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'Cada época cria os próprios monstros'

O nova-iorquino Colson Whitehead fala de Zone One, seu livro sobre zumbis que lembra tanto Proust como George Romero

ALEXIS MADRIGAL, BOOKFORUM

17 de dezembro de 2011 | 03h00

Colson Whitehead não é um escritor difícil, como um Thomas Pynchon. Sua sintaxe é normal, e suas sentenças são facilmente compreendidas numa primeira leitura. Entretanto, a começar por seu brilhante primeiro livro, The Intuitionist (A Intuicionista, Companhia das Letras, 2001), sobre as atribulações de uma mulher que inspecionava elevadores, Whitehead evoca sistematicamente complexas realidades alternativas, infundindo em suas ambientações um sutil surrealismo à la Buñuel.

O personagem principal de seu último romance, Zone One, é Mark Spitz, um jovem medíocre, que sempre tirava quando muito uma nota B. Spitz recebe a incumbência de realizar uma minuciosa limpeza em Lower Manhattan, e ele percorre edifício após edifício garantindo que todos os cômodos estejam livres de mortos vivos. Isso mesmo, Zone One, é um livro sobre zumbis, mas não se parece com nenhum outro que tenhamos lido. É uma obra fluente e sombria, dotada de um ritmo que lembra tanto Marcel Proust quanto George Romero. Os ataques dos zumbis podem gerar tanto uma meditação sobre a escola elementar quanto frenéticas cenas de ação.

Os mortos que andam conduzem a ação, mas Whitehead está também interessado nos sobreviventes, e em particular em Spitz, uma espécie de operário contratado por um sujeito que compra imóveis executados, cuja função é limpar a sujeira, logo depois que o mercado hipotecário explodiu em 2007. Sua narrativa não proporciona a imagem do caos na visão de um drone, nem nos permite assistir às discussões que se desenrolam nos salões do poder. Mas proporciona uma perspectiva no terreno mesmo, e um conhecimento mais valioso: o que nós, vocês e eu, faríamos se tivéssemos de navegar de fato num dos cenários de horror que são os favoritos da cultura pop.

Leia a entrevista na íntegra

Conte como os seus zumbis funcionam realmente em sua mente. Como foram criados? Como sobrevivem? E para onde todos eles estão indo?

Para o Starbucks talvez? O que eu queria explicar, expliquei. O que deixei de fora, era irrelevante para o meu projeto. Não existe nenhum zumbi. Os escritores manipulam as criaturas para os seus próprios fins. As hordas que se arrastam em World War Z não servem ao mesmo escopo das de Zumbilândia, as criaturas do Despertar dos Mortos original não são do mesmo gênero no remake. Eles são veículos de compaixão, terror, comentário social, humor, ou uma ardilosa metáfora, dependendo de quem dirige. Nossos monstros são polivalentes e estão sempre se modificando. Como nós. Eu gemo quando leio uma coisa como Why Are Vampires So Popular Now, por causa de suas generalizações capengas, porque tive problemas para imaginar uma Teoria Coerente dos Vampiros, considerando suas encarnações disparatadas. Drácula não é o Anjo de Buffy, A caça-vampiros, e True Blood nada tem a ver com Amor à Primeira Mordida. Cada época cria seus próprios monstros. Nós temos os nossos, a próxima geração terá os seus.

A ação do seu livro se passa num momento muito estranho na linha do tempo do ataque de zumbis. Os seres humanos recuperaram uma espécie de organização e pretendem limpar o Lower Manhattan. Há uma nova esperança na terra. Entretanto, alguns sinais ameaçadores indicam que as coisas talvez não sejam o que parecem ser. Por que você escolheu esta época particular?

No gênero zumbi, a primeira noite ou os primeiros cinco dias do desastre estão bem relatados. Então, acontece isto. Mas muita literatura pós-apocalíptica não começa em um momento de fluxo? O jovem herói abandona o bunker subterrâneo para ver o que restou do mundo na superfície. Falam de um porto em frente ao oceano em que os sobreviventes reconstruíram algumas coisas. Depois de algum tempo, finalmente o refúgio desaba, e agora precisamos descobrir ou criar um refúgio novo. As coisas estão numa situação de horror definida, estável. Sobrevivemos. Agora, para onde vamos?No seu livro, há dois tipos de zumbis, os tradicionais, com o rosto em decomposição, e os retardatários de olhar ausente, que simplesmente ficam parados num lugar enquanto o mundo passa. Por que acrescentou esta segunda variante?

Você faz o que quer com um gênero literário: pode deformá-lo, roubar alguma coisa dele, homenageá-lo, e ao mesmo tempo, se fizer isto corretamente, ampliará as possibilidades do próprio gênero, revigorando-o. Eu queria me manter fiel a uma versão do terror existencial dos zumbis no estilo de Romero, mas evidentemente o mais engraçado para um escritor é escrever porcaria. Então os retardatários aparecem, como avatares do ser depois da catástrofe, uma forma possível de fazer coisas quando tudo o mais está desmoronando. Eles são o veículo de algumas coisas que eu queria explorar no romance, tradicionais ou não.

Seu romance é uma análise fascinante do talento, ou da nossa definição de talento. Spitz é medíocre, e faz isto muito bem, como você enfatiza do começo ao fim. Percebemos então que esta é uma habilidade importante. Por que o medíocre vence depois que os zumbis chegam?

Se você é inteligente, você se mata. Se for obtuso, não fará isto. Nós somos os outros.

Qual é a relação entre este livro e suas primeiras investigações em Nova York como cidade? Em The Colossus of New York, seu livro de não ficção, você escreveu: "Não importa há quanto tempo você viva aqui, você poderá se considerar um nova-iorquino quando disser pela primeira vez "Aquela era a Munsey's', ou 'Este era o Tic Toc Lounge...''porque o que havia ali antes é mais real e concreto do que o que está aí agora." Se Nova York cair nas mãos dos zumbis, poderemos finalmente compreender a civilização que a produziu, porque então poderemos dizer "Esta era Nova York"?

O que eu sinto em relação à minha cidade natal, como mostro no Colossus, volta de certo modo para cá, mas na forma de um romance - com personagens distintos, um arco narrativo, e blá, blá, blá - e não como uma série de ensaios impressionistas. Só que escrevi Zone One oito anos depois de Colossus, e eu mudei um pouco, além disso há ideias em Colossus que não se aplicam a Mark Spitz e à sua situação. Eu sou um nova-iorquino, a cidade influiu profundamente na minha maneira de ver o mundo, de mover-me no mundo. Não acho que possa surpreender o fato de que minha visão de Nova York depois que todo mundo morreu não seja muito distante de como percebo Nova York hoje, quando todo mundo morreu - quero dizer, tentando sobreviver no dia a dia.

Em certos momentos, seu livro é muito lúgubre, mas o encontro de Mark com uma mulher numa loja de brinquedos é maravilhoso e caloroso, e o isolamento dos dois parece quase algo que ambos se impuseram, embora obviamente não seja assim. Quando ela desaparece, você opta por não nos mostrar a tristeza de Spitz na semana durante a qual fica esperando por ela. Em vez disso, Spitz se pergunta: "Se não há nada lá fora, para que tudo isto?" Mas não responde. Qual é sua resposta a esta pergunta?

Para mim, a resposta está na interpretação de Mark Spitz depois deste incidente. Mas para ampliar a questão até o motivo pelo qual os romancistas colocam esta parte aqui e aquela parte acolá, o que eles tornam explícito e o que eles deixam para o leitor preencher com o seu conhecimento subjetivo, o que eles incluem e o que deixam de lado - o escritor toma as suas decisões a fim de criar um determinado efeito no leitor. Nós moldamos a experiência do leitor no plano micro - palavra por palavra, sentença por sentença - e no plano macro em termos de estrutura. Será que a parte da loja de brinquedos deveria vir antes ou depois? De que maneira ela favorecerá a compreensão do personagem para o leitor, ou suas ideias mais gerais, se estiver na primeira parte do livro ou na parte final? Precisaremos ver o personagem chorar, ou ele já está em todas as ações, todas as afirmações, todos os adjetivos pessimistas que orbitam sua cabeça como mosquitinhos?

Sem querer ser excessivamente abstrato, de onde você imagina que recebeu este texto? Se eu estivesse numa aula de inglês na faculdade, diria que o sinal de esperança que seu universo ficcional nos transmite é que temos este livro para ler sobre isso. A presença dele é um sinal de que a civilização sobreviveu a fim de que um narrador daquela época pudesse existir.

A teoria literária é boa para "interrogar" um texto, mas não tem muito a ver com a escritura de uma história, pelo menos para mim, (Artistas que se preocupam com a teoria, continuem criando-as, seus malucos!) Em Zone One, toda esperança é gerada a partir daquilo que achamos que existe no espaço entre o personagem de Mark Spitz e o mundo que está desaparecendo no qual ele se move. Talvez haja espaço suficiente para esperar nessa piada, talvez não. Depende de vocês. Bom, aqui está uma teoria, ou seja, quando um livro sai, não é mais meu, mas do leitor. Faça o que quiser com ele. Porque eu já estou trabalhando em outra coisa.

Fiquei tentado a definir o seu livro como pós-apocalíptico, mas não acho que seja. Aliás, é nitidamente apocalíptico. O que você estava consumindo quando o escreveu? Filmes de zumbis? Noticiário político? Twitter?

As fontes de informação pré-apocalípticas de sempre. Lia o jornal como todo mundo, mesmo que o papel seja uma tela ou uma série de links. Assistia aos meus filmes pós-apocalípticos favoritos para saber por que motivo os adoro tanto e por que eles permaneceram em mim. A música representa uma grande parte da pesquisa de Sag Harbor, porque tentei lembrar como costumava me sentir quando adolescente. Os meus filmes favoritos do mundo dos mortos me ajudaram a escrever Zone One, porque procurava imaginar quais foram os aspectos de suas catástrofes que apertavam as teclas do meu universo psicológico, e por quê. Por outro lado, no mundo real são inúmeras as catástrofes que podem ajudar também neste campo./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

ZONE ONE

Autor: Colson Whitehead

Editora: Doubleday

(Importado, 272 págs., US$ 14,11; versão Kindle US$ 11,99)

ALEXIS MADRIGAL É EDITOR DA REVISTA ATLANTIC E AUTOR DE POWERING THE DREAM: THE HISTORY AND PROMISE OF GREEN TECHNOLOGY ( EDITORA DA CAPO)

©Bookforum, 2011, Bookforum Talks With Colson Whitehead, por Alexis Madrigal

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