Cabral, Bandeira, Drummond: uma lição de poesia

Cartas não têm compromissos com escolas, com princípios estéticos, com a tradição literária; o bom nas cartas, território da liberdade íntima, é que, em geral, elas nos trazem pequenos tesouros delicados, que não temos a consciência de procurar. Mais uma vez é assim, agora nessa vasta correspondência entre João Cabral de Melo Neto e dois de nossos maiores poetas, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, organizada por Flora Süssekind. O livro reúne 104 documentos trocados entre eles, incluindo cartas, bilhetes, telegramas, poemas e cartões. Flora iniciou a pesquisa acidentalmente, como parte de um estudo sobre a formação do método poético cabralino. Tudo começou enquanto manuseava cartas de Cabral a Drummond e Bandeira depositadas nos arquivos da Casa de Rui Barbosa, onde ela trabalha como pesquisadora. Na ocasião da descoberta, chegou a sugerir a João Cabral que, numa futura edição em livro dessa correspondência, escrevesse ele mesmo as notas explicativas - à maneira do que fizeram Drummond, com A Lição de Amigo, e Bandeira, com Cartas a Manuel Bandeira, livros que reúnem cartas trocadas entre eles e Mário de Andrade. Sempre discretíssimo, Cabral, no entanto, recusou a idéia, alegando que se tratava de material a ser divulgado apenas após sua morte. São cartas escritas por e para um poeta aprendiz, o jovem Cabral: as cartas trocadas entre ele e Drummond se concentram entre os anos de 1940 e 46; entre ele e Bandeira, entre os anos de 1947 e 1958; períodos, portanto, em que João Cabral, nascido em 1920, ainda lutava para se afirmar como poeta; e, para se fortalecer, se apoiava nos ombros de dois poetas mais experientes (Drummond 18 anos mais velho, Bandeira, 34). Elas sublinham, nas palavras de Flora Süssekind, "a importância da amizade literária com os dois poetas mais velhos justamente durante o processo de formação do método poético cabralino". As cartas vêm acompanhadas de um farto e minucioso conjunto de notas explicativas, que compõem praticamente um segundo livro dentro do primeiro. Em 1940, o jovem Cabral, então com 20 anos, viajava com a família do Recife, onde nasceu, para o Rio, onde, logo depois, Murilo Mendes o apresentaria a Drummond. Em 46, quando a correspondência com Drummond se encerra, ele trabalhava no Departamento Cultural do Itamaraty e se casava com Stella, sua primeira mulher. Em 47, quando inicia a correspondência com Bandeira, Cabral é removido para o Consulado Geral de Barcelona, Espanha, como vice-cônsul e, nas horas vagas, começa a trabalhar em sua pequena prensa artesanal. Em 58, ano da última carta, ele está se transferindo para o Consulado Geral em Marselha, França, onde faz anotações para Quaderna, livro que publicaria dois anos depois. Exercícios de formação - O Drummond que lhe escreve entre 1940 e 46, por sua vez, já é um poeta maduro (em 40, aos 38 anos, publica O Sentimento do Mundo). Em 45, viria a publicar o célebre A Rosa do Povo - sinal inequívoco, como Flora registra, do adensamento social de sua poesia. Ainda não é, porém, o Drummond que se volta para a investigação poética, e que surge de corpo inteiro em Claro Enigma, de 1951. O Bandeira que começa a escrever para Cabral em 47, por seu turno, já é um homem de mais de 60 anos, que já tem suas Poesias Completas e se prepara para publicar, em 54, o célebre Itinerário de Pasárgada. São delicados exercícios de formação que se expressam ao longo dessa correspondência. Nesse aspecto, Flora nos recorda que, em Agrestes, livro que viria a escrever quase 50 anos depois da primeira carta, em 85, Cabral ainda reverencia os dois mestres, num poema homônimo a O Último Poema, de Bandeira, e numa revisão do poema Morte no Avião, de Drummond, batizada de Morrer de Avião. Tanto que, nas cartas, Cabral já dá, precocemente, sinais do reconhecimento dessa dívida que o une aos dois grandes poetas e da influência que viria a sofrer dos dois. Um Drummond sempre mais comedido, mais formal, que mede as palavras e, mesmo nas cartas, só dá um passo após o outro; um Bandeira, ao contrário, mais expansivo, mais atabalhoado, mais voltado para as coisas reais, aquele poeta-feiticeiro, capaz de desentranhar poesia de tudo - embora jamais indiferente às questões literárias de seu tempo. Influências, portanto, de timbres diversos, que se combinam na mente do jovem Cabral de modo, contudo, não menos contundente. Cabral afina com Drummond, fica claro, o gosto por uma estética seca, expressa na declaração posterior: "Foi a dicção áspera de Drummond que me mostrou uma poesia sem aquela oratória escorregadia que me irritava." Drummond, Flora Süssekind observa, está presente, desde já, nas dedicatórias e epígrafes dos primeiros livros de Cabral, sua escrita e seu nome ali postados como um selo a legitimar uma ascendência. Nas cartas entre os três escritores, Flora observa ainda, "há como que pequenos fragmentos críticos minando o caráter expressivo e a ênfase subjetiva próprios aos espitolários"; o tom ensaístico se imiscui aqui e ali. Há nas cartas de Cabral, Flora nota também, uma "dessubjetivação", um desvio do falar da si; ao contrário disso, um olhar voltado para fora, para o exterior, para o concreto e para a teoria. Sintomas de sua "estética mineral", de sua "estética de cabra". É curioso observar a diferença de tom entre as duas correspondências. Com Bandeira, Cabral parece mais permeável aos pequenos sentimentos, ao desfrute das experiências mais íntimas, à liberdade interior. Parte de um poema do amigo, No Vosso e em Meu Coração, em que Bandeira lista as coisas da Espanha-sim e da Espanha-não. "Eu o tenho sempre na cabeça e permanentemente estou examinando o que há de sim e de não nas coisas que vou encontrando", diz em carta expedida de Barcelona em 4/9/47. Conclui que, no caso de Barcelona, que era uma de suas cidades preferidas, "o que vale é que a percentagem de sins é bem grande". Entre as novidades concretas que anuncia ao amigo, está a compra de sua célebre prensa manual, "um pouco falta do que fazer e algum tanto de recomendação médica: preocupar-me e ocupar-me com coisas mais físicas", diz. É o nascimento oficial do poeta de pedra. Nela, Cabral viria a imprimir, em tiragem restrita de cem exemplares, o Mafuá do Malungo, de Bandeira. Sem esconder o mal-estar com o meio literário que o cerca, Cabral se lamenta, em carta sem data do ano de 48, que "nossa crítica é um caso impressionante de sensibilidade habituada". E exemplifica: "Quando você sentiu no primeiro livro de Mário de Andrade um `ruim diferente´, havia um caso de sensibilidade não-habituada." Havia também, diz, quando a crítica estranhou o primeiro livro de Clarice, porque ela não escrevia à maneira de Lúcio Cardoso ou de Graciliano Ramos. "Muito tempo pensei que não poderia haver hábito de sensibilidade", explica. Velho, cansado, Bandeira se coloca na posição do mestre que espera as solicitações do discípulo, como aparece nesta carta de março de 49: "Vou passando sem novidade. Estive dois meses descansando em Petrópolis, mas ainda vim pegar um calor danado aqui. (...) Escreva, poeta", pede. Em carta de alguns meses depois, Cabral revida: "Você anda silencioso e eu com saudades. Resolvi, por isso, provocá-lo aí na sua solidão do Castelo." Em outra, de dezembro de 51, tenta consolar o amigo: "Se você acha que está ficando velho por não compreender a arte abstrata creio que está enganado. Em primeiro lugar, não há o que compreender." Bandeira ainda atua como bombeiro, por exemplo, quando, numa carta de janeiro de 51, tenta dissolver um mal-estar entre Cabral e o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Meses depois, ainda preocupado, despacha para Cabral um artigo em que Sérgio lhe faz referências elogiosas. Em carta do mesmo ano, aparece até um aspecto menos nobre da amizade entre eles, quando Bandeira comenta que Vinícius de Moraes fora expulso de casa, pela segunda vez, por sua primeira mulher, Tati; e que estaria (e estava) apaixonado por uma moça de 22 anos (Lila Bôscoli, com quem viria a se casar). Formalidade - As 62 cartas trocadas entre Cabral e Carlos Drummond de Andrade entre 1940 e 1984 guardam bem menos exuberância, são bem mais formais. Há, ainda assim, delicadeza. Cabral começa, numa carta de 41, consolando Drummond da acusação de "burocrata"; ao contrário, afirma que a leitura de Sentimento do Mundo, de Drummond, não só reconcilia o leitor com a língua portuguesa, como "compensa a existência de coisas como estas: os sociólogos, as estatísticas, os ditadores". Depois, Cabral agradece pela influência de Drummond na nomeação para a Fundação Joaquim Nabuco de seu primo, Evaldo Cabral de Melo, hoje eminente historiador. No mesmo tom lisonjeiro, Drummond, respondendo cheio de otimismo às graves dúvidas de Cabral sobre a validade do que escreve, lhe diz em outra carta: "Acho que você deve publicar. Sou da opinião de que tudo deve ser publicado, uma vez que foi escrito. Escrever para si mesmo é narcisismo, ou medo disfarçado em timidez." A intimidade entre eles parece se estreitar quando, numa carta de setembro de 42, Cabral se abre a respeito de uma profunda crise de melancolia que o acometia e explica que, depois de se internar por seis meses no Recife, os médicos agora o aconselhavam a ir para o Rio. O que deseja de fato com essa confissão? Na verdade, quer lhe pedir um emprego. "Creio que uma colocação no Rio, mesmo provisória, me permitiria fazer qualquer tratamento", se abre. Em seguida, contudo, sucede-se uma longa série de brevíssimos bilhetes, cartões, recados em duas ou três linhas, pautados sempre sobre motivos objetivos: uma indicação pessoal, uma sugestão de leitura, a apresentação sucinta de um poema inédito, um recado para terceiro. Os amigos parecem se poupar da intimidade, escondendo-se sobre o manto mais previsível da amabilidade. "Não faça caso de minha indignidade epistolar", Drummond pede, em certa carta. Ao que Cabral responde: "Estou certo que você não vai pensar que o meu silêncio é represália ao seu." Os dois amigos se escrevem cheios de dedos. "Que o seu silêncio me faz falta não há dúvida; mas daí a ficar aborrecido, nunca", Cabral insiste. Essas diferenças de tom e de temperamento, no entanto, ajudam a revelar dois momentos - duas partes - da formação poética de João Cabral de Melo. E, nesse processo de autodescoberta, ele não poderia estar escoltado por dois interlocutores mais competentes.

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