Caça às palavras e coisas

Atacama, de Maria Cecilia Brandi, revela uma autora que encontrou sua linguagem

MOACIR AMÂNCIO É PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA DA USP, POETA, FICCIONISTA, ENSAÍSTA, AUTOR DE ATA (EDITORA RECORD), YONA, O ANDRÓGINO - NOTAS SOBRE POESIA, CABALA (NANKIN/EDUSP) , O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2012 | 03h09

ATACAMA

Autora: Maria Cecilia Brandi

Editora: 7Letras

(62 págs., R$ 33)

MOACIR AMÂNCIO

A rigor, todo poema repete a busca da poesia. Num livro de poemas, as diversas buscas se articulam e podem produzir o efeito caçado, isto é, acenar com algo que altera nossa relação com as palavras e as coisas, ou as coisas nas palavras. Este parece ser o motivo de Atacama, da carioca Maria Cecilia Brandi. O poema Cartão-postal, que ilustra a contracapa, resume o processo de maneira despojada, como sem querer, quando o eu lírico depara "um castelo / entre a conta de luz / e o extrato bancário". O aleatório revela-se como poesia e se dá na cena cotidiana das palavras banais. Os registros de Brandi são sobras das experiências que pretendem expandir sensações, ideias, lembranças, por isso quem sabe aquele esbarro autopiedoso da pessoa que tenta ligar para a casa da infância à espera de ser atendida por ela mesma (pág. 58).

O que ressalta neste livro, porém, é o encontro da autora com sua linguagem conferindo unidade ao conjunto. Na verdade aí está a primeira conquista para a execução de um projeto consistente. Sem dúvida a experimentação está aberta, muitas vezes se torna necessário algum tipo de mudança radical, como vemos em Murilo Mendes, que se negava a ser póstumo de si mesmo, segundo uma de suas epígrafes. No entanto a atitude fundamental permanece a mesma - eis o desafio. Poucos estão dispostos a enfrentá-lo e os que conseguem, digamos, superá-lo em certo sentido, são menos ainda. Brandi expressa a perplexidade de distinguir o caráter intangível do interior e do exterior num poema sobre a percepção dos mundos alheios e do próprio universo sempre fugidio, sempre mutável. Chama-se Carrossel e tem uma cidade francesa qualquer por cenário, o local de onde o eu lírico observa a Terra e o espaço, de um ilusório ponto estável. A ilusão revela-se no deslocamento geográfico e no último verso, com belo e surpreendente paralelismo: "A lua ao redor da Terra / a agulha sobre o vinil: // Um eixo fixo, mas tudo gira." (págs. 38-39)

A surpresa se torna mais forte pela naturalidade do desvio, como ocorre também neste trecho em prosa sonora: "Quebrou o vidro da janela com a mão e foi-se ela: cada lábio uma asa." (A Boca, pág. 12) Em vez do lábio-pétala, lugar-comum, o voo que nos levará à pág. 54, onde a pétala "passeia / pelos ares / tapete / voador", até se perder à espera de que seja reencontrada. Mas há momentos em que o objeto da busca fica para trás, como em Fiapos (pág. 45), no qual as duas últimas linhas refletem o impulso de "explicar" o que estava sendo dito, passa do ponto. Talvez falte um pouco de confiança no próprio taco para deixar que a poesia fale simplesmente. Como fala em Sapatos (pág. 49), sobre a incômoda intimidade entre alguém e os sapatos que representam um embate com a vida e nesse embate a própria luta poética, a linguagem que constrange e ao mesmo tempo expõe a epifania. Escrever e ler poemas pode ser comparado tanto à ideia de se fazer omelete sem quebrar os ovos, como chegar ao mesmo objetivo mas quebrando os ovos.

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