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Cada qual com sua sentença

'A Verdade de Cada Um' lança olhares diversos sobre um tema

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h13

Esqueça especialistas dispostos a vomitar teses com dados científicos. Em A Verdade de Cada Um, série que o canal Nat Geo põe no ar às quartas-feiras, 22h15, a partir desta semana, o que vale é a experiência humana de quem está envolvido na história. O programa apega-se a alguns poucos personagens em cada edição, cada qual com sua sentença. São cinco temas vistos por pontos de vista distintos, o que até deu ao projeto, inicialmente, o título provisório de 360 Graus, homônimo ao recente filme do cineasta Fernando Meirelles. Não ao acaso, é ele quem assina a produção de A Verdade de Cada Um, obra de sua produtora, a O2 Filmes. A direção-geral é do cineasta Marcelo Machado, que dirigiu pessoalmente dois episódios: Consumo e Madeira.

Crack, tema de estreia, é certamente o que menos divide opiniões - não há quem não veja a droga como algo devastador. Ali está a moradora de rua, pronta para impressionar o telespectador com uma narrativa bem articulada. Dona de sobrancelhas alinhadas, fivelinha a prender a franja, Patrícia trabalhava como cabeleireira. Tem um filho criado pela avó, moradora do bairro do Limão, onde vez ou outra aparece para passar dois dias antes de voltar às ruas do centro. Pode ser pior? Pode, e o espectador vai descobrir isso lá pelo final do episódio.

Registrar seu depoimento não foi fácil. "Muitas vezes, a gente marcava com ela e ela não aparecia, tudo dependia da 'balada' da véspera", lembra Renato Rossi, diretor de Crack. A edição conta ainda com o depoimento de outro dependente, de classe média alta, um voluntário de ONG, um assistente social e um policial. A equipe filmou na cracolândia com apoio da PM. "Nem a Guarda Civil queria nos acompanhar. Botar uma câmera no chão, ali, era impossível", lembra.

Na linha contrária ao crack, as divergências se acentuam ao máximo no episódio Madeira, o quarto a ir ao ar. Lá estão um fazendeiro que perdeu sua terra, um fiscal do Ibama e um líder sem-terra, que, como quem precisa plantar para viver, também contribui para o desmatamento.

Educação, terceiro episódio no ar, tem o olhar estrangeiro do diretor português Miguel Mendes, que logo faz a ressalva: "Num documentário, o ponto de vista é o do diretor. Aqui, é do personagem". O cenário inclui duas escolas públicas - uma, emblemática do descaso; outra, vista como modelo - e o colégio particular que baseia seus princípios unicamente no vestibular.

A esses alunos, o programa faz a simples pergunta: "E se o vestibular ou o Enem mudar suas questões de um dia para o outro, vocês saberão algo sobre outros assuntos? A resposta foi "não". "A questão é: estamos educando para quem?", desafia o luso.

Já o programa sobre consumo, segundo a ser exibido, apresenta uma garota da Freguesia do Ó que "torra tudo no cartão de crédito", em contraste com um monge zen-budista, um consultor de vendas que viaja pelo Brasil ensinando as pessoas a vender, e um casal que vive sob os critérios da sustentabilidade.

Comida fecha a série, com direção de Celso Yamashita, e se vale de dois irmãos obesos mórbidos, de 26 anos - gêmeos, um apostou na cirurgia de redução de estômago, o outro é contra -, uma professora de Educação Física que se alimenta de acordo com a definição de músculos e gasta metade do salário em suplementos, e um frugívoro, sujeito que só ingere frutas, verduras e vegetais crus.

A escolha dos temas não passa pela pretensão do ineditismo, mas sim da reflexão. "A ideia, quando selecionamos os assuntos, era ver se o tema mobilizava e quanto era capaz de promover o debate", resume Machado.

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