FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Caetano Veloso encerra a Virada Cultural em São Paulo

No show, músico se posiciona: "Para aqueles que estão dizendo Israel, não, digo Palestina, sim"

O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2015 | 21h21

Caetano Veloso fechou a Virada respondendo, enfim, aos pedidos para que não fizesse com Gil o show marcado para 28 de julho, em Tel-Aviv, Israel. Talvez como reação à presença de uma bandeira da Palestina, ele disse: “Para aqueles que estão dizendo Israel, não, eu digo Palestina, sim”. E foi assim, com um breve momento de posicionamento político, que o baiano encerrou uma das Viradas mais tranquilas desde a estreia da festa no calendário, há 11 anos. 

A Virada Cultural pode ter atingido, em 2015, sua melhor equação dos últimos anos, desde que os arrastões se tornaram parte da programação. Um retrospecto breve com relação à edição de 2013, considerada uma das mais violentas, mostra que algo deu resultado sobretudo durante a madrugada. Naquele ano, foram 12 arrastões, com duas mortes e dez feridos, seis por facadas e quatro por armas de fogo. Neste, segundo a PM, foram 73 ocorrências (até às 16h de ontem) e nenhum registro de crime violento. O número de atendimentos médicos foi de 268 nos dois dias, contra 1.882 em 2013.

A sensação de segurança foi mais forte neste ano, ligada à presença de três mil homens. Ainda às 22h de sábado, pelotões desfilavam pela Avenida Ipiranga e arredores como se dessem recados aos bandidos. No palco Julio Prestes, o mais vulnerável a furtos, foi instalado pela primeira vez um Posto de Observação Elevado, moderna base com monitoramento por antenas. Um helicóptero também sobrevoava o perímetro durante a madrugada.

Mas a paz, ou o cenário mais próximo a ela, pode ter seu preço. O que parece ligado diretamente ao maior clima de segurança é o fato de o público ter sido visivelmente menor. Houve um esvaziamento da Virada. Se em 2013 o número divulgado pela prefeitura foi de 4 milhões de pessoas, neste ano o Secretário de Cultura, Nabil Bonduki, preferiu não falar em números. “Tivemos um público que estimo semelhante aos últimos anos. Certamente menor na madrugada e maior durante o dia”, avaliou. Disse não ter feito cálculo por faltar base científica que considerasse a movimentação. “A Virada dura 24 horas. Alguns vêm para um show e outros ficam 12 horas. Mas, de uma maneira geral, eu diria que tivemos um número muito significativo.”

Não é bem assim. Palcos como o da Jovem Guarda chegaram a ter shows esvaziados em um terço da expectativa da organização, considerando a posição dos PAs avançados (caixas acústicas colocadas no meio da plateia). Em alguns lugares, como no Arouche e no Julio Prestes, eles se mostravam desnecessários, já que a linha do público concentrado não chegava nem perto de suas posições. Não mais do que duzentas pessoas assistiam a Leno e Lilian na noite de sábado. Mesmo o hitmaker Fabio Jr, no Julio Prestes, fez uma apresentação envolvente às 3h30 da madrugada para pouco mais de um terço das pistas reservadas na Avenida Duque de Caxias.

Dos novos espaços, três deles se destacaram. A homenagem a Inezita Barroso ganhou dois palcos na Praça da República. O maior recebeu nomes sertanejos clássicos, como Pedro Bento e Zé da Estrada e, o segundo, menor, ficou apenas para trios e quartetos de forró pé-de-serra. Este poderia ser adotado sem riscos para as próximas edições. Sua vibração era a mesma tanto às 22h de sábado quando às 4h da madrugada ou às 11h de domingo. O palco instrumental, na Barão de Itapetininga, colocou gente grande da produção paulista, como os pianistas Amilton Godoy e Débora Gurgel, a flautista Lea Freire e o Trio Corrente, vencedor de dois Grammy. E o palco do choro, na Praça do Patriarca, teve um formato leve, simulando uma roda de choro com revezamento para uma plateia respeitosa, envolvida por performances cheias de virtuosismo.

O dólar em alta tirou os grupos internacionais da programação, uma medida para que os mesmos R$ 14 milhões de investimentos de 2014 não sumissem pelo ralo do câmbio nesta edição e reduzisse o número de atrações nacionais. E ao menos um blockbuster foi mantido, Caetano Veloso, que fez o fechamento na noite de ontem com praticamente o mesmo show que mostrou em sua turnê do disco Abraçaço.

A plateia foi em peso ver Caetano, que incluiu ao repertório Sampa (que usava em alguns shows da temporada), Desde que o Samba é Samba e Sozinho. Antes de Caetano, Emicida e Martinho da Vila haviam transformado o Julio Prestes em roda de samba homenageando Jair Rodrigues, morto em 2014, com uma versão de Deixa Isso para Lá. Wanderléa, no São João, trocou boas energias com a plateia. Com lágrimas, disse: “Vocês parecem um coral de anjos”.

As crianças ganharam boa programação na Viradinha, com shows, oficinas e jogos. No entanto, a infraestrutura deixou a desejar. A Biblioteca Monteiro Lobato é um espaço agradável, mas a casa onde está instalada, assim como as ruas no entorno, não conseguiu comportar o número de adultos e crianças. Isso fez com que a locomoção fosse cansativa. O show do Palavra Cantada era uma das principais atrações, mas frustrou muitos pais e filhos que encontraram dificuldade para acessar a plateia na rua estreita onde o palco foi montado. / Adriana Del Ré, Adriana Moreira, Luiz Fernando Toledo, Pedro Antunes, João Paulo Carvalho, Julio Maria e Paula Carvalho

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