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Cacá

Sou Salgueiro, mas duvido que se ouvirá um samba enredo melhor do que o da Mangueira no desfile das escolas do Rio, no ano que vem - um samba para Marielle Franco

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

15 Novembro 2018 | 02h00

Sou Salgueiro, mas duvido que se ouvirá um samba enredo melhor do que o da Mangueira no desfile das escolas do Rio, no ano que vem. O samba é em homenagem à Marielle Franco, vítima por duas vezes, das balas dos assassinos e do descaso das autoridades em identificá-los. Dizem que o que está dificultando a investigação é que todo o mundo sabe quem foram os atiradores e quem são os mandantes, a questão agora é decidir se vale a pena denunciá-los ou se é melhor deixar tudo, brasileiramente, pra lá – “lá” sendo aquele lugar em que nossos crimes e nossas culpas vão para serem convenientemente esquecidos.

O samba da Mangueira homenageia a Marielle, mas também fala sobre um Brasil desejado, “o Brasil que não está no retrato”, que não é o falso Brasil da história ensinada nas escolas. Agora, querem que a história oficial seja única e sem contestação. Boa parte da nossa história oficial é mentirosa, ou apena uma versão entre outras versões possíveis do que realmente aconteceu. Contestá-la não é fazer doutrinação ideológica, é uma maneira de formar, não pequenos comunistas, mas alunos capazes de aceitar a diversidade e as razões por trás do que aparentam ser apenas histórias de triunfos e heróis.

Ouvi o samba da Mangueira na internet, cantado pela turma de compositores da escola com uma participação importante, a da Cacá (guarde este nome) Nascimento, uma menina que não deve ter mais do que doze anos, com uma bela voz e uma bela cara. Quero agradecer a Cacá. Às vezes, quando a gente está por baixo, pensando o pior da humanidade, alguma coisa vem e nos salva. Você recupera a esperança, o apetite e o prumo existencial, seja isso o que for. Aconteceu comigo vendo o sorriso aberto da Cacá cantando Marielle. O rosto da Cacá apaga tudo de ruim deste momento nacional. É o rosto da nossa reação. Lidere-nos, Cacá.

Papo vovô. Nosso neto de 6 anos, Davi, começou a prefaciar tudo o que diz com a frase “Pelos meus cálculos”. Como em: “Pelos meus cálculos, estou com fome”. Cresce a suspeita que temos um Einstein na família.

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