Cabelo e pele inspiram exposição no Instituto Tomie Ohtake

Os contornos do corpo humano sempre inspiraram a arte desde seu surgimento. Basta lembrar das esculturas gregas, que remetiam à perfeição dos deuses; das expressões enigmáticas da pintura renascentista ou ainda das formas assimétricas ousadas, adotadas pelos modernistas, rompendo padrões vigentes. Experiências artísticas mais radicais com o corpo marcaram os anos 60 e continuam pontuando a trajetória de nomes consagrados e novos talentos."O corpo humano encanta, mas também é capaz de chocar porque muitas pessoas não estão acostumadas a se enxergar", explica o artista plástico mineiro Marco Paulo Rolla, que juntamente com o fotógrafo Rafael Assef , apresenta no Instituto Tomie Ohtake, trabalhos que trazem uma visão do íntimo de maneira fragmentada, questionadora."Eu utilizo cabelos na minha obra", relata o artista, que não saiu munido de sacos de lixo para recorrer material em salões de beleza e muito menos empunhando uma tesoura afiada, em busca de alguém disposto a cortar vários centímetros de suas madeixas."Os fios são sintéticos. Fiz essa opção porque queria fazer uma crítica ao poder tecnológico. Tudo hoje é substituível", argumenta Marco Paulo Rolla. Segundo ele, o exercício artístico surgiu de seu contato também com o teatro e a dança."Essa mistura veio de encontro ao meu interesse em abordar a existência e utilizar a presença corporal como matéria-prima", conta o artista que, além da instalação, expõe pinturas e esculturas abordando relações entre o homem, o objeto e a natureza.Arte até nos porosO paulista Rafael Assef utiliza o corpo como uma inspiração constante. Ele acredita que a sua função é como a de um pedaço de papel, no qual seja possível expressar idéias e intenções."Gosto de riscar e interferir na pele. Às vezes eu me aproximo muito, outras crio um efeito de pele morta. Ambas trazem resultados bastante orgânicos ou não", descreve Assef."Estão expostas fotografias de 17 amigos meus e, na série Mapas, utilizei meu próprio corpo. Gosto da intensidade que a proximidade promove", reitera. O fotógrafo não dá pistas de quem é ele na obra, fazendo questão de manter-se anônimo.Sobre a contradição entre fascínio e repulsa que o corpo possa gerar, dependendo de como ele é mostrado, Rafael Assef defende: "Amor e ódio, dor e beleza estão muito ligados. Vivemos entre extremos. No meu caso, porém, dou valor à fotografias esteticamente bem acabadas e bonitas, que seduzam visualmente". Mesmo que as interferências na pele não sejam algo tão sutil.Ao refletir inquietações por meio do corpo, Marco Paulo Rolla e Rafael Assef são a prova de que não há limites para a sua utilização na arte contemporânea. Esta é uma tendência que, ao que parece, veio para ficar. Afinal, as obras que contemplamos em museus e galerias possuirão cada vez menos o caráter meramente decorativo ideal para sala de estar. Do Corpo à Paisagem. Instituto Tomie Ohtake. Avenida Faria Lima, 201, Pinheiros. Terça a domingo, das 11h às 20h. Até 20 de julho. Entrada franca.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.