J F Diorio/AE
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Cabo Anselmo inaugura nova fase do 'Roda Viva'

Programa apresentado por Mário Sérgio Conti estreia em clima de tribunal

Alline Dauroiz, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2011 | 15h55

Com cheiro de tinta fresca, o novo cenário do Roda Viva, criado por Daniela Thomas e Felipe Tassara, voltou ao formato original de arena, mas o tom branco chapado parece deixar o ambiente ainda mais intimidador. Pelo menos foi essa a impressão que teve o primeiro entrevistado do programa, Cabo Anselmo, famoso agente duplo da Ditadura Militar, que inaugurou nesta segunda-feira, 17, a nova fase do programa, com apresentação do jornalista Mário Sérgio Conti.

"Parece um tribunal", disse o ex-militar aos seus inquisidores, localizados estrategicamente em posição superior à do "réu".

Diferentemente da era Marília Gabriela, que deixou a apresentação do programa no mês passado, o Roda voltou a ser ao vivo - com pequena plateia de convidados, a maioria estudantes de jornalismo, além de tuiteiros, também estudantes - e a ter participação do público, que pôde enviar perguntas via e-mail e por Twitter.

A nova dinâmica permitiu, por exemplo, que ilustres internautas enviassem suas questões, como a novelista e escritora Maria Adelaide Amaral, cujo e-mail foi lido durante a atração. Porém, não teve impacto na audiência. Na média, o Roda Viva registrou 0,7 ponto, resultado similar ao alcançado por Marília.

Ainda assim, o polêmico entrevistado conseguiu levar a expressão "Cabo Anselmo" ao 3.º lugar entre os assuntos mais comentados no Twitter do País, e ao 9.º lugar entre os assuntos mundiais do microblog. Após ser informada sobre o feito durante o intervalo, a colunista da Folha Monica Bérgamo, uma das entrevistadoras, brincou: "Se o senhor responder o que a gente quer realmente saber, vai parar em primeiro no Twitter, Cabo Anselmo. Vamos colaborar?"

A brincadeira parou por aí. A polêmica e seriedade dos assuntos tratados na noite - ditadura, desaparecidos políticos, Comissão da Verdade - dispensaram cuidados especiais da direção do programa.

"Caruso, o assunto é sério, toma cuidado (nas charges) só pra gente não pesar na mão", recomendou a diretora Paula Azzar ao cartunista Paulo Caruso, cativo do programa.

Convidado a tuitar, o estudante de jornalismo e comediante de stand-up Igor Guimarães, de 19 anos, também recebeu instruções. "Falaram pra eu ser menos humorista e apenas retratar os fatos", revelou Guimarães.

Conti também confessou ter pedido aos "jornalistas mais chegados" cuidado para evitar o tom agressivo. "O grande desafio é não virar linchamento, um pelotão de fuzilamento", disse Conti ao final da gravação. "Ao mesmo tempo, é preciso ser incisivo e trazer as questões verdadeiras à tona."

Vice-presidente de conteúdo da TV Cultura, Fernando Vieira de Mello negou que a escolha de um convidado polêmico tenha norteado esta estreia. "Tinham vários nomes pra gente trazer, mas o Cabo Anselmo era importante, já que a Comissão da Verdade está na ordem do dia", afirmou Vieira de Mello.

Para Conti, a escolha de Anselmo - que revelou nem ser mesmo cabo - é um tema tanto da atualidade, quanto histórico, "uma vocação do Roda Viva". "Acho que ele se adequou bem."

Origens. Estreante em TV, Conti - que já passou por Veja, Jornal do Brasil e revista Piauí - revelou que, apesar de tudo ter saído conforme o planejado, ele acha que há coisas para corrigir. "Preciso melhorar postura, saber interromper as pessoas, escolher com rapidez as perguntas do Twitter (pré-selecionadas pela produção). Tudo muito televisivo, eu tenho que de pegar prática."

Com o improviso do ao vivo, o falatório dos entrevistadores e entrevistado se embolou em alguns momentos, apesar da recomendação de Conti aos colegas. "Achei que ia ser mais fácil controlar, pedi para não falarmos todo ao mesmo tempo, mas não tem jeito. Isso não é uma revista onde eu mando e está acabado (risos)", disse Conti.

O Roda então voltou às origens? Vieira de Mello desconversa. "Nunca abandonamos as origens. Voltamos ao formato antigo, mas o Roda nunca deixou de ser um programa relevante, que antecipa os assuntos nacionais."

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