Caçador de nerds

Ben Mezrich, que retratou Mark Zuckerberg em A Rede Social, fala em seu novo livro, Sexo na Lua, do homem que roubou pedras da Nasa

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2012 | 03h07

Agora que candidatos à Presidência dos EUA prometem a Lua aos americanos, acenando com a possibilidade de mandar ao satélite uma nova missão tripulada em 2019, a história do garoto maluco que roubou um cofre com pedras lunares da Nasa, em 2002, parece fazer mais sentido e esclarecer um pouco da psique americana. Antes, porém, que um sociólogo se dispusesse a estudar o caso de Thad Roberts, o estudante mórmon expulso de casa, preso pelo FBI e condenado a oito anos e quatro meses de prisão, o escritor Ben Mezrich, o mesmo que escreveu a história de Mark Zuckerberg, criador do Facebook, resolveu investigar sua trajetória.

Ela começa justamente com uma promessa: a de trazer a Lua à namorada, mais ou menos como fez Newt Gingrich, pré-candidato republicano à Presidência dos EUA, no fim da semana passada, prometendo aos eleitores americanos uma base permanente no satélite. Roberts, ao menos, já cumpriu a sua promessa. E é essa história que Ben Mezrich conta em Sexo na Lua, lançamento da Editora Intrínseca que chega hoje às livrarias. Sobre ele, o autor falou ao Caderno 2, por telefone, de Boston, Massachusetts, onde vive.

Astronauta. Thad Roberts era um estudante de 25 anos quando roubou as pedras do Centro Espacial Johnson, que a agência espacial Nasa mantém em Houston, no Texas, onde estagiava durante as férias de verão no intuito de ser o primeiro astronauta a pisar em Marte. Como todo garoto americano, era fascinado por viagens espaciais e cismou em roubar as rochas trazidas da Lua pelos astronautas das missões Apolo, entre 1969 e 1972. Não exatamente para dar à namorada um pedaço da Lua - apesar de terem feito sexo num motel cobertos pelos fragmentos das rochas lunares.

Sob o pseudônimo Orb Robinson, ele tentou vendê-las na internet, buscando um comprador para as pedras. Roberts dividiria o lucro com suas duas cúmplices, Rebecca, a namorada, e a amiga Sandra, que também trabalhavam para a Nasa na época. O anúncio no site do Clube de Mineralogia da Antuérpia chamou a atenção de um de seus integrantes, o colecionador de pedras Axel Emmermann, que informou o FBI. Em pouco tempo, os agentes localizaram Roberts, as garotas e 271 quilos de preciosas rochas lunares.

Bom-senso. O livro começa justamente com a descrição da aventura do golpista tentando sair do centro espacial da Nasa com um cofre tão pesado que deixava a traseira do seu jipe um tanto suspeita. A oito quilômetros por hora era de se esperar que os guardas bloqueassem a saída do veículo, mas bom-senso, parece, é algo que falta não só aos republicanos como aos seguranças americanos, ótimo pretexto para Mezrich, especialista em comportamento predatório e gênios esquisitos como Zuckerberg, começar por aí a história de Thad Roberts. Mezrich, milionário aos 43 anos, autor de 12 livros, roteirista de cinema e TV, assume ter como modelo de escritor Hunter Thompson (1937-2005), criador do jornalismo gonzo (em que o autor troca a objetividade jornalística pelo delírio da criação, misturando-se à ação).

Mas, ao contrário de Thompson, que era mais feio que a peste, se tornou recluso, abusou das drogas e matou-se com um tiro de espingarda, Mezrich é comunicativo, simpático e sorridente, embora tenha lá se metido em encrencas para escrever todos esses livros, dos quais o best-seller absoluto é mesmo Bilionários por Acaso, perfil biográfico disfarçado de Zuckerberg que já vendeu, só nos EUA, mais de 2 milhões de livros e virou o premiado filme de David Fincher, A Rede Social (leia texto abaixo).

Antes de escrever a história de Zuckerberg e seus amigos de Harvard que criaram o Facebook, Mezrich biografou um time inteiro de esquisitões, começando por seis estudantes do MIT - Instituto de Tecnologia de Massachusetts - que criaram, com a ajuda de um gênio em estatística, um sistema sofisticado para burlar os cassinos de Las Vegas e ganhar milhões de dólares. Como todos os seus livros, esse também virou filme (Quebrando a Banca, 2008). Sexo na Lua não será exceção. Está sendo filmado pela mesma equipe, produtores (Kevin Spacey, entre eles) e o roteirista (Aaron Sorkin) do premiado A Rede Social.

Mosca viva. Mezrich não participa da produção de Sexo na Lua, apesar de ter escrito o esboço do roteiro de Ugly Americans (finalizado por Robert Schenkkan). Esse filme foi baseado no livro homônimo sobre John Malcom, aventureiro que, em 1992, se envolveu com o mundo das finanças e a Yakuza japonesa. "O problema de livros como esse é que você tem de entrar em campo para fazer as pesquisas e eu mesmo tive de frequentar clubes de sexo clandestinos em Tóquio para conseguir informações, sendo perseguido pela Máfia japonesa." Ele já havia sido expulso de todos os cassinos de Las Vegas durante o preparo de Bringing Down the House, que deu origem ao filme Quebrando a Banca, mas isso não o desanimou. Formado em Estudos Sociais em Harvard, a mesma universidade em que Mark Zuckerberg estudou, Mezrich queria, antes de tudo, entender a razão pela qual esses garotos americanos buscam notoriedade comportando-se de forma esquisita e agindo como nerds amorais e predadores.

E por que desprezar personagens comuns, que fizeram a glória de tantos escritores americanos, como William Kennedy e John Updike, por exemplo? "Ah, eu não tenho a pretensão de ser um autor como eles, estou mais próximo de Hunter Thompson, verdadeiramente o meu ídolo", responde. "Sou como uma mosca grudada à parede, observando o ambiente." E uma "mosca" muito viva, que talvez mire Hollywood antes das prateleiras das livrarias. Ele faria literatura como quem fabrica roteiros de cinema? "Digamos que trabalho em sinergia, mas, quando escrevo, não penso em filmes, e sim em histórias de gente comum que busca fazer coisas excepcionais, como Thad Roberts."

Vingança. De fato, Roberts fez algo fora dos padrões roubando pedras da Lua. Mezrich não despreza o fato de que elas seriam vendidas por uma fortuna, mas dá a entender no livro que o garoto caiu no mundo do crime acidentalmente. Tudo o que buscou, segundo sua visão, foi uma espécie de pequena vingança familiar por ser expulso de casa pelo pai mórmon. Reprovado por ter feito sexo antes do casamento. Roberts foi proibido pelo pai de falar com a mãe e os irmãos, tendo ainda recebido outra condenação: a de buscar seus pares no inferno. Em certa medida, foi isso que aconteceu. Ele passou oito anos na prisão por tentar vender rochas avaliadas em US$ 21 milhões e contaminá-las, tornando-as inúteis para pesquisas científicas, mas se redimiu estudando teoria quântica atrás das grades e repetindo em seu website: "Faça o que fizer, não repita os meus erros".

"Roberts ultrapassou os limites mesmo, fez uma coisa maluca, mas todo garoto americano quer ser astronauta e ele não é diferente", justifica Mezrich. E o autor, faria algo assim pela namorada? "Bem, já fiz loucuras, mas não gosto de perigo, não sou do tipo que precisa viver situações de estresse como aquela em que escapei da Máfia japonesa." Aventura mesmo ele gosta em livros ou videogames. Adora a série A Guerra dos Tronos, fantasia épica criada por George R.R. Martin e publicada aqui pela editora Leya. "Leio também escritores como Jonathan Franzen, que é grande, mas prefiro essas histórias fantásticas."

SEXO NA LUA

Autor: Ben Mezrich

Tradução: Alexandre

Matias

Editora:

Intrínseca (272 págs., R$ 29,90)

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