Cabo Verde se diz otimista quanto a intercâmbio de literaturas

Cinco escritores cabo-verdianos foram convidados a dar um ciclo de palestras sobre a literatura do país e suas relações com a cultura brasileira na 14ª Feira do Livro de Ribeirão Preto

Guilherme Sobota, Ribeirão Preto - O Estado de S. Paulo

21 de maio de 2014 | 13h00

As culturas de Brasil e Cabo Verde têm uma origem fundamental muito próxima, que pode também ser trazida para o campo literário – essa é a opinião de um grupo de escritores de Cabo Verde que conversaram com o Estado sobre as condições culturais e sobre a literatura de seu país e suas relações com o Brasil. Os escritores foram convidados da 14ª Feira do Livro de Ribeirão Preto e ministraram palestras na cidade e na região nos últimos dias. Corsino Fortes, Vera Duarte, Fátima Bittencourt, Danny Spíndola e Brito Semedo compartilharam suas experiências com os leitores brasileiros no interior paulista.

Cabo Verde é um conjunto de ilhas no Atlântico, a 640 km da costa oeste da África, que até 1975 era colônia portuguesa, como o Brasil foi por mais de 300 anos. Ali, escravos negros passavam antes de serem trancafiados em navios precários e obrigados a virem para o Brasil. Apesar dessa “estação da dor”, nomeada assim pela escritora cabo-verdiana Vera Duarte, e mesmo por causa desse período, as culturas se aproximam.

A impressão do grupo se divide em duas: de um lado, ainda há um longo caminho a ser trilhado para uma verdadeira troca benéfica de valores culturais e literários, caminho que passa por aspectos políticos e diplomáticos; por outro lado, um otimismo crescente que envolve estudos acadêmicos especializados em literatura africana, publicações por editoras brasileiras e até mesmo homenagens de escolas brasileiras – de Ribeirão – aos literatos daquele país.

Corsino Fortes é um homem alto e não aparenta os 81 anos que leva nas costas: diplomata, foi embaixador de Cabo Verde em diversos países, ministro de diversas pastas, hoje é presidente da Academia Cabo Verdiana de Letras e, nas palavras de sua colega Fátima Bittencourt, “nosso maior poeta”. Fortes é autor da antologia A Cabeça Calva de Deus, série de poemas de estruturas épicas que conta a saga do povo de seu país.

Ele explica que os “vasos comunicantes” entre as literaturas dos dois lugares – Cabo Verde e Brasil – ficaram mais claros com o movimento modernista de 1922, especialmente com Manuel Bandeira e mais tarde João Cabral de Melo Neto. O modernismo brasileiro deu origem, em Cabo Verde, à Claridade, movimento próprio de afirmação da cultura – e da literatura – do país. “A intertextualidade entre as duas nações tem raízes muito profundas, mas ainda precisamos caminhar no sentido de criar, mais do que uma comunidade de nações, uma comunidade de cidadãos”, diz, experiente.

Ele dá o exemplo das telenovelas brasileiras, que foram e são exibidas no país com muito sucesso. Quando foi ministro das Comunicações no início dos anos 1980, veio ao Brasil negociar a veiculação das novelas na incipiente TV de Cabo Verde. Porém, esteve preocupado com o preço que seria cobrado pela emissora que produz as novelas. Depois de um jantar de “negociação”, recebeu uma proposta do valor que teria que pagar para exibir as novelas em seu país: um dólar simbólico por ano.

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“Há condições para a criação de um movimento parecido com a cultura literária”, diz, porém, lamentando o fato de que os livros trazidos pelo grupo na viagem ao Brasil ficaram presos na alfândega em Fortaleza. “Por isso que eu digo que é fundamental que haja medidas diplomáticas dos dois lados para que fluam obras culturais.”

A escritora Vera Duarte – cujo romance A Candidata foi publicado no Brasil em 2012 pela editora mineira Nandyala – destacou também a Lei 10.639, que há 11 anos estabelece como diretriz curricular no ensino básico brasileiro o estudo das culturas negras e africanas, inclusive da literatura.

Sobre a própria escrita, Vera tenta afastar a imagem exótica que escritores como Mia Couto, por exemplo, jogaram sobre a literatura africana de língua portuguesa. “Couto leva ao extremo experiências com a linguagem, e nesse sentido não há uma corrente paralela na literatura contemporânea de Cabo Verde”, explica. “Acredito que seja pelos temas e pela escrita que as pessoas talvez sintam alguma coisa: por exemplo, meu livro Arquipélago da Paixão, é uma voz feminina, de origem africana, e os leitores brasileiros conseguem ver naquela escrita muitas afinidades e cumplicidades, que bebem nas nossas raízes comuns.” E conclui: “os cabo-verdianos também querem ir à Pasárgada”.

O repórter viajou a convite da produção do evento.

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