EDUARDO NICOLAU/ESTADÃO
EDUARDO NICOLAU/ESTADÃO

Cadernetas

Sempre acreditei que jogar papel impresso fora é pecado. Já teve um tempo em que eu guardava até volante de dedetizadora distribuído na rua. Minha mulher conseguiu, aos poucos, me trazer para a razão, em parte porque não havia mais lugar em casa para tudo que eu colecionava. Hoje, já aceito que doar livros não é o mesmo que jogá-los no lixo e que o limite da existência de uma revista é exatamente o limite entre o papel e o farelo. Mas ainda sofro para me desfazer de suplementos guardados para ler depois que eu nunca leria, pois já não se distinguiria o texto do mofo.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

10 Julho 2016 | 02h00

Por estes dias, tentando arrumar meus papéis e livros num daqueles periódicos surtos de virtude que nos acometem, e do qual nos arrependemos em seguida, dei com algumas cadernetinhas quase em decomposição – e a revelação de como eu era muito mais organizado, na infância e na adolescência, do que sou hoje. As cadernetas serviam como catálogos de tudo que era meu, incluindo meus gibis em ordem cronológica

As cadernetas também serviam para fazer listas. Eram retratos das minhas preferências na época. Uma lista dos melhores diretores de cinema (que fim levou o Laszlo Benedek?), de jogadores que eu convocaria para a seleção (a maioria do Internacional), de músicas e músicos.

*

Uma das cadernetas é de números de telefones e endereços caprichosamente anotados e com lembretes crípticos ao lado, como “Ana Paula (a da pintinha)”. Não tenho a menor ideia de quem era a Ana Paula, mas acho que me lembro da pintinha. Há outros nomes femininos, estes sem telefone, endereço ou pintinha, no que talvez também fosse uma lista de minhas preferências em mulheres, embora duvide que eu tenha chegado perto de algumas delas (da Rita Hayworth eu tenho certeza que não cheguei).

*

Em outra caderneta tentei manter um registro detalhado dos meus gastos em Nova York, quando morávamos em Washington e as minhas aventuras solitárias na cidade grande eram com orçamento apertadíssimo. Há alguns espantos nas anotações. Passagem para NY (de ônibus): 5 dólares. Almoço em NY: 90 centavos. Cinema: 70 centavos. Revista (provavelmente de sacanagem): 35 centavos. Subway: 15 centavos. Entrada para ouvir jazz no “Birdland”: um dólar e 25! O ano é o de 1954, e o mais espantoso de tudo é que eu tinha 18 anos!

Mais conteúdo sobre:
Crônica O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.