Caetano e Augusto de Campos

Ao som de "ocupa", "libera" e "democracia", uma multidão tentava garantir, no fim da tarde de quinta-feira, um lugar na pequena sala do Centro Cultural b_arco escolhida pela Balada Literária para receber Augusto de Campos e Caetano Veloso. Marcelino Freire, curador do evento gratuito, pedia calma: "As pessoas têm paciência para o 'disque-ingresso', mas não têm paciência para um evento destes".

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2011 | 03h07

Para ajudar a atrapalhar, a tecnologia falhou e quem ficou de fora não pôde nem assistir pelo telão, que era a ideia inicial da organização. A solução, então, foi abrir a porta que dava para a rua para que mais gente aproveitasse a conversa dos dois velhos amigos, mediada por Claudinei Ferreira, do Itaú Cultural.

Mais do que discutir o concretismo e o tropicalismo, os convidados aproveitaram para lembrar o passado e a aproximação, não imediata, no fim dos anos 60. Caetano ainda morava na Bahia quando ouviu falar dos poetas concretos, mas só guardou o nome de Décio Pignatari por causa de seu sobrenome.

Augusto ouviu Caetano pela voz de Maria Odete, que cantava Boa Palavra no Festival da Record. "Vi o rosto de Caetano na plateia e pensei: há um deus nesse cara." Depois, Augusto escreveu sobre ele para o Suplemento Literário do jornal Estado e Caetano se surpreendeu ao ver como ele tinha compreendido o movimento. E veio a explosão de Alegria, Alegria. "Foi como se eu tivesse adivinhado que ele seria diferente dos outros."

O primeiro encontro foi durante as gravações de Tropicália e por intermédio do maestro Júlio Medaglia. "Eu já tinha visto o Caetano no Rei da Vela sozinho, meio hindu, e achei estranho que eu, já mais velho, chegasse nele." Nos primeiros encontros, a conversa não fluía naturalmente. "Até deixei crescer um pouco o cabelo para poder falar com ele", brinca Augusto, mais tímido que o irmão Haroldo e o amigo Décio, "que era um furor".

Mesmo assim, passou a frequentar a casa do músico, na Avenida São João, no prédio quase vizinho ao que trabalhava como procurador do Estado.

"Eu não tinha intimidade para ficar batendo lá. Quando saía algum livro, aproveitava para levar para ele", comenta. Caetano diz que achou Augusto simpático, mas muito reservado, e que isso o deixou tímido para começar um contato. "A conversa com Haroldo e Décio fluía bem, mas ficava mais na superfície do que o diálogo tímido com Augusto."

O concretista lembra mesmo que levou tempo para se encaixar. "O apartamento do Caetano era uma loucura. Eu chegava lá de terno e gravata e via todos aqueles baianos cabeludos. Demorei para me adaptar a eles e eles a mim." Caetano gostou de lembrar da antiga casa. "Eram poucos móveis, tudo colorido, meio hippie e meio ficção científica. Era muito bonito, diz.

A Balada Literária termina no domingo, mas a Ressaca Literária já começa na quarta-feira, no Centro Cultural b_arco, com Ondjaki, dia 23, e Lourenço Mutarelli, Rafael Coutinho, Fábio Moon e Gabriel Bá, dia 27.

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