Cacá Carvalho encarna crise do ator

O Hóspede Secreto.  Ator repete parceria com Roberto Bacci                  

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

 

 

 

 

Cacá Carvalho diz ter a sensação de estar a andar para trás. Antes de responder às perguntas, olha para cima, suspira. Parece angustiado. Conta que ainda não descobriu como fazer o personagem de sua próxima peça. "Não tenho ideia do que ele é e não sei o que pode virar", comenta. Mas, à medida que corre a entrevista, fica difícil saber se quem fala tudo isso é o próprio intérprete ou o protagonista que ele encarna em O Hóspede Secreto, espetáculo que abre curta temporada a partir de hoje. Isso porque o texto do italiano Stefano Geraci lança-se justamente a tratar de um ator maduro que passa em revista os papéis que interpretou e coloca sob suspeição todas as certezas sobre sua profissão.

"Eu queria colocá-lo nessa situação de crise. Obrigá-lo a confrontar-se consigo mesmo e não a rever o próprio sucesso. Esta peça poderia ser definida como um réquiem para um grande ator", considera o encenador Roberto Bacci. É antiga a parceria entre Cacá e o italiano diretor da Fondazione Pontedera Teatro. Aproximaram-se nos anos 80 e, desde então, apresentaram algumas montagens que resultaram desse encontro: caso de O Homem com a Flor na Boca e A Poltrona Escura, ambos adaptados da literatura de Luigi Pirandello.

O Hóspede Secreto é uma obra inédita. Faz sua estreia mundial por aqui, nos antigos estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo, e coloca Cacá em uma situação na qual ele não se encontrava havia mais de sete anos: a de dividir o palco com outro intérprete. Depois de uma sequência de monólogos, ele agora contracena com Joana Levi. É ela quem encarna uma espécie de jovem secretário, responsável por desvelar para esse grande ator o vazio que o acomete.

Lições de Jouvet. Muito da inspiração para o texto vem das lições de Louis Jouvet, diretor e ator francês que problematizou o ofício do intérprete. Nas lições para seus alunos da Comédie-Française, Jouvet apontava a necessidade de o ator acercar-se de seu personagem sem sentir-se compelido a achatá-lo, a defini-lo previamente sob um único ponto de vista ou sob determinada perspectiva. Em O Hóspede Secreto essa problemática ganha corpo na figura desse ator, antigo intérprete de Molière, que um dia chega em casa depois da récita de um espetáculo e decide, subitamente, abandonar tudo. Para Cacá, o atual trabalho desliza para uma zona de certo amargor. "Ele acha que está descobrindo o mistério de por que interpretar. É como se estivesse a tratar de uma mágoa que reacende constantemente por pequenas coisas. Ele só representa, mas nunca se apresenta."

Serviço: O Hóspede Secreto. Pavilhão Vera Cruz (240 lug.). Av. Lucas Nogueira Garcez, 769, S. Bernardo do Campo. 4ª a sáb., 21h; dom., 19h. Grátis. Até 29/8.

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