Cachalote: 'HQ não depende de literatura'

O escritor Daniel Galera conta como criou seu álbum com Rafael Coutinho

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2010 | 00h00

Solitários. Personagens passam por confronto, seja para reavaliação de identidade ou em busca afetiva

 

 

Influências distintas inspiraram Daniel Galera e Rafael Coutinho na criação de Cachalote, como conta o escritor na seguinte entrevista, feita por e-mail.

Existem quadrinhos sem existir literatura?

Eu não iria tão longe. Embora na maioria dos casos o quadrinho também seja literatura, ele é uma forma de arte independente. A narrativa por meio de ilustrações sequenciais pode prescindir do que entendemos como literário para contar uma história ou expressar alguma coisa. Dizer que os quadrinhos dependem da literatura seria cometer uma injustiça. Mas o fato é que a articulação da imagem sequencial com a literatura tende a funcionar tão bem que ficamos tentados a enxergar essa relação de dependência.

Como aconteceu o diálogo entre as linguagens?

Antes de trabalhar no roteiro propriamente dito, fiz algumas versões mais literárias das histórias, em forma de prosa mesmo. Em cima desses textos iniciais, foi surgindo o roteiro mais técnico, descrevendo quadrinhos individuais, distribuindo diálogos e quebras de página, etc. Ainda que Cachalote seja resultado de uma mistura de ideias e argumentos originais, meus e do Rafa, creio que nas etapas iniciais a minha voz literária se impôs no desenvolvimento das histórias. Procurei trabalhar o subtexto das tramas como se fossem contos, insinuando os principais conflitos e emoções dos personagens por trás do que está explícito e dando chaves para que o leitor possa acessar essas camadas mais profundas. A relação passada do Rique com o pai, por exemplo, não chega a ser narrada, mas é insinuada e é importantíssima para entender o personagem. Muitos aspectos narrativos do livro são análogos ao que busco alcançar quando escrevo prosa.

Desde o início, os desenhos seriam em preto e branco?

Chegamos a pensar em usar uma paleta de cores reduzida, com apenas três ou quatro tons, mas ainda no início do projeto a decisão pelo preto e branco se tornou definitiva. Não acho que as cores chegariam a transformar muito o livro em termos narrativos. Essa decisão coube ao Rafa, era uma opção artística dele.

A figura do cachalote faz pensar no monólito negro de 2001, filme de Stanley Kubrick, além de lembrar de Nietzsche ("O homem é uma corda atada sobre um abismo, um hiato entre dois nadas.")

Nunca tive Kubrick e Nietzsche como referências conscientes para esse livro, mas acho que há bastante sentido porque de certo modo todos os personagens da HQ estão passando por confrontos significativos com seus destinos, seja por uma reavaliação da própria identidade, uma busca afetiva ou a dissolução repentina de uma situação de segurança. E são quase todos solitários. De qualquer modo, prefiro evitar interpretações acabadas dessas histórias. Eu não as tenho. Elas são um pouco abertas de propósito. E nossas influências ao longo do processo foram muito variadas, quase aleatórias. Músicas da PJ Harvey, contos do Chekhov, o surrealismo quase real dos filmes do David Lynch. Um filme chinês, Summer Palace, de Lou Ye, certamente influiu no tom de algumas histórias. Eu tinha visto esse filme semanas antes de começarmos a trabalhar na HQ e fiquei encantado, mostrei para o Rafa. A gente foi coletando incontáveis inspirações desse tipo e mastigando para ir dando forma às nossas próprias narrativas.

 

     

INFLUÊNCIA CHINESA

Na criação de Cachalote, Daniel Galera e Rafael Coutinho não ficaram fechados a influências - preferiram montar um caleidoscópio a partir de referências diversas, como filme de Lou Ye, Summer Palace, de 2006, sobre a garota que abandona a família no interior, em busca de uma carreira em Pequim. Na universidade, ela descobre um mundo de liberdade política e sexual que a leva a participar do protesto na Praça da Paz Celestial. Por conta desse tom político, Ye foi proibido de filmar por cinco anos.

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