Cadeira de Machado de Assis, em disputa acirrada na ABL

Os 39 imortais escolhem nesta quinta-feira entre 21 candidatos quem terá a honra de ocupar a cadeira 23

Márcia Vieira e Roberta Pennafort, de O Estado de S. Paulo,

21 de agosto de 2008 | 10h24

Nunca houve eleição como esta em 111 anos de história da Academia Brasileira de Letras. Nesta quinta-feira, 21, os 39 imortais escolhem entre 21 candidatos quem terá a honra de ocupar a cadeira 23. Não é uma vaga qualquer. Foi inaugurada por Machado de Assis, que escolheu como patrono José de Alencar. Jorge Amado ocupou-a por quatro décadas. Sua mulher, Zélia Gattai, o substituiu por sete anos. Nas prévias informais, feitas entre um gole de chá e outro, aparece como favorito o jornalista e crítico de música clássica Luiz Paulo Horta. Também estão no páreo os escritores Antônio Torres e Ziraldo, a historiadora Isabel Lustosa e o crítico literário Fábio Lucas. Vence quem conseguir 20 votos. A contagem informal, feita por um acadêmico, mostra que Horta tem 13 votos, ante 7 de Antônio Torres, 5 de Isabel Lustosa, 4 de Ziraldo e 4 de Fábio Lucas. Dois motivos explicam a disputa acirrada. Desde 2006 não há cadeiras vagas. "Houve uma demanda reprimida. A medicina não deixa mais ninguém morrer", brinca o imortal Ivan Junqueira, de 73 anos. Além disso, não se candidatou à vaga nenhum medalhão. O sonho da ABL é atrair o crítico literário Antonio Candido, de 90 anos, que não aceita o convite de jeito nenhum. "Ele seria aclamado. É o objeto do desejo da ABL", admite o presidente da casa, Cícero Sandroni, de 73 anos. Sem Candido ou outro nome tão forte, a disputa está pulverizada. "Não vai resolver-se facilmente", acredita Sandroni. O ritual da ABL determina que sejam realizados até quatro escrutínios no dia da eleição. A votação é secreta e todos os votos, escritos em pedaços de papel, são incinerados ao fim da eleição. Quem não puder ir até a ABL envia o voto ao presidente por carta. O candidato que não conseguir 10 votos na primeira ou na segunda votação está eliminado. Faz-se então o terceiro escrutínio. Se ninguém chegar aos 20 votos, é realizado mais um. Se ainda assim não se chegar às duas dezenas de votos, convoca-se outra eleição para três meses depois. "Esta casa vive de surpresas. Mas, a princípio, Luiz Paulo Horta está bem melhor do que os outros", aposta Junqueira. Ele fala com a autoridade de quem conhece bem os meandros da casa fundada por Machado de Assis. Não há critério claro que explique os votos de cada um. Os motivos vão de amizade a gosto literário. "Voto no Antônio Torres. Ele faz parte da minha vida literária, da minha história", explica Nélida Piñon, de 71 anos, há 19 ocupando a cadeira 30. Nélida é exceção. Os outros acadêmicos não revelam abertamente o nome do escolhido. Ninguém quer se indispor com este ou aquele candidato. "Eleição é algo muito sutil. Na minha vez, eu dormia com 10 votos e acordava com 6", brinca Domício Proença, de 72 anos, na casa desde 2006. Horta candidatou-se por sugestão de amigos acadêmicos. "Acho que é tudo questão de timing. Não sei se acertamos. A casa tem seus mistérios", acredita. Pesa contra Horta o fato de ele ser autor restrito a livros de música clássica. "Ah, isso é bobagem", defende o imortal Marcos Vilaça, de 69 anos. "Se fosse assim, não estariam aqui o Ivo Pitanguy (cirurgião plástico), o Nelson Pereira dos Santos (cineasta). A ABL engloba todas as artes", defende. "Horta é apontado como favorito. Acho que não ganha se houver muitas abstenções. Mas eleição é como namoro de solteirona, cheio de incertezas", filosofa. A academia tem seus códigos de conduta. Reza a cartilha da imortalidade que é de bom tom os candidatos procurarem os acadêmicos e lhes enviarem seus livros. "Visito todos. Para mim, é um sonho fazer parte desse grupo que reúne 40 pessoas da nata da cultura e da inteligência brasileira", diz Isabel Lustosa, autora da biografia de d. Pedro I. Fazer jantares também funciona. Horta já organizou alguns. "Não é fácil fazer campanha. Mas esse contato com os acadêmicos faz parte da liturgia da casa", acredita. Antônio Torres e Fábio Lucas são mais discretos. O crítico mineiro só enviou cartas. "Um acadêmico me ligou para dizer que tenho o currículo mais abundante entre os candidatos", diz Fábio Lucas, autor de mais de 50 obras. Torres vive em Itaipava, região serrana do Rio. Há um ano, parou de fumar e de beber. "É muito difícil encarar uma eleição de cara limpa", brinca o autor de Um Cão Uivando nas Trevas. E cita o conterrâneo Jorge Amado para justificar seu desejo de entrar para a ABL. "O escritor que aos 20 anos quer entrar para a ABL é um idiota, tanto quanto o que já passou dos 40 e não quer."  Polêmica sobre Ziraldo Dos cinco candidatos de expressão, Ziraldo é o mais polêmico. "A chamada bolsa ditadura pesou. Ele saiu chamuscado do episódio e isso tem peso na academia", analisa Ivan Junqueira. Em abril, o criador do Menino Maluquinho recebeu R$ 1 milhão da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, além de pensão mensal de R$ 4 mil, em processo no qual alegava ter prejuízos com a perseguição política durante a ditadura militar. Ziraldo não quer falar da sua candidatura: "Aprendi que candidato não deve dar entrevista." E usa um símbolo da ditadura para se justificar. "Como diria Armando Falcão (ministro da Justiça de Ernesto Geisel), nada a declarar." A candidatura de Ziraldo alimentou intrigas na casa. Sua amiga e imortal Ana Maria Machado, de 66 anos, o aconselhou a retirar seu nome. Um acadêmico antigo na casa acredita que a indenização não é problema, até porque outro imortal, Carlos Heitor Cony, recebe o benefício desde 2004. O problema, segundo esse acadêmico, foi a reação de Ziraldo. Na época, o cartunista reagiu assim às críticas: "Estou me lixando. Esses críticos não tiveram a coragem de botar o dedo na ferida, enquanto eu não deixei de fazer minhas charges. Eles tomavam cafezinho com Golbery." Apesar de ter eleições sempre muito concorridas, existem escritores que não aceitam fazer parte da Academia Brasileira de Letras. "Tenho muitos amigos lá. Mas nunca pertenci a academias ou grupos. Gosto mesmo é de ficar em casa estudando", explica o crítico literário Antonio Candido, de 90 anos. O escritor Luis Fernando Verissimo relembra o pai, Erico. "Uma vez, após um enfarte, meu pai foi convidado a se candidatar à ABL e respondeu: ‘Mas eu já sou quase uma vaga!’ Quando o amigo Vianna Moog insistiu, disse: ‘Está bem, Moog. Vou me candidatar para a tua vaga.’ Moog nunca mais tocou no assunto. Meu pai era contra qualquer tipo de formalidade". Verissimo, o filho, vai na mesma linha: "Eu não me candidato porque não tenho obra literária que mereça a honra nem o físico para o fardão, ainda mais depois que o (Moacyr) Scliar me contou que a gente não fica com a espada. Mas também tenho amigos lá dentro e respeito a instituição".

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