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Caçador de falácias

Tudo pode ser debatido. Mas ao fazê-lo preste atenção nos seus argumentos

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2021 | 03h00

Eis que, quase 20 meses depois, pude voltar finalmente a assistir a uma apresentação ao vivo. Quanta diferença em relação às melancólicas lives do início da pandemia. Show é show, como dizia Tim Maia. Claro que ajudou – muito – o fato de ser a Orquestra Jazz Sinfônica se apresentando com o Edu Lobo e a Mônica Salmaso. Memorável.

Na entrada da Sala São Paulo, pediram para apresentar o comprovante de vacinação. Confesso que me surpreendi, não estava atento a essa necessidade. Mas foi só abrir o aplicativo, apresentar e entrar. No fundo, achei bom saber que, além do uso de máscaras, era obrigatório ter se vacinado para entrar num lugar fechado e cheio de gente.

Há quem critique a medida. Tudo bem, opiniões são livres. Mas uma das críticas que vêm pulando de celular em celular nos grupos de família, na verdade, é um argumento falacioso.

Falácias são aqueles argumentos que, sob aparência de um raciocínio bem construído, escondem defeitos que minam sua capacidade de avançar o debate. Em vez de criticar ou defender o ponto central, mostrando por que está certo ou errado, as falácias desviam o assunto, apelam para emoções, distraem o interlocutor tentando levá-lo a conclusões por caminhos tortuosos.

Comparar o passaporte da vacina com a discriminação imposta pelos alemães aos judeus na Alemanha hitlerista, por exemplo, é uma falácia, conhecida com falsa analogia. A estratégia é estabelecer um ponto em comum entre duas coisas e a partir dele extrapolar para comparações injustificáveis. De fato, estamos falando de situações em que autoridades obrigam pessoas a se identificar de alguma maneira (judeu ou não, vacinado ou não), e restringem direitos em função dessas diferenças. É um ponto em comum, sem dúvida. Mas basta pensar um segundo adiante para ver que as situações não são equiparáveis: os judeus tinham seus direitos restritos de forma arbitrária, sem justificativa racional e por simplesmente serem quem eram, características obviamente imutáveis. Os não vacinados têm direitos restritos por conta da não adesão a medidas de proteção coletiva, o que é racionalmente justificável (ainda que se discorde da justificativa, por definição não se trata de medida arbitrária), além de ser uma atitude que eles podem mudar. Pode estar certo, pode estar errado. Mas comparar a situação à discriminação a judeus é falacioso.

O próprio uso da palavra discriminação pode ser classificado também como outra falácia, chamada de equívoco. Nela se usa a mesma palavra para descrever situações diferentes, escamoteando o fato de que essa palavra tem significados distintos. Os não vacinados são discriminados, os judeus também o eram. O que não se diz é que discriminar significa tratar mal pessoas por conta de sua religião ou etnia, mas significa, antes, classificar, distinguir. Pugilistas são discriminados por peso nas categorias do boxe – e todos sabemos como isso é bom.

Podemos debater se é certo ou errado obrigar qualquer coisa: tomar vacina, usar máscara, parar no sinal vermelho, respeitar propriedade privada. Tudo pode ser debatido. Mas ao fazê-lo preste atenção nos seus argumentos. Porque eu estou prestando. 

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

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