Cachaça do boteco ao cinema

Documentário de Pedro Urano revê a história da bebida 100% brasileira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2011 | 00h00

Dois prêmios importantes - melhor documentário nos festivais do Rio e de Mar Del Plata -, mais passagens por outros foros destacados do cinema mundial (Berlim e Locarno). Tudo isso credencia Estrada Real da Cachaça, de Pedro Urano, que integra a Sessão Vitrine. Se o filme já busca transmitir o prazer sensorial que a cachaça pode proporcionar, uma promoção para espectadores do Rio e de São Paulo vai permitir que, de posse do ingresso, eles participem de degustações em dois bares.

Se beber, não dirija nem case, mas não se reprima. Discuta o filme de Urano com amigos. Estrada Real da Cachaça é um road movie que viaja no tempo e no espaço para descortinar um panorama não tão conhecido da história do País. Urano sempre se interessou pela cachaça como bebida 100% brasileira. Impressionava-o mais ainda o fato de Minas, que nunca teve ligação com a cultura açucareira, ser fonte de algumas das melhores cachaças feitas no Brasil. De onde vem a tradição?

"Comecei a pesquisar e cheguei à resposta óbvia. Os bandeirantes não se locomoviam sem a cachaça. Foram eles que adentraram o sertão de Minas com ela." Pesquisando mais ainda, Urano descobriu a Estrada Real e sua conexão com a história da bebida. Filho de mineira com cearense, criado no Rio, ele fez três viagens de pesquisa, todas curtas, e uma mais longa, quando captou as imagens do longa. Isso foi em 2005. Em 2006, Estrada Real estava montado. Em 2007 começou a batalha da finalização e da exibição, que agora se conclui.

Urano nunca pensou num documentário didático nem institucional sobre a cachaça. O que lhe interessava era a viagem. O road movie abrindo-se para rotas (e histórias) alternativas. Mais do que as informações concretas - e algumas, muitas estão lá -, as sensações, os personagens, os ambientes. Em nenhuma parte, nem no exterior, o filme foi recebido como "exótico". Segundo o diretor, "as pessoas tiveram a sensibilidade de perceber que havia uma intenção e embarcaram nela".

Existe, acredita Urano, uma profundidade existencial da cachaça e é ela que o move. Sabor acompanhado de saber - sobre a terra, o homem, o próprio cinema. Não tão modestamente, ele espera que o ato de beber cachaça, depois de seu filme, venha acompanhado de múltiplos significados e ressonâncias. O projeto da Sessão Vitrine, em cujo quadro Estrada Real da Cachaça se inscreve, já virou um espaço de investigação - estética? Não apenas. Um sonho coletivo? "Dessa rapaziada que vem sendo distribuída pela Sílvia Cruz na Vitrine Filmes, só a turma do Ceará forma realmente um coletivo. Mas há um grande companheirismo de toda essa geração. A Vitrine está viabilizando nosso sonho geracional de fazer e mostrar cinema. E a Sílvia, embora jovem, já inscreveu seu nome na história do cinema no País."

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