Cabrera Infante elege século 20 o melhor da literatura

O século 20 foi ?o melhor dos séculos literários?, mas o ?pior dos séculos políticos?, pois se despede marcado pelas tiranias de Hitler e Stalin, assim como pelas ?mais cruéis e duras guerras?, afirmou nessa segunda, em Madrid, o escritor cubano exilado em Londres, Guillermo Cabrera Infante.Os ?livros mestres? do próximo século ?serão os livros que definiram o milênio que termina?, assinalou Cabrera Infante, durante uma conferência oferecida no início de um curso sobre Livros para o Terceiro Milênio, organizado no El Escorial, próximo a Madrid. Ganhador do Prêmio Cervantes de 1997, Cabrera Infante prepara a publicação na Espanha de seu livro Puro Humo (Puro Fumo) e escreve atualmente uma nova obra, La Ninfa Inconstante. Este tem sido ?o século no qual a história se fez história, mas foi também o melhor dos séculos literários, deixando-nos Ulisses, o mais decisivo e importante romance do milênio, obra do irlandês James Joyce (1882-1941)?, segundo disse Cabrera Infante. Ulisses tem sido catalogado por literatos internacionais como um curioso ?monólogo interior? de Joyce, e considerado uma obra audaz que influiu poderosamente no romance contemporâneo. Muitos autores modernos confessam ter sido influenciados particularmente pelas grandes inquietações literárias de Joyce, tendo-se inspirado em Ulisses, ou em outras de suas grandes obras, para desenhar suas carreiras literárias. Cabrera Infante também destacou do autor irlandês Finnegan?s Wake e Paradigma da Dificuldade de Ler, sublinhando que Joyce ?esperava empilhar a vida de todos os homens? e isso - disse -, ?fez com que seu romance fosse impossível de ser lido pelo grande público?. Até este século, explicou, não havia registro de ?tanta celebração sobre a dificuldade de ler?, indicando que no século 19, tanto o romancista inglês Charles Dickens (1812-1870), um dos mestres do gênero, como o francês Gustave Flaubert (1821-1880), mestre do realismo, tentaram sempre alcançar a máxima clareza expressiva possível. Mas, esclareceu ? ?isso não supõe que a facilidade de ler seja uma vantagem para os livros, pois os best selleres são romances de aeroporto tatalmente dispensáveis?.Esses ?doutores do fascismo? são os que maior dano causam ao romance, e os que mais o negam. Sobre sua própria obra, Infante disse com ênfase que ele não escreve romances. ?Escrevo livros, pois o romance é um contrato entre o editor e o comprador?, assinalou antes de usar o exemplo de Cervantes para ilustrar suas posição: ?Ele chamou o Quixote de livro e não de romance!? Para Cabrera Infante, ?o futuro do romance depende dele mesmo?, indicando que entre os títulos mais importantes e básicos para entender o século que termina estão Pedro Páramo, de Juan Rulfo; Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust; o já mencionado Ulisses; O Beijo da Mulher Aranha, de Manuel Puig, obra que considerou ?a culminação da pop art?. Sobre a literatura cubana, o escritor exilado destacou a ?valentia? de Zoé Valdés, radicada em Paris ? e a obra de Lino Novás e Lidia Cabrera, mas criticou acidamente Alejo Carpentier, afirmando que ?nem foi tão bom nem tão decisivo?. E acrescentou que ?A figura de Carpentier é um mito e uma celebridade do regime cubano que na realidade, é tão complicado que ninguém em Cuba o lê?, assegurou Cabrera Infante.

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