Gabriela Ramos/Divulgação
Gabriela Ramos/Divulgação

Caco Ciocler vai a Sartre para tratar de vazio contemporâneo

Pela quarta vez na direção, ator revisita 'Huis Clos', do filósofo francês

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

03 de outubro de 2013 | 19h34

Ao decretar “o inferno são os outros”, Jean-Paul Sartre estava a conceber uma máxima que se tornaria infinitamente mais conhecida do que a obra para a qual foi criada. Com o espetáculo No Exit - Entre Quatro Paredes, Caco Ciocler revisita Huis Clos, o texto do filósofo francês que deu origem à afamada frase.

Pela quarta vez em sua carreira, o ator sai de cena para assumir o lugar de diretor. O resultado já pôde ser visto em uma curta temporada em Santo André e estreia nesta sexta, 4, em São Paulo.

Como acontece em parcela considerável da ficção sartriana (basta evocarmos romances, como A Náusea, ou outros títulos teatrais, como As Moscas), Entre Quatro Paredes foi escrita para dar conta dos preceitos do existencialismo, movimento que enfatizava a responsabilidade do indivíduo em dar sentido à própria existência.

Outro traço evidente na peça é sua filiação à época em que foi concebida: o penúltimo ano da Segunda Guerra, em meio a uma Europa destruída, ocupada pelos nazistas e descrente de dias melhores. “Talvez essa imagem do outro como uma ameaça, um perigo, não faça mais sentido hoje”, acredita Ciocler. “Por outro lado, continuamos a ter essa dependência do reflexo do outro. É preferível recorrer ao outro como algoz do que se ver só. Nada pode ser tão desesperador quanto não ter alguém que possa devolver a cada um sua própria imagem.”

Duas mulheres e um homem estão trancados em uma sala. Essa é a ideia de inferno cunhada por Sartre. Não há fogo, vapores de enxofre ou torturas físicas. Apenas seres condenados a conviver pela eternidade. Em determinado momento, a porta do espaço onde estão encerrados até se abre. Mas nenhum deles terá coragem de partir.

Ao conceber sua versão, o diretor não localizou o enredo em uma época específica. Segue apenas as indicações do autor, optando por um cenário simples, reduzido, nesta versão, a cadeiras feitas de papelão. A atual montagem também não traz cortes ou adaptações ao original. “Ele ri de certas expectativas religiosas e burguesas daquela época. Era algo que não nos interessava, mas foi possível tirar a ênfase desses aspectos sem alterar o texto”, diz Ciocler, que conduz quatro intérpretes: Chris Couto, Sabrina Greve e Daniel Infantini são os mortos que devem responder pelos crimes que cometeram em vida. Ando Camargo surge como funcionário do inferno.

O tempo pode afetar determinadas obras de maneira imprevista. A sensação de encarceramento ganha sentido renovado em uma sociedade constantemente vigiada. A descrença no porvir, que vicejava em anos de guerra, não cessa de crescer em um tempo sem utopias.

 

NO EXIT – ENTRE QUATRO PAREDES

Sesc Santo Amaro. Rua Amador Bueno, 505, 5541-4000. 5ª e 6ª, 21 h; sáb., 20 h; dom., 19 h. R$ 3,20/R$ 16. Até 27/10.

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