Cadê a pergunta?

O namorado da Vick, uma das melhores amigas da minha mulher, é jornalista e me mandou uma pergunta simples, que eu responderia numa frase em linha reta, para uma matéria que escrevia sobre literatura. Claro, respondo logo, logo. Fui fazer um café, voltei ao computador. A pergunta sumiu.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2015 | 02h00

Eu jurava que ele a tinha mandado como uma mensagem na minha página pessoal do Facebook. Mas ela não estava lá, nem a carinha dele. Chequei incrédulo com o cursor para baixo até perguntas da década passada. Nada. Claro, mandou pela minha time-line, a linha de tempo. Apesar de não ser comum, já que tornaria uma pergunta pessoal que se tornará pública futuramente em pública antes de ser impressa na revista em que trabalha, sem controle de privacidade, muita gente faz perguntas pessoais publicamente na time-line. Chequei. Não mandou, não. Um jornalista não cometeria tamanha gafe.

Então foi na minha página profissional do Face, a que erroneamente a empresa chamava de Fanpage, o que me fazia sentir um Justin Bieber farrista, não um ativista da vida 24 horas ao dia. Esse espaço, sim, é público, sem limites, bloqueios ou ação de ferramentas e algoritmos que me ofereçam privacidade: um fórum de debates. Não foi. Foi uma notificação da Fanpage? Não foi. Na linha de tempo de algum post? Não. No meu blog! Não.

Nada disso. Foi no meu Twitter. Apesar de também ser incomum, muita gente escreve uma MD, ou Mensagem Direta. Não é o lugar ideal para se perguntar algo a alguém. Aliás, só pessoas que sigo poderiam me mandar uma MD. E, se não sigo, costumam me pedir para segui-las em Notificações, com a senha “MD”: isto é, primeiro eu deveria passar a segui-las, para depois esperar uma mensagem direta que só nós dois leríamos. Como nunca uso Mensagens Diretas, e muito menos sigo o namorado da Vick no Twitter, quase não as tenho. Não, não foi lá que me enviou a pergunta. Mas me lembrarei de perguntar da próxima vez qual o twitter dele. Ele deve ter um.

Foi pelo Skype? Por vezes, me reúno através dele, e, ao estar online, amigos aparecem para um bate-papo. Tive que abri-lo. Esperei. Nada. Foi um e-mail, claro! Esta forma jurássica de se comunicar ainda é a minha preferida. Chequei no Outlook. Não a encontrei. Coloquei óculos de leitura e chequei de novo. Nada. Nada em Visualizações Rápidas. Nada na Caixa de Entrada. Foi apagada acidentalmente? Não. Nada nos Itens Excluídos, nem no Lixo Eletrônico.

Chequei meu e-mail 2, na verdade, o primeiro da minha vida, criado em 1996, quando se abriu a rede no Brasil para o “servidor” privado, na época em que se falava Servidor, antes na mão do Estado. É um e-mail hoje que, mesmo com antispam, recebe 30 ofertas e notificações diárias de planos de saúde que já tenho e que não tenho, sugestões de pautas, cursos e viagens que não farei, e notícias que não lerei. Não me mandou nada por este e-mail obsoleto. No meu gmail? Pouco uso meu gmail. Uso mais para transferências de grandes arquivos, ferramenta utilíssima do gmail. Nada.

Instagram. Ou Insta. Claro. A segunda maior rede social do mundo. À frente do Twitter, só perde para o Facebook. Mas, espera lá. Eu não uso Instagram. Minha mulher me abriu uma conta. Postei duas fotos em cinco anos. Nem sei se tenho ainda. Nem a senha. Nem como abrir. No G+? Abri uma conta no G+, o concorrente da Google do Face. Mas como não decolou, nunca entrei nela. Não tenho LinkedIn, apesar dos convites para fazer parte dele.

Posso ter me confundido, e a pergunta veio via celular, que se tornou a miniatura de um computador com telefone, máquina fotográfica, bússola, moça do tempo, cooperativa de táxi, repórter aéreo de trânsito, discoteca, restaurante delivery, nutricionista (especialistas da Apple elegeram quatro entre 20 melhores aplicativos os de receitas saudáveis) e despertador acoplados.

Não ouvi na secretária de voz. Não vi nenhuma mensagem, msn, que antigamente dizíamos “torpedo”, dele. Que eu saiba, não participamos de nenhum grupo de conversas do WhatsApp de amigas e namorados de amigas da minha mulher. Nem vi uma mensagem pessoal dele no WhatsApp. Facetime! Não, não me ligou, nem me mandou nada pelo FaceTime.

Há dias, acordo pensando nisso. Não consigo fazer mais nada, enquanto não encontrar esta pergunta que paira em alguma nuvem, à espera da minha resposta, como um balão perdido de uma festa infantil, uma interrogação de hélio. Pior que ele deve precisar, tem pressa, jornalistas têm deadlines, e são aterrorizados por eles, ele tem um deadline. Minha mulher está de prova. Tentei de tudo. Face, Twitter, Insta, Skype, e-mail, gmail, WhatsApp, msns, até FaceTime...

Será que pega mal eu telefonar pra ele? Não, o fax já dispensei. Logo depois da secretária eletrônica. Feito. Vou telefonar. Do fixo, que é mais garantido. Eu o uso uma vez a cada dois meses.

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