Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Caderno para a filha rende romance a João Anzanello Carrascoza

'Caderno de Um Ausente' conduz o leitor em cadência reflexiva com prosa poética

Rodrigo Petronio, Especial para O Estado de S. Paulo

23 de maio de 2014 | 21h00

Após uma gravidez de risco, em 13 de abril de 2012, às 14h21, vem à luz a menina Beatriz Carrascoza, na maternidade Santa Catarina, em São Paulo, filha de Juliana e João, ambos professores. O pai narrador, com cerca de 50 anos, decide escrever um caderno à recém-nascida para preencher a própria ausência futura. Nessa chave, a obra caderno se dirige sempre a um tu, Bia. Além disso, sugere uma fatalidade: a filha não compartilharia a vida com o pai.

Como em uma filmagem ou álbum de retratos, João descreve detalhes de sua vinda ao mundo, a genealogia da família e se apresenta a si mesmo. Acima de tudo, endereça a obra caderno ao futuro desta personagem, como maneira de suprir a ausência paterna. Depois de uma premiada carreira como contista, este é o argumento central do segundo romance de João Anzanello Carrascoza, Caderno de Um Ausente, que a Cosac Naify acaba de lançar. Como se tornou uma marca de seu estilo, Carrascoza conduz o leitor em uma cadência reflexiva. A linguagem é a da prosa poética, tendendo sempre ao lirismo.

Em seu romance anterior, Aos 7 e aos 40 (2013), Carrascoza também havia abordado a paternidade. Ao desdobrar o narrador em dois personagens, o homem e o menino, um narrado em terceira pessoa e outro em primeira, criara dois planos narrativos e temporais. Primeiro: o presente de um casal em processo de separação. Segundo: o espelhamento entre o pai narrador e o filho personagem fortalece as lembranças que o narrador tem da própria infância. Ao final, os dois planos se cruzam, em uma visita que o narrador realiza à sua cidade natal, reencontrando-se com o menino que um dia fora.

Em Caderno de Um Ausente, a estrutura ficcional se altera. A primeira voz continua sendo paterna. Ao passo que a segunda voz, da filha, permanece virtual, implícita nas descrições de um presente que, ao narrar, o pai confia à sua futura leitora. Entretanto, desde as primeiras linhas, a obra é marcada por um recurso: espaços em branco mimetizam graficamente as lacunas de um diário. Ao fazê-lo, a expectativa decisiva criada pelo pai narrador se altera de modo brusco e deixa em aberto o eventual desfecho do romance.

Estamos neste romance diante de reflexões caras a Carrascoza. Uma delas são as relações de forte intimidade, sejam familiares ou entre amigos. Outra diz respeito ao nó existente entre afetividade, linguagem e silêncio, uma das diretrizes também de seus contos, sobretudo em O Volume do Silêncio (2006). Dentre os ângulos de leitura possíveis de seu novo romance, um salta aos olhos: o explícito recurso autoficcional. Se a autoficção estava presente de modo sinuoso em Aos 7 e aos 40, em Caderno de Um Ausente a autoficção torna-se central e programática.

A autoficção pode ser entendida como uma literalização da estrutura autor-narrador-personagem, de modo que dados ficcionais da obra remetam diretamente a dados da vida real do escritor. Neste caso, o escritor Carrascoza se vale não apenas do suporte gráfico do diário para embaralhar ficção e confissão. Também confere seu primeiro nome ao pai narrador em primeira pessoa (João), bem como atribui seu sobrenome à personagem da filha (Carrascoza).

Um longo debate tem ocupado a literatura contemporânea em torno das possibilidades e limitações do recurso autoficcional. De modo geral, esse debate parte de uma concepção equivocada do que venha a ser realidade. Se somos incapazes de conferir um contorno preciso à origem, ao sentido e à intenção de qualquer narrativa, como seria possível demarcar esse contorno em uma narrativa explicitamente ficcional como um romance? Isso demonstra que qualquer fato de linguagem é em certa medida ficcional.

Se o caderno é de um ausente, este ausente não é apenas o pai narrador em relação à filha personagem. Este ausente também é o escritor. Por isso, o maior valor deste romance caderno não são os vestígios de presença da vida real de Carrascoza nas entrelinhas da ficção. O maior valor deste romance caderno é o que possamos encontrar de literatura nas linhas literais de nossas próprias vidas, refletidas neste espelho de dor e silêncio com as quais Carrascoza, como escritor, nos presenteia.

RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR E FILÓSOFO. AUTOR, ORGANIZADOR E EDITOR DE DIVERSAS OBRAS. PROFESSOR DA FAAP E DO MIS

CADERNO DE UM AUSENTE

Autor: João Anzanello Carrascoza

Editora: Cosac Naify (128 págs., R$34,90)

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