''Cabra da peste'' desde o começo

Djavan chegou ao Rio em 1973. Trouxe na mala influências de Jackson do Pandeiro, Beatles e Bob Marley, todas ressonantes em canções de cunho jazzístico que o próprio compositor achava difíceis de entender.

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2011 | 00h00

Tinha razão. Quando começou a afiar seu som como crooner da boate Number One, não eram todos que entendiam aquela mistura de acordes modernos com embolada de sotaque alagoano. Mas a ignorância que realmente o desanimou veio de outra forma: "Sofri muito preconceito, não exatamente por ser negro, mas por ser nordestino", contou anos depois, em uma entrevista. "O começo foi uma barra. Pensei até em largar a música. Quem impediu que eu largasse foi minha mulher. Ela me deu muita força para que eu continuasse insistindo", disse.

As oportunidades surgiram com o tempo, precisamente em 1975, quando João Mello, influente produtor da Som Livre resolveu dar uma chance ao jovem crooner.

A gravadora, que pertencia à Rede Globo, era responsável - ainda é - pelos discos das trilhas das novelas da emissora. E aquele vozeirão versátil, de timbre levemente feminino, que transitava com facilidade entre o samba e o blues, chamou a atenção do País pela primeira vez ao cantar a melodia de Alegre Menina, de Dorival Caymmi, durante a novela Gabriela.

Mais alguns meses e a gravadora resolveu apostar de vez na estreia de Djavan, com o disco A Voz, o Violão, a Música de Djavan, que chega às bancas amanhã em relançamento da Discoteca Estadão, por R$ 14,90.

Convocaram ninguém menos que Aloysio de Oliveira, produtor-mor da fase áurea da bossa nova, responsável pelos clássicos Chega de Saudade, de João Gilberto, e Elis e Tom.

O conceito era semelhante ao das casas noturnas que o alagoana embalava: piano, baixo, bateria e violão com arranjos simples criavam a trama rítmica do samba jazz, que a essa altura da história da MPB já havia se transformado em uma linguagem enxuta, mais samba do que jazz, em que a ampla sonoridade jazzística dos anos 50 e 60 fora substituída pela mescla compacta de baixo elétrico e uma bateria seca.

Luizão Maia, o gênio imortal do baixo elétrico brasileiro, fazia parte do time da gravadora e foi escalado, assim como Altamiro Carrilho na flauta, Edison Machado na bateria e Hélio Delmiro na guitarra. O resultado é de um suingue primoroso, que embala o disco do começo ao fim. No repertório, pérolas conhecidas e obscuras: a faixa de abertura, Flor de Lis, e Fato Consumado já se integraram ao inconsciente coletivo nacional. Maçã do Rosto é um delicioso baião feito por quem tinha Jackson na veia. Para-Raio é puro samba funkeado, com um breque capaz de deslocar o quadril dos desprevenidos. Costurando o disco, as letras de embolada do cabra da peste alagoano que virou ícone nacional.

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