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'Cabra Marcado para Morrer' ganha versão restaurada

É difícil não pensar em Glauber Rocha na reestreia do clássico de Eduardo Coutinho

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2012 | 03h10

Existem filmes míticos no cinema brasileiro e, às vezes, o que lhes confere a aura é o próprio contexto em que foram feitos. Um título cultuado é, por exemplo, Limite, que o jovem Mário Peixoto realizou aos 23 anos, em 1931. Outro pode ser muito bem Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho. Cinéfilos sabem, mas não custa lembrar. Coutinho realizava, em 1964, no interior do Nordeste, um filme sobre João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas. O filme, no contexto do Cinema Novo, que procurava colocar a cara do Brasil na tela, fosse a favela ou o sertão, abordava a explosiva questão fundiária.

João Pedro havia sido morto pelo latifúndio e a ficção sobre sua vida, interpretada por camponeses, foi interrompida pelo golpe militar. Sua mulher, separada dos filhos, assumiu outra identidade para seguir vivendo. No começo dos anos 1980, em pleno processo de Abertura, o País vivia outro momento de sua história. João Figueiredo era presidente e Tancredo Neves já costurava as alianças que levariam à sua vitória no Colégio Eleitoral, embora ele não tenha vivido para ser presidente. O Brasil ia mudar e o filme de Coutinho, pronto em 1984, expressa a mudança.

O próprio Coutinho mudou. Roteirista e diretor, ele já havia feito O Homem Que Vendeu o Mundo, ficção que 11 entre 10 críticos esqueceriam alegremente ao fazer a revisão crítica do cinema brasileiro nos anos 1960. Nos anos de chumbo, Coutinho fora fazer o Globo Repórter. Sua grande obra começa aí, no estímulo à vocação de documentarista e, de volta ao Cabra, em 1981, ele passa a trabalhar nas bordas, desenvolvendo a que será uma característica decisiva de sua estética. Coutinho dialoga ficção e documentário. Retoma imagens do seu filme inacabado de 1964 - os negativos, dados como perdidos, haviam sido reencontrados -, segue o rastro de Elizabeth Teixeira e a encontra no Rio Grande do Norte, sob outro nome. O filme vira um duplo resgate - de uma saga política e de uma vida destroçada pela História. Trata de difíceis relações familiares - o reencontro com os filhos -, aborda formas de reorganização política e social.

Criou-se um culto em torno de Cabra Marcado para Morrer e o filme de Coutinho, que não é um documentário tradicional, foi escolhido como o melhor do formato no cinema brasileiro. O melhor documentário? Percebem-se os motivos para tanta reverência - o lado humano, tão forte quanto o estético -, mas o próprio Coutinho não cessou de evoluir. Seus documentários criaram um paradigma. Baseiam-se em entrevistas e ninguém entrevista melhor que Coutinho. Ele se reinventou em Santo Forte, em Edifício Master e Jogo de Cena, respectivamente em 1999, 2002 e 2007. Diante de certos momentos de Cabra, mesmo tocado pelo que se passa na tela, o espectador, exercendo seu juízo crítico, não pode deixar de pensar que o Coutinho de 2012 conduziria melhor as entrevistas e o intimismo seria ainda mais visceral. Pode ser só uma impressão subjetiva, mas, sem prejuízo da validação da importância - histórica e cinematográfica - do Cabra, Coutinho é mais Coutinho em Edifício Master e, talvez, Jogo de Cena.

O filme que reestreou na sexta-feira já havia passado no Festival de Documentários É Tudo Verdade, em março - e numa data simbólica, o dia 31, quando, há 48 anos, foi deflagrado o golpe. A cópia é resultado de um impecável trabalho de restauração, comandado pelo fotógrafo Lauro Escorel, e isso significa que, por mais vezes que você tenha visto e revisto Cabra Marcado para Morrer, nunca foi com essa qualidade de imagem (e som). Vale lembrar que o filme foi feito em condições difíceis, senão precárias, e seu percurso acidentado não facilitou as coisas.

Elizabeth Teixeira é uma personagem extraordinária, com a força das grandes trágicas gregas. Seu rosto marcado e as roupas pretas na filmagem antiga refletem-se na parte dos 80, quando ela, como o próprio Brasil, se reconstrói, reencontra a família. A despedida de Coutinho é um momento para guardar no imaginário, mas não foi o ato final de Elizabeth no cinema. Ela ainda seria tema de um curta-documentário exibido no Festival do Rio do ano passado, Uma Visita para Elizabeth Teixeira. A diretora Susanna Lira mostra a viúva de João Pedro Teixeira como uma velhinha que abre um largo sorriso para a sua câmera - o que Coutinho não logrou no Cabra, até por conta da proximidade da proximidade dos fatos e da saída traumática da clandestinidade. Elizabeth, após os destroços, pacificada. Impossível não pensar em Glauber, em Deus e o Diabo - "Mais fortes (realmente) são os poderes do povo."

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