Lenise Pinheiro/Divulgação
Lenise Pinheiro/Divulgação

Cacá Carvalho estreia o espetáculo 'Umnenhumcemmil'

Texto de Luigi Pirandello que questiona identidades; 'ele ecoa muito forte em mim', diz ator

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2012 | 03h13

Para discorrer sobre o novo espetáculo de Cacá Carvalho seria possível evocar as máscaras que um ator incorpora ao longo da vida e o desejo de livrar-se delas. O leitor mais atento, contudo, poderia recordar que há pouco mais de uma semana foi exatamente esse o mote que abria o texto sobre o mais recente trabalho do grupo Lume.

Não se trata de falta de imaginação de quem escreve. Não apenas disso. Mas das coincidências entre as motivações que movem hoje toda uma geração de intérpretes. Gente que alcançou a fama, a maturidade, o reconhecimento. E, de repente, quer saber o que existe para além de todos esses rótulos. Afinal, somos o que julgamos ser? Ou da maneira como os outros nos veem?

Com Umnenhumcemmil, o percurso de Cacá se assemelha ao do Lume. Também lembra o caminho empreendido pelo grupo mineiro Galpão, que abandonou o teatro popular, em que trafegava com tanta segurança, para lançar-se à aventura de fazer Chekhov segundo os princípios do construtivismo russo.

Na montagem, que Cacá Carvalho estreia nesta sexta-feira, 10, no Sesc Bom Retiro, o veterano ator se coloca em zona de risco. Recusa o sucesso para confrontar-se consigo mesmo. Deixa evidente uma profunda inquietação com sua condição de artista, sua pretensa identidade. "Esse texto ecoa muito forte em mim", comenta. "Você começa a discutir essa relação entre pessoa e personagem e, de repente, vai embora tudo que é máscara", observa.

Umnenhumcemmil marca uma parceria de quase 25 anos com o diretor Roberto Bacci, da Fondazione Pontedera, da Itália. É ainda sua terceira incursão pela obra de Luigi Pirandello: antes vieram O Homem com a Flor na Boca (1993) e A Poltrona Escura (2003). A atual criação não guarda, portanto, a aparência de um empreendimento temeroso, inseguro. Mas é. "Em O Homem com a Flor na Boca existia uma partitura tão elaborada que parecia uma música. Na Poltrona Escura estavam todos aqueles personagens", lembra, "Aqui, fico sem nada. Não tem um recurso. De repente, a voz dele é igual à minha. Não tem diferença."

Umnenhumcemmil parte do último e mais celebrado dos romances de Pirandello. Conta a história de Vitangelo Moscarda. Um dia sua mulher lhe diz que seu nariz parece pender para a direita. Natural. Só que ele nunca se havia dado conta disso.

Essa prosaica observação serve como estopim para uma crise existencial. Aquele que ele julgava ser talvez não exista. Então, talvez, nada exista.

Diante dessa descoberta, Moscarda decide abandonar a própria vida. Abre mão da fortuna, destrói o banco que recebeu de herança, passa a agir de forma estapafúrdia, tentando sempre contrariar a imagem de bom homem que os outros têm dele.

"Se identidade é memória, história, herança, ele quer abandonar tudo isso", diz Cacá, encontrando aí mais um ponto de encontro entre si próprio e seu personagem. "Depois de ter feito tanto, jogo fora todos os modos de fazer para repensar que sentido tem tudo isso. Mas não por uma crise. Por uma vontade de descoberta."

Com situações que beiram o absurdo, o texto do dramaturgo e escritor italiano leva inevitavelmente ao riso. Trata-se, porém, de uma tragédia. Um argumento trágico que fala particularmente aos nossos dias. "A esse tempo em que todo mundo tem o seu avatar", lembra Cacá.

Pirandello escreveu o livro antes do advento da psicanálise, antes do processo de desconstrução do sujeito em que se lançou a filosofia contemporânea. Ainda assim, impressiona a urgência das questões metafísicas que movimenta. Na obra, ao fim de seu périplo, Vitangelo Moscarda descobre que não vive mais nele. Vive como um ator, fora de si. Não é apenas um. Mas também não é nenhum. É muitos, é cem mil.

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