Cada Pessoa, um livro. O mundo, uma biblioteca

Literatura te tira do tiro da rua e te tira do tiro da viatura, frase em muros de Fortaleza

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2017 | 02h00

FORTALEZA - No fim da tarde de sábado passado, a van que me levava para Cuca Jangurussu, extrema periferia de Fortaleza, passou pela Vila do Mar, Pirambu, onde presenciei Daniel Galera sendo “batizado” - ou seja, enfiado no mar - pelos surfistas e jovens leitores ao terminar sua apresentação de literatura para uma plateia inteira dentro da água. “Entrar no mar para conversar sobre literatura foi a experiência vivida pelo escritor em programação da Bienal Fora da Bienal. Galera conversou com surfistas e nadadores no Pirambu sobre a relação entre o mar e a literatura”, escreveu a repórter Maria Parente no jornal O Povo, em matéria de grande destaque. Livros e escritores foram as estrelas aqui por 10 dias.

Hora e meia depois, contornando toda a cidade por avenidas marginais, cheguei a Jangurussu (a palavra significa enxame de abelhas) e fiquei assombrado ao penetrar nos equipamentos do Cuca, Centro Urbano de Cultura, Arte, Ciência e Esportes. A noite tinha caído e um cheiro forte de vegetação dominava a atmosfera. Em um campo de areia, dois times disputavam futebol social. Outro grupo esperava a vez. Há dias, disse meu guia Daniel Mamede, diretor de Promoção de Direitos no Instituto Cuca, que você passa aqui às 3 da manhã e tem garoto jogando. Assim, fogem das ruas. Na quadra do ginásio de esportes, surdos-mudos treinavam futsal. Na concha acústica, a garotada disputava um campeonato de xadrez. Os degraus da arquibancada, pichados ou com grafites. De instante a instante, damos com frases pelos muros, as mais recorrentes assinadas por Remido: Literatura te tira do tiro da rua. E Literatura te tira do tiro da viatura. 

Os degraus e as paredes são nossas páginas de livros, me disse Mamede. Logo à frente, uma frase que nosso prefeito Doria, rei da selfie, adoraria apagar: No país onde roubar é arte, pichar é crime. Difícil imaginar que esse bairro, criado em cima de um lixão insalubre, atmosfera infecta, de onde a população tirava o sustento, era dos mais violentos e atrasados do Brasil. Nascer ali, era crescer para a marginalidade, avançar para a morte precoce. Em 2015, 292 adolescentes foram mortos na cidade. Hoje, o lixão sumiu, os jovens estão deixando de ser “mulas” de traficantes, a busca por aprendizado é a determinante. Esporte, arte, literatura e projetos sociais estão alterando o panorama.

A Rede Cuca é formada por gigantescos equipamentos montados pela prefeitura de Fortaleza. Criados numa gestão, tiveram continuidade na seguinte, mesmo sendo o eleito da oposição. Isso é governar. Isso é ser gestor. Neles, há atendimento psicossocial, encontros com escritores, aulas de artes cênicas, economia criativa, audiovisual, informática básica, teatro, fotojornalismo, dança, fotografia, música, canto, animação, línguas, basquete, vôlei, futebol de areia, jiu-jítsu, capoeira, projetos de educação integral e inclusiva. Frequentadíssimos, os Cucas não param, agitam o tempo todo, promovem, ensinam, são “clubes” sem carteirinha, sem crachás nem catracas na entrada. Os Fóruns de Jovens determinam a política do que e como fazer. Ali, estive por quase três horas e falei sobre livros e literatura. O que é tudo isso? A Bienal Fora da Bienal, segmento da Bienal Internacional do Livro do Ceará, em sua 12.ª edição. Brilhante ideia, nascida há cerca de uns oito anos. 

A Bienal em si não existe apenas dentro do gigantesco Centro de Convenções da cidade, que teve todos os seus espaços ocupados por palestras e debates durante dez dias. Foram cerca de 150 escritores de variados calibres se revezando com mestres do saber, oficineiros, músicos, repentistas, turma do cordel, bandas, danças, vídeo, teatro, o que, no balanço de público, deu mais de 600 mi visitantes, todos os dias entre 9 da manhã e 10 da noite. E houve no meio enorme problema com ônibus sendo incendiados em guerra de facções, assustando a população. 

A Bienal Fora da Bienal tem sido a fórmula bem-sucedida para incluir, envolver a cidade e as cidades próximas na questão livro, formação de leitor. Está aí a sugestão para a Flip, que tem sofrido críticas por conservar a comunidade de Paraty “fora” do evento. Além de Galera falando no ar e dos meus encontros no Cuca, tivemos Walter Hugo Mãe maravilhado ao visitar aldeias indígenas. O ator Gero Camilo foi à Unidade Prisional Irmã Imelda Lima Pontes, em Aquiraz, antiga capital do Estado. Posso dizer que essa Bienal esteve ligada à recente Correntes d’Escritas da Póvoa de Varzim, Portugal. Vieram direto para cá Tony Tcheka e Manuel Casqueiro, de Guiné-Bissau, Rosalina Tavares, de Cabo Verde, Carlos Subuhana, de Moçambique, e Ondjaki, de Angola, que se reuniram na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, Unilab, para discutir oralidades escritas em língua portuguesa. Agito por todos os lados, de todos os tipos.

Nesse momento de crise, em que a cultura tem sido sufocada por cortes de orçamentos em todas as esferas, o Ceará dá a demonstração de que o livro é fundamental e por intermédio dele podemos nos desenvolver. Por aqui e outros lugares trocam-se inutilmente secretários, estaduais e municipais, e se paralisa tudo ao sabor de ambições políticas. Razão tem Affonso Romano de Sant’Anna ao comparar a Bienal do Ceará com a Feira do Livro de Frankfurt, a famosa Buchmesse, em sua grandiosidade. Acrescento a de Guadalajara, no México. O caderno de programação tinha 60 páginas, cada uma listando 20 acontecimentos. Agora, a cada lugar onde irei, vou usar a camiseta da Bienal com o tema deste ano: Cada Pessoa, um livro. O mundo, uma biblioteca.

Lembrete: Rita Gullo e eu voltamos com o show Solidão no Fundo da Agulha 2, com novas histórias e músicas. Às 20 horas de segunda-feira, no Teatro Sérgio Cardoso, Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista.

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