Reprodução
Reprodução

Caderno 2: 25 anos

No balanço dos primeiros 25 anos, a capacidade de unir informação e análise, ultrapassando os limites impostos pelo efêmero do cotidiano

Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo,

06 Abril 2011 | 06h00

O mistério terminou em um domingo, 6 de abril de 1986, há exatos 25 anos. Na manhã daquele dia, bancas de todo o Brasil receberam o Estadão com a novidade que vinha alimentando colunas de fofocas e temores da concorrência - um caderno totalmente dedicado à cultura, o Caderno 2.

 

Com cara de revista mas agilidade de jornal, o novo produto surgia com uma missão considerada quase impossível para o Estadão da época: conquistar o público jovem mostrando o lado leve da notícia. "Era um projeto arrojado tanto de marketing como cultural, pois pretendíamos derrubar a Ilustrada (da Folha de S.Paulo), que reinava sozinha", lembra Luiz Fernando Emediato, o primeiro editor do C2, à frente de uma equipe de 36 nomes, como Caio Fernando Abreu e Antonio Bivar. "Além de reportagens, promovemos a volta da crônica às paginas de um jornal brasileiro."

 

Na capa da primeira edição - que promoveu uma tiragem recorde do Estado, com 576 mil exemplares -, uma entrevista exclusiva com Chico Buarque e Caetano Veloso que, dias depois, estreariam um programa na TV Globo. O visual já impactava - o projeto gráfico criado por Jean-Michel Gauvin projetava as fotos, que se destacavam imensas nas páginas. O texto também ocupava um espaço irregular, circundando as imagens.

 

Veja também:

especialEspecial: As capas históricas do Caderno 2

link Matinas Suzuki: Com o 2 ficou melhor

link Ignácio de Loyola Brandão: Diversidade, afeto e língua afiada

blog Blog do Arquivo: Parabéns, Carderno 2!

 

"Além do desenho, que ficou mais sóbrio e enxuto, a mudança trouxe páginas semanais de música, cinema, livros, televisão, vídeo e atrações da cidade", relembra Marta Góes, que também editou o Caderno 2, assim como José Onofre, Antonio Gonçalves Filho, Evaldo Mocarzel e Dib Carneiro Neto.

 

Antes de chegar às bancas, o C2 (que inicialmente se chamaria ETC, nome dado a uma de suas colunas internas) dominou uma campanha publicitária veiculada na TV em que Lúcio Alves e Roger, do Ultraje a Rigor, cantavam um jingle promovendo a convivência do novo com o antigo. "Usando bermuda por baixo do terno", era o tema, que tanto buscava novos leitores como pretendia manter os mais fiéis.

 

A curiosidade sobre o novo produto agitou o mundo publicitário, que lotou o Paladium, antiga casa de espetáculos, onde aconteceu a festa de lançamento do C2. Circulando entre os convidados, estava até um representante do jornal rival, disposto a desvendar o mistério a fim de se preparar para a futura concorrência.

 

O sucesso foi imediato. As novas seções caíram no agrado do leitor, que mantinha um contato direto com a redação. "Tínhamos uma relação franca, a ponto de publicarmos cartas de reclamação e concluirmos com respostas do tipo: ‘Vá lamber sabão’", diverte-se Emediato.

 

Outra novidade, aparentemente prosaica, encantou os leitores: o formato dos quadrinhos, que passaram a ocupar um quarto de página, o que permanece ainda hoje. A decisão veio depois de uma pesquisa em que os fãs diziam gostar de dobrar a página até chegar àquele formato.

 

Por conta disso, o Caderno 2 passou a receber mais cartas que o próprio jornal e seus textos começaram a incomodar. Em 1988, por exemplo, o então prefeito de São Paulo Jânio Quadros, incomodado com uma crônica de Caio Fernando Abreu, entrou com uma queixa-crime contra o escritor, por colocar em dúvida "a capacidade psíquica" do governante. Outros cronistas, como Paulo Francis, reforçaram a tradição de criar polêmicas e gerar debates.

 

Além do visual arrojado, o caderno logo marcou presença pelas matérias exclusivas. Como publicar a foto da cantora Madonna já flertando com seu personal trainer Carlos Leon, durante a turnê da cantora por São Paulo, em 1993 - a imagem, captada em um edifício em frente ao hotel onde ela estava hospedada, causou furor e foi reproduzida em todo o mundo. Ou ainda a entrevista com o maestro John Neschling, em dezembro de 2008, quando seus ácidos comentários sobre a Sinfônica do Estado custaram-lhe, pouco depois, a direção da orquestra.

 

O C2 ficou famoso até por matérias que não publicou. "Lembro que Tom Zé me pediu passagens aéreas para cobrir a visita de Arto Lindsay a Salvador. Embarcou e nunca entregou uma linha", diverte-se Marta Góes.

Mais conteúdo sobre:
Caderno 2 aniversário

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.