAB-BA 18.169)”

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Praias do sul da Bahia têm festas ilegais e até 'engarrafamento' de jatinhos

Boa parte dos turistas vem do Sudeste do Brasil; Justiça já proibiu aglomerações a pedido do Estado por causa da covid-19

Fernanda Santana, Especial para o Estadão

29 de dezembro de 2020 | 05h00

SALVADOR - Basta escurecer e o movimento de pessoas em direção à beira do rio e à pracinha da igreja começa em Caraíva, distrito do município de Porto Seguro, no sul da Bahia, onde não vivem mais de mil pessoas. De lá, só saem quando o dia surge no horizonte, deixando para trás lixo da noitada de aglomeração. Diariamente, o vilarejo tem sido tomado de gente e o fluxo se repete. A população está sete vezes maior com a presença de turistas e as festas ilegais têm ocorrido como se fossem, na verdade, permitidas.

Os turistas começaram a chegar depois do Natal e só devem deixar a região depois do réveillon, entre os dias 2 e 3 de janeiro. Sem a possibilidade de viajar para o exterior, por causa das barreiras sanitárias e emissões de alertas relacionados ao crescente número de casos do novo coronavírus, o sul da Bahia parece ter sido o destino escolhido pelos viajantes mais abastados - a maioria deles vindo do Sudeste, principalmente de São Paulo. No topo da preferência, estão Caraíva e Trancoso, outro distrito de Porto Seguro, onde são registradas aglomerações em praças públicas, bares e festas privadas ilegais.

O Tribunal de Justiça da Bahia concedeu liminar que atendeu a um pedido do governo estadual para proibir “shows e festas, públicas ou privadas” em Porto Seguro. Ainda assim, os eventos acontecem. Por volta das 21 horas de 26 de dezembro, mesmo dia da determinação do TJ, policiais encerraram uma festa, chamada de Sarará, que acontecia em uma casa dentro de um condomínio de luxo em Trancoso. Eram, pelo menos, 200 pessoas na residência. O responsável fugiu, mas já foi identificado.

O não cumprimento da ordem judicial pode ser penalizado criminalmente. Os organizadores e frequentadores de festas, nesse caso, são processados por infringir normas do poder público, destinadas a impedir propagação de doença contagiosa. “Há uma superlotação aqui, e o volume policial não tem como dar conta. Houve reforço, mas o volume de turistas é muito superior”, explicou o tenente-coronel Anacleto França Silva, comandante do 8.º Batalhão da Polícia Militar de Porto Seguro. Nesta segunda-feira, 28, foi enviado reforço policial a Caraíva para coibir possíveis eventos ilegais e descumprimentos de normas.

O movimento na região está tão intenso que entre a tarde e a noite do dia 26 houve engarrafamento de jatinhos e aviões de pequeno porte nos aeroportos locais. No Aeroporto Terravista, em Trancoso, que só recebe voos particulares ou fretados, 48 aeronaves pousaram somente no sábado. Em alguns momentos, aviões tiveram de esperar liberação para continuar viagem.

'Nós, os moradores, não conseguimos passar pela rua'

Em Caraíva, os principais pontos de aglomeração são a beira do rio e a pracinha da igreja, margeadas por bares e supermercados que não respeitam o horário de fechamento, às 23h, e mantêm as portas abertas madrugada adentro. As casas de luxo também sediam festas, como a Sarará, mas, sem contingente para fiscalizar todos os locais, os policiais precisam escolher os mais graves. Na noite do domingo, 27, Lucas Borges, de 29 anos, presidente da Associação de Nativos, precisou ir à casa de um parente e, no retorno, recalculou trajeto. Parecia carnaval no distrito.

“Os moradores já não passam mais pela rua, cortam pelos becos, porque é muito lotado, não é seguro. O som alto é ouvido a noite inteira”, contou. A chegada até Caraíva acontece via os aeroportos de Trancoso ou Porto Seguro. O resto do percurso é feito de carro. O distrito, onde a energia elétrica chegou apenas em 2007, era considerado, até então, um paraíso com praias praticamente isoladas. Na última década, descoberta por famosos e milionários, passou a ser destino certo nesta época do ano. E nem a pandemia impediu as viagens.

Os nativos temiam as consequências das aglomerações que já são recorrentes na história recente de Caraíva durante o verão e planejaram protocolos para o distrito, mas a Prefeitura de Porto Seguro não atendeu aos pedidos, segundo Borges. Como as casas de show e eventos estão fechadas, as festas ilegais e aglomerações de forma geral acontecem, muitas vezes, em praça pública, como baladas a céu aberto.

Até o momento, não houve ações policiais em festas em Caraíva, o que não significa as celebrações não tenham ocorrido, frisou o tenente-coronel França, mas que passaram à margem de queixas ou rondas policiais. Em Trancoso, foram 36 denúncias de perturbação de sossego e festas clandestinas.

A comunidade de Caraíva tinha sido fechada para o turismo, mas o acesso foi reaberto em novembro passado. Não há coleta de lixo dentro do vilarejo e os moradores precisam se virar para limpar os vestígios das noites de excesso.

Pousadas também promovem festas ilegais

“Tem até pousadas discutindo entre si, porque até festa dentro de pousada está acontecendo, o que traz uma situação deplorável aqui para o vilarejo”, relatou Agrício Ribeiro, de 50 anos, dono de uma pousada que optou por trabalhar com a metade da capacidade por decisão própria. As pousadas e hotéis têm liberação para funcionar com 100% da capacidade e é o que tem acontecido, na maioria delas.

Sem as casas de eventos abertas e com restrições de funcionamento, os turistas também organizam as próprias festinhas clandestinas. “Na realidade, essas pessoas que estão aqui são as pessoas que têm muito dinheiro e nenhuma educação. O perfil do turista que está aqui hoje é o perfil de quem suja, quem destrói”, complementou Agrício. Ele acredita que houve um descompasso entre o incentivo ao turismo por parte do poder público e as restrições de funcionamento impostas aos empresários. Resultado: descontrole na rua.

“A maioria das pessoas que a gente vê nas ruas são jovens. Essas pessoas vão vir para cá e ficar na pousada, em casa? Não. Vão aglomerar sem qualquer limite”, opinou Agrício. Os moradores temem uma explosão de número de infectados pela covid nesses locais. Em Caraíva, divisa com um território indígena, a preocupação ainda inclui a população originária, mais vulnerável. São 28 casos de covid-19 notificados em Caraíva e 143 em Trancoso. Em Porto Seguro, são 4,3 mil casos e 80% dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) estão ocupados. 

O Estadão tentou contato com a prefeita de Porto Seguro, Cláudia Silva Santos (PSD), mas não foi atendido. O secretário de Turismo do município, Paulo Magalhães, não quis comentar, e repassou os questionamentos para Fábio Costa, Secretário de Serviços Públicos. 

“A Prefeitura sempre se posicionou contra esses eventos e estamos atentos, porque nossa posição da Prefeitura é de combater qualquer princípio de aglomeração”, disse Costa, sem comentar especificamente as aglomerações registradas nos distritos. Na noite da virada para 2021, quando são esperadas aglomerações e festas ilegais em toda a Bahia, a PM informou que reforçará, mais uma vez, a fiscalização.

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'Não tenho nada a ver com a festa que fizeram na minha casa', declara Elba Ramalho; assista

Polícia Militar acabou com evento que era realizado na casa de praia da cantora em Trancoso, em meio à pandemia

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2020 | 09h03

Elba Ramalho alega que foi surpreendida na noite desta terça-feira, 29, com a notícia de que a Polícia Militar havia acabado com uma festa clandestina em meio à pandemia do novo coronavírus, que estava sendo dada na casa de praia dela, em Trancoso, na Bahia.

Isso porque a residência está alugada, segundo a cantora, até o dia 4 de janeiro. Os nomes dos responsáveis pelo evento não foram divulgados.

"Estou em Trancoso, hospedada no Club Med, a alguns quilômetros de Trancoso. Minha casa está alugada desde o dia 25 de dezembro até o dia 4 de janeiro. Isso é de praxe e todos os anos a gente aluga. E eu não sabia que a casa estava tendo uma festa nesta proporção", afirmou.

Elba Ramalho disse que, na hora da festa, ela estava na igreja, na missa, rezando. Ao sair, ela contou que parou para conversar com as amigas e comer um sanduíche vegano. "E comecei a receber mil mensagens, comecei a ler as notícias e fui tentando digerir tudo isso que está acontecendo. Verdadeiramente, é chato", desabafou. 

A cantora reconhece que os artistas precisam dar um bom exemplo de conduta, sobretudo em tempos de pandemia de covid-19, quando as aglomerações estão proibidas em alguns lugares ou "não recomendadas" para evitar a propagação ainda maior do coronavírus. "Sou uma pessoa muito responsável comigo, com a minha vida e a vida dos outros. Me esforço para dar um bom exemplo. Eu não sei quem vai responder por isso, mas a polícia parou com a festa que estava acontecendo na minha casa, mas não uma festa feita por mim. Eu não estava presente", garantiu.

No vídeo intitulado "Não julguem sem saber", publicado no Instagram, Elba Ramalho contou que foi até a casa no dia seguinte, mas os inquilinos temporários não estavam lá. A cantora teria levado máscaras aos funcionários do local: "Eu sai e nem conheço direito as pessoas. Sei quem são, mas é um contrato feito através de uma empresa, enfim. É evidente que, em um momento de pandemia, em que as pessoas estão enfrentando dificuldades pelas perdas, pelo medo".

Ela garantiu que não está realizando eventos. "Eu não sabia da festa, não tenho nada a ver com ela. Eu não tenho ido à festas. Fui ontem à inauguração de uma loja, tomei uma taça de vinho e aí já fizeram confusão. Aqui está todo mundo recluso, todo mundo fazendo testes. Mesmo já tendo tido covid, com aticorpos, fui almoçar, fiz um teste na casa das pessoas e está todo mundo se cuidando", concluiu. 

Assista ao vídeo:

 

 

A cantora disse que tem um nome a zelar e, por isso, foi às redes sociais para explicar o ocorrido: "Nesse exato momento, estou no olho do furacão. A mídia resolveu me pegar mais uma vez de bode espiatório de uma história que não tenho nada a ver com ela. A verdade é uma questão de honra para mim".

Alguns internautas saíram em defesa de Elba Ramalho, comoo empresário Danilo Faro: "Você é luz, minha amiga, e quem brilha incomoda quem está no escuro". Outros deram um puxão de orelha, como a cantora Sandra de Sá: "Irresponsabilidade. Parada que se repete". Já a apresentadora Astrid Fontenelle sugeriu: "Quebra esse contrato e ainda processa por perdas e danos".

 

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Com avanço da covid, festas privadas de réveillon em destinos turísticos motivam guerra na Justiça

Tribunal do RN manteve eventos liberados pelas prefeituras nas praias de Pipa e São Miguel do Gostoso; estabelecimentos e governo brigam por liminares em Porto Seguro

Priscila Mengue, Marcio Dolzan, Fernanda Santana, Luiz Henrique Gomes, Fábio Bispo, Especiais para o Estadão

30 de dezembro de 2020 | 05h00

Enquanto as infecções pela covid-19 aumentam, especialistas reforçam recomendações de distanciamento social. Na contramão, cidades turísticas pelo País recebem festas, muitas delas clandestinas, com centenas e até milhares de frequentadores no feriado do réveillon. A realização de eventos do tipo tem se tornado uma guerra na Justiça, com disputas entre organizadores de festas, promotores do Ministério Público e governos. Na maior parte dos casos, atrações públicas de ano-novo foram canceladas. 

Basta uma busca simples em sites de venda de ingresso para encontrar dezenas de exemplos em locais como o Rio e a região de Porto Seguro, no sul da Bahia. Em cidades turísticas, parte das celebrações já começou em meio a uma programação iniciada no domingo e que segue até o próximo fim de semana. Famosos também estão entre os anfitriões de grandes festas fechadas. Um evento em que é esperado o jogador Neymar já virou alvo de investigação

Grande parte dessas festas é para um público de maior poder aquisitivo, com apresentação de artistas e DJs conhecidos e bebida e comida liberadas. Os organizadores divulgam seguir “protocolos” sanitários ou que estão “monitorando” a pandemia, embora publicações de frequentadores nas redes sociais mostrem aglomerações e pessoas sem máscaras. Alguns dizem exigir resultados recentes de testes de covid-19 - medida criticada por especialistas por permitir uma janela de alguns dias de uma eventual contaminação e pela possibilidade haver falso negativo, dentre outros motivos.

No primeiro dos cinco dias de festas de réveillon nas praias de Pipa e de São Miguel do Gostoso, destinos badalados do Rio Grande do Norte, protocolos sanitários e avisos não foram suficientes para evitar aglomerações e incentivar o uso de máscara. Na contramão de outros locais do Nordeste, decretos das cidades de Tibau do Sul (onde fica Pipa) e São Miguel do Gostoso proíbem eventos públicos ou patrocinados com dinheiro público no fim do ano, mas liberam os particulares se houver apresentação de exame negativo para covid por parte do público, distribuição de máscaras e aferição de temperatura na entrada. 

O Ministério Público pediu a suspensão de festas, mas a Justiça alegou que não poderia intervir em determinações do Executivo, que liberou esse tipo de evento. Em dois meses, o número de internados nas UTIs privadas e públicas potiguares triplicou, com 256 pacientes nesta terça-feira. Tibau e São Miguel não têm leitos de terapia intensiva.

O Estadão não conseguiu contato com as duas prefeituras. O governo potiguar informou ter orientado as cidades a cancelarem todos os eventos do tipo. “Um cancelamento em cima da hora faria essas pessoas circularem livremente pelas ruas das praias, aumentando as aglomerações públicas”, justificou a assessoria do evento Let’s Pipa, que já ocorre na festa de Tibau do Sul. 

Em Porto Seguro, vaivém de liminares para permitir eventos

Na Bahia, o Tribunal de Justiça proibiu no dia 26, a pedido do governo estadual, “shows e festas, públicas ou privadas” em Porto Seguro. Mas um juiz da comarca local, Rogério Barbosa, liberou nessa segunda festas para até 200 pessoas em quatro estabelecimentos. Para ele, os casos específicos envolviam ambientes controlados. 

Em nova reviravolta, a liminar de liberação das festas caiu na noite dessa terça, após decisão do TJ baiano. No Twitter, o governador Rui Costa (PT) havia criticado “o risco à vida das pessoas” por quatro festas. 

Na noite de segunda, 28, policiais identificaram nove eventos clandestinos em condomínios e pousadas de luxo nos distritos de Trancoso e Caraíva. Em uma das casas, no Condomínio Alto de Trancoso, onde a diária no período próximo ao réveillon é de R$ 35 mil, policiais acharam ao menos 300 pessoas. O organizador, de Brasília, se recusou a acabar a festa e foi lavrado um auto criminal. A região tem recebido grande fluxo nos últimos dias. No distrito próximo a Caraíva, Trancoso, os relatos são de engarrafamento de jatinhos particulares no aeroporto local. 

“Parece que a pessoa arrisca porque faz a conta monetária e vê que vale a pena. O público, se via, era A, A, A, classe alta”, falou o tenente-coronel Anacleto França, comandante do 8.º Batalhão da PM de Porto Seguro. Em um dos vilarejos, com mil moradores, é prevista a chegada de 7 mil turistas. Fábio Costa, secretário de Serviços Públicos de Porto Seguro, disse que a cidade “sempre se posicionou contra esses eventos” e está atenta a qualquer princípio de aglomeração. 

Santa Catarina briga com MP para liberar casas noturnas e ocupação máxima em hotéis

Já em Santa Catarina, a disputa foi entre o MP e o próprio governo, que havia decidido autorizar a ocupação máxima de hotéis, a abertura de casas noturnas e a realização de eventos sociais. A promotoria chegou a obter liminar favorável para suspender essa medida, mas a Justiça deu vitória ao governo na noite desta terça. O Executivo estadual e representantes do setor têm apontado o risco de eventos informais, menos sujeitos a controle e fiscalização. O mapa de risco para a covid aponta que todas as 16 regiões de Santa Catarina estão no nível de alerta gravíssimo. Segundo o MP, o decreto que afrouxou o isolamento não seguiu critérios técnicos e científicos. 

Na decisão final sobre o assunto, desta terça, 29, o desembargador Raulino Jaco Bruning sustenta que o Judiciário só pode interferir nas opções políticas fundamentais “em situações excepcionais” e afirma que mesmo que não se desconheça “o crítico momento que o Brasil e outros países estão atravessando neste final de ano[...], compete precipuamente ao Poder Executivo fazer escolhas e eleger prioridades que assegurem o desenvolvimento e o funcionamento integral das múltiplas atividades do Estado”.

Presidente da Federação dos Hotéis, Bares e Similares, Estanislau Bresolin disse que o setor não teria condições de cumprir as determinações de controle da ocupação. “O hotel não tem domínio das reservas de forma integral. Talvez a maior parte das reservas são vendidas em pacotes, por meio de aplicativos ou de operadoras. É isso que estamos nos perguntando, como que faz? O cidadão compra uma passagem com hospedagem e nós que devemos decidir quem mandamos embora e quem fica?”, questionou emendando que “os hotéis não conseguirão fazer esse controle”.

Em Balneário Camboriú, a prefeitura ainda proibiu que população solte fogos entre 18h do dia 31 e 6h do dia 1º. Nesse mesmo período, fica vedada a montagem de tendas na praia. Segundo a prefeitura, casas noturnas estão funcionando como bares e restaurante, como forma de burlar as proibições, e a vigilância sanitária está visitando todos os estabelecimentos que estão anunciando ter noite de réveillon para esclarecer sobre as medidas sanitárias e de distanciamento.

Búzios prevê multa de até R$ 30 mil para coibir aglomeração

Búzios, na Região dos Lagos fluminense, tem endurecido medidas. Festas não autorizadas podem levar à cassação do alvará para o comércio e multa de até R$ 30 mil. Em barreiras sanitárias na cidade, é preciso apresentar código emitido por estabelecimentos comerciais e de hospedagem. A prefeitura disse que fiscais e agentes atuam “para coibir o desrespeito” às regras e “garantir a segurança de moradores e visitantes”. A cidade quase teve um lockdown há dez dias, por decisão judicial. O Estado diz dialogar com prefeituras e adotar ações para reduzir a circulação.

A cidade do Rio chama a atenção pela oferta de festas mesmo após cancelar a queima de fogos em Copacabana. Em um site de vendas, há ingressos para 11 eventos do tipo, com entradas de R$ 490 a R$ 2,5 mil. “Sabemos que fazer festa de réveillon, principalmente nesse ano, é uma grande responsabilidade. Mas estamos prontos para superar qualquer expectativa e, com todo o cuidado do mundo, fazer com que vivam o melhor réveillon de suas vidas”, diz a descrição de um dos eventos.

Eventos vão piorar curva crescente do vírus, alertam especialistas

Especialistas ouvidos pelo Estadão criticam os organizadores de festas durante a pandemia, os frequentadores e a atuação do poder público nesses casos. Destacam que esses eventos vão impactar a curva já ascendente da doença no País, sobrecarregando cidades que já estão com a capacidade hospitalar comprometida.

“Estamos num momento de pandemia muito difícil no País inteiro.  Até quem estava com os números não tão ruins, como Estados do Norte, estão com aumento de internações e óbitos”, destaca a infectologista Raquel Stucchi, professora da Unicamp. “Os números estão tão preocupantes quanto os da Europa, que já iniciou a vacinação e está com medidas para bloquear a transmissão.”

Ela pondera que as questões econômicas precisam ser observadas, mas que não é possível agir como se “tudo estivesse sob controle”. “Um gestor é inconsequente, quase criminoso, ao abrir tudo em nome do turismo." Para Raquel, os organizadores e os frequentadores também devem ser punidos, seja por multa ou prestação de serviços.

Colunista do Estadão, professor da USP e da FGVSaúde e ex-presidente da Anvisa, o sanitarista Gonzalo Vecina Neto reitera que “não existe a menor possibilidade de qualquer tipo de medida preventiva efetiva para uma aglomeração”. Isto é, os protocolos citados pelos organizadores são insuficientes para realmente conter a doença.

Ele lembra, ainda, que a realização desses eventos em destinos turísticos pode gerar aumento rápido na demanda por leitos e atendimento em municípios pequenos, sem estrutura suficiente. “O que essas pessoas estão fazendo é levar a capacidade de produção da doença para regiões que talvez tivessem um índice de transmissão mais baixo.”

Vecina também reitera ser preciso que a população entenda que a decisão de ir a uma festa não afeta só a própria saúde, mas tem consequências coletivas. Isso porque a pessoa pode necessitar de atendimento na rede, mas, principalmente, pelo fato de o ser humano ser o principal vetor da doença.  “O governo tem a obrigação de proteger a saúde da população. Esse tipo de evento tem de ser proibido. É responsabilidade do Estado evitar mortes”, diz. “São crimes que têm de ser punidos. E o Ministério Público também deveria atuar, tem a função de defender a ordem descrita nas leis, tem a obrigação de apurar e punir essas pessoas.”

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