"Cabra" revisita a tragédia de Canudos

Dois atores portugueses, atores e pobres, à deriva no fim do século 19, depois de proclamada a República no Brasil, vão bater à porta de Canudos, porque ouviram dizer que lá resiste um reduto monárquico, reunindo "os saudosos do tempo imperial". Só que deparam com "gente pobre e maltratada, rezando o dia inteiro". O mote cômico pontua o espetáculo Cabra, com os atores Marcos Damigo, autor do texto, e João Carlos Andreazza. A peça recebeu o Prêmio Nascente da USP, em 97, e teve pouquíssimas apresentações em São Paulo. Hoje, ela reestréia no Sesc Pinheiros, com mais duas sessões agendadas para os dias 18 e 25. Damigo e Andreazza representam cerca de 30 personagens, sob a direção de Georgette Fadel. São todos personagens fictícios, mas fielmente umbilicados ao universo da época. A história dos atores portugueses, monarquistas convictos, que desejam mostrar sua arte à nova Corte, funde-se à dramatização que fazem sobre a comunidade beata de Belo Monte. Além de representar os monarquistas atores, Damigo e Andreazza encarnam beatas, padres, barões, jagunços e soldados. Sob a forma de quadros, relatam a trajetória trágica de Canudos, a partir da última prisão de Antônio Conselheiro ao esmagamento total da comunidade pelas tropas governamentais, em 1897. Momentos cômicos cedem espaço às revelações dramáticas que o escritor e jornalista Euclides da Cunha relatou no célebre Os Sertões."A idéia de escrever sobre Canudos é antiga, dos meus tempos de estudante de agronomia", conta o ator. Estagiando em Sociologia Rural em meados dos anos 90, entrou em contato com o Movimento dos Sem-Terra. "A história de Canudos é modelar para eles, é um grande exemplo de luta." Damigo trocou a agronomia pelas artes cênicas, levando junto o desejo de contar o épico. E oferece ao público os resultados de uma pesquisa acurada. As circunstâncias históricas mesclam-se a depoimentos e músicas recolhidas da época. O coronel Moreira César, que amargou com suas tropas a derrota de uma das expedições, é revelado na canção: "Moreira César, chamado corta-pescoço, veio agora nesta guerra deixar no sertão o osso", entoavam os populares simpatizantes de Conselheiro. Cabra não tem cenário. Um grande baú carregado pelos personagens portugueses guarda os inúmeros figurinos e acessórios, e também serve também como camarim, carroça e igreja. O clima e a ambientação da peça ficam por conta e risco dos atores, que experimentam a parceria no palco pela primeira vez.Damigo também está no elenco do espetáculo Suburbia (ele faz o personagem Tim), em cartaz no Espaço KVA. Andreazza integrou o elenco do grupo Razões Inversas, participando de montagens dirigidas por Márcio Aurélio. Após o espetáculo, os atores de Cabra convidam o público a um bate-papo, em se propõem a responder perguntas sobre o processo de montagem da peça e trocar impressões sobre o épico de Canudos. Cabra - Dois Atores na Corte de Canudos. De Marcos Damigo. Direção Georgette Fadel. Segunda, às 21 horas. R$ 6,00. Sesc Pinheiros. Avenida Rebouças, 2.876, tel. 3815-3999. Até 25/6.

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