André Lessa/AE
André Lessa/AE

Caco Ciocler se lança em montagem de texto de Kafka

Ator repete parceria com Roberto Alvim Em 'A Construção' e se diz em momento de transição

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

25 de janeiro de 2012 | 22h00

"Você já leu A Construção? Então, leia." Foi essa sentença que Caco Ciocler ouviu durante uma sessão de análise, anos atrás. Naquele momento, a novela de Franz Kafka surgia como resposta para um sem-número de questões pessoais. E dela, o ator conta, não seria possível livrar-se mais. "Desde que li não consegui me desgrudar. Pensei: esse é o meu discurso como artista."

O espetáculo, que abre seus ensaios abertos a partir desta quinta-feira, 16, na Caixa Cultural e estreia dia 10 no Sesc Pompeia, nasce nesse contexto. Toma emprestado o texto do escritor checo para concretizar um desejo de verbalizar conflitos e perguntas muito particulares.

Quem conduz Ciocler na nova criação é o diretor Roberto Alvim. Ambos já haviam trabalhado juntos em 45 Minutos, montagem do ano passado na qual o intérprete já prenunciava certa necessidade de espelhar a própria condição no palco.

Na peça, escrita por Marcelo Pedreira, mostrava-se um ator em crise com o próprio ofício. Desgostoso com aquilo que faz, ele se dizia obrigado a estar no palco. Atuava apenas em troca do quarto que ocupava nos fundos do teatro. Provocava o público. A situação servia de pretexto para que se expusesse uma indagação na ordem do dia: como fazer arte em um mundo sedento por entretenimento?

De certa maneira, A Construção leva adiante o questionamento. Reafirma a recusa em oferecer algo de "palatável" à plateia. Assim como também aprofunda a estética que estava delineada na parceria anterior entre Ciocler e o encenador: os movimentos rareiam, toda a cena está imersa na escuridão.

Em busca da própria voz

Uma das últimas obras de Franz Kafka, A Construção é considerada por muitos como uma espécie de "testamento literário" do autor. A história de uma toupeira que se põe a construir uma toca para proteger-se de um inimigo desconhecido já foi vista como metáfora para a própria biografia do escritor de origem judaica. Ao fim da vida, ele também se via constrito entre duas ameaças. De um lado, o recrudescimento do fascismo, do outro o agravamento de sua tuberculose.

Em sua adaptação, o diretor Roberto Alvim não escamoteia os aspectos biográficos do texto. Caco Ciocler surge em cena como clara evocação da imagem do escritor. Está diante de uma folha em branco, como se escrevesse, naquele momento, o texto a ser dito.

Tal opção não encerra, contudo, o leque de interpretações que a peça pretende abrir. "A obra de Kafka é revolucionária porque tem a força de um enigma, capaz de oferecer um número infinito de leituras", crê o encenador. De fato, uma miríade de olhares parece possível. A novela pode ser encarada qual uma crítica do autor a sistemas, como o stalinismo ou o capitalismo. Da mesma forma, não soa despropositado enxergá-la como uma antecipação dos dilemas da liberdade que o existencialismo só colocaria anos adiante. Ou, ainda, como prefiguração das relações afetivas contemporâneas.

Diante do medo de confrontar-se com o outro, cada indivíduo também costuma erigir sua toca, paredes e barreiras que o resguardem do perigo. Para Ciocler, passa por aí a chave para a compreensão dessa fábula. "Sempre vi esse texto como um tradução do meu mundo. As imagens que a peça provoca em mim não vêm de coisas que pesquisei. São extremamente pessoais."

O que não resulta, ele acredita, em uma versão egoísta. "É uma questão de todo mundo. De como sobreviver a essa situação de ameaça que o outro representa. Esse bicho que se fecha. Mas não totalmente."

Em princípio, Ciocler planejava fazer um filme com o argumento kafkiano. Chegou a convidar Walter Carvalho para dirigi-lo. Decidiu, porém, levar a proposta primeiro para o palco: "É onde me sinto mais em casa".

Se nem sempre é possível fazer muitas escolhas na televisão, no teatro o ator parece ter se preocupado em manter certa liberdade. Passou por produções importantes, como Os Sete Afluentes do Rio Ota. Arriscou-se em trabalhos distintos, mas igualmente instigantes. Do drama histórico de Ibsen - O Imperador e Galileu - à ácida comédia Casting. "Estou passando por um momento de transição", observa o ator. "Quando as coisas aconteceram para mim, eu era muito ingênuo. As novas escolhas, portanto, têm a ver com maturidade. Com a vontade de deixar de atender apenas a convites e ir atrás do meu próprio desejo."

Aparentemente, o encontro com a estética de Alvim propõe um território mais inseguro para o intérprete. Ao longo da encenação, ele tem os movimentos restritos e, na penumbra, pouco revela de seu rosto. Quase todo o trabalho concentra-se na enunciação das palavras. Em vez de contornos zoomórficos, o personagem surge como um ser algo esquizofrênico, cindido por múltiplas vozes.

Outro dado que amplia a dificuldade de A Construção é a recusa em encontrar uma fórmula ou registro único de interpretação. "Eu me coloco numa posição de risco, de constante instabilidade. Determinada frase que num dia sai como ódio, no outro pode vir como desespero. Eu me permito, de fato, fazer a construção. E não vir com ela pronta."

Essa tentativa de habitar o presente e distanciar-se de qualquer cristalização encontra eco no próprio processo criativo de Kafka, conhecido pelas poucas emendas que fazia aos seus escritos, sem a pose de uma coreografia literária predeterminada. "Ele não parece falar de uma experiência prévia, mas de algo que se dá ali, no próprio texto", observa o diretor. "Quando Caco diz aquelas palavras tenta se localizar no mesmo lugar em que elas foram escritas."

Outro ponto em que ator e escritor se aproximam é no propósito de suas criações. Trancado em seu quarto, Kafka escrevia para si mesmo. Não para apreciação do outro. Paradoxalmente, constitui uma obra política. Ao discorrer sobre A Construção, Ciocler fala constantemente da busca por uma voz própria e pessoal. Mas talvez esteja aí o caminho para o definitivo encontro com o outro, para derrubar as paredes que ergueu para si. "A análise me colocou questões que mudaram minha visão de mundo. E o teatro é onde eu gostaria de me expressar. De que adianta descobrir isso sem compartilhar?"

A CONSTRUÇÃO

Caixa Cultural. Praça da Sé, 111, tel. 3321-4400. 5ª a dom., 19h30. Grátis. Ensaios abertos até 5/2.

Sesc Pompeia. Teatro. Rua Clelia, 93, tel. 3871-7700. 6ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 4/ R$ 16. Até 25/3. Estreia em 10/2

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