Cacá Carvalho

Nasceu em Belém, mora em São Paulo, ganhou fama como o Jamanta nos anos 90 e hoje, aos 57 anos, encara o desafio de viver um ator maduro no palco

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2010 | 00h00

Roberto Bacci (parceiro em vários trabalhos, diretor do Centro per la Sperimentazioni e la Ricerca Teatrale de Pontedera, Itália) disse que você é um ator único sobretudo por sua inquietude.

A insatisfação é meu motor. Não que seja ansioso, mas pergunto: Será que está traduzida no que faço a dimensão do que quero? Existem coisas que se faz porque se quer. Sou ator porque preciso. Por várias razões, inclusive sobrevivência. A mais forte hoje é que o teatro me permite, no encontro com as pessoas, crescer e me reconhecer em tudo.

Houve um tempo em que você quis fazer TV. E o Jamanta (de Torre de Babel, 1998) marcou muito sua trajetória, não?

O Jamanta era um outsider já dentro da trama da novela. Isso me permitiu usar ferramentas que em geral não se usa na TV, que pede um naturalismo que não tenho competência para fazer. É difícil fazer bem TV. Mas o público entendeu e dialogou com ele. Dialoga até hoje.

Você, mesmo na TV, sempre conseguiu fazer tudo do seu jeito. Jamanta era muito instintivo.

Tive a sorte de poder fazê-lo como quis. Não saberia fazer de outro jeito. Tanta gente me ajudou. Aprendi muito. Essa é a graça. O ofício de ator é um laboratório. O fazer, o descobrir é tão importante quando "o chegar". Poderia ter me acomodado no sucesso que a TV proporciona, mas preciso de mais.

Precisa, por exemplo, tocar nestas questões no palco, como em O Hóspede Secreto?

Sim. Em O Hóspede (escrita por Stefano Geraci e dirigida por Bacci foi encenada em agosto no Pavilhão Vera Cruz, São Bernardo), o personagem é um velho ator que revisita sua carreira. E se dá conta de que representa mas não se apresenta. Não aguenta mais carregar tantas máscaras. Essas que todos usam para viver em sociedade. Ele, que faz isso também por trabalho, usa técnicas para se proteger de quem realmente é.

Você não teme entrar em um terreno muito metalinguístico?

Sim. Mas não represento, eu me exponho muito no palco. Escolhi uma profissão em que há um animal em uma jaula que faz o encantamento dos outros. Há uma série de mecanismos que este bicho tem de operar para se manter em cena. É isso que me inquieta e inspira. Esta nossa necessidade de ser outro, de se desconhecer para conhecer o outro.

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