Cabelos azuis

No fim da entrega dos Oscars você se pergunta "O que eu estou fazendo aqui a esta hora da noite em vez de estar na minha cama dormindo?". E todos os anos você fica até o fim e se faz a mesma pergunta.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2011 | 00h00

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Fomos enfeitiçados pelo cinema americano. Nos pegaram desde crianças. Não adianta tentar racionalizar, dizer que não temos nada a ver com aquela orgia autocongratulatória de Hollywood. Temos. É o feitiço que nos prende na poltrona até as duas da manhã, todos os anos. Mais forte do que o tédio ("que me interessa saber quem fez a melhor edição de som de médias-metragens começando com a letra C do ano?"), mais forte do que o senso crítico ("se mais um agradecer à sua espantosa esposa e espantosos filhos pelo prêmio, eu desligo"), mais forte do que o sono, o feitiço não tem cura.

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Espantoso, no show deste ano, foi ressuscitarem o Bob Hope, que durante anos foi o mestre de cerimônias dos Oscars e está morto desde 2003, e o colocarem no palco. Com as novas técnicas holográficas, ou que nome tenham, ninguém mais morre. O Kirk Douglas foi outro que ressurgiu do passado, mas pelos seus próprios meios.

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O mais bonito da noite foi a homenagem a Lena Horne, que morreu no ano passado, feita pela atriz Halle Berry. Mostraram um clipe da Lena Horne cantando Stormy Weather, e Halle Berry lembrou que a cantora foi uma das primeiras artistas negras a vencer a barreira da cor e fazer sucesso com o público branco sem precisar recorrer a estereótipos raciais e racistas. O segredo do seu sucesso pioneiro foi sua beleza. Como Halle Berry, Lena Horne tinha feições brancas. Nunca chegou a beijar um branco na tela mas escapou dos papéis normalmente reservados às negras e foi sempre um exemplo de classe e elegância. E abriu caminho para que um dia atrizes negras como Halle Berry pudessem beijar, e muito mais, quantos brancos quisessem nos seus filmes.

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Parênteses. O Millôr diz que nunca mais na sua vida teve uma sensação como a de descobrir a existência do lápis número 1. Tive uma sensação parecida quando, chegando aos Estados Unidos com 7 anos de idade, descobri histórias em quadrinhos coloridas, coisa que no Brasil - ou, pelo menos, em Porto Alegre - não existia. Maravilha. E sempre me intrigou que nas histórias em quadrinhos americanas os brancos que não eram loiros não tinham os cabelos castanhos ou pretos, mas azuis. Levei alguns anos para me dar conta de que os cabelos azuis impediam que alguém fosse identificado como negro, ou latino. O racismo tinha seu lado evidente mas também tinha seus códigos sutis. O nariz afilado e os lábios finos da Lena Horne lhe permitiam ser uma negra diferente, mas só até certo ponto. Se fosse retratada numa história em quadrinhos da época, ela não teria direito a cabelos azuis.

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Dos filmes concorrentes que vi, o que me parecia mais oscarizável era o Rede Social. Não ganhar nem o prêmio para a direção me pareceu a grande injustiça da noite. O Discurso do Rei é simpático e a atuação dos dois atores ótima, mas o filme não merecia a supervalorização. E perdeu-se uma boa oportunidade de pelo menos mencionar uma dúvida que persiste sobre a sucessão inglesa que acabou com o gago no trono, a importância da simpatia do rei Edward pelo nazismo, mais do que seu amor por Wally Simpson, na renúncia a que foi forçado. Mas isso é outro filme. E, afinal, o que eu estava fazendo lá àquela hora da noite em vez de estar na minha cama dormindo?

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