‘Cabeça’ pra quem precisa

Titãs retomam álbum histórico em apresentações com ingressos esgotados no Sesc Belenzinho, a partir de hoje

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2012 | 03h11

Eles eram oito, hoje são cinco (quatro da formação original), mas o peso continua o mesmo, com baixo, bateria, duas guitarras, teclado e vocais rascantes. Anteontem num ensaio em Pinheiros, os cinquentões Branco Mello, Paulo Miklos, Sérgio Britto, Tony Bellotto e o jovem Mário Fabre deram uma potente demonstração de como vai ser o show em que tocarão o histórico Cabeça Dinossauro (1986), na íntegra e na sequência de faixas do disco, a partir de hoje no Sesc Belenzinho, dentro da série Álbum. Depois de um intervalo simbólico, o show prossegue com canções de outros álbuns compatíveis com essas, incluindo uma inédita.

Os ingressos para todas as apresentações se esgotaram em poucas horas, o que vem somar a uma série de feitos surpreendentes em torno do disco mais importante da banda. Os pedidos de fãs e produtores foram tantos que o quinteto vai levar o show para o Rio e outras cidades.

Como se sabe, com Cabeça Dinossauro, produzido por eles com Liminha, os Titãs deram uma guinada radical na carreira. Depois de dois álbuns bem-sucedidos comercialmente, decidiram arriscar um som mais pesado. Além disso, havia a temática combativa das letras, atacando as instituições: Igreja, Estado, Polícia, Família, etc., e a capa impactante com reprodução de um desenho de Leonardo Da Vinci no lugar da foto da banda, o que também era incomum na época. "Nas gravadoras havia a coisa do ciclo de três discos para o artista amadurecer. Esse era nosso momento e tivemos o suporte da gravadora para fazer e lançar o disco do jeito que a gente queria", lembra Miklos.

Além da elevação do nível de produção dos discos deles e das bandas daquela geração, Cabeça fez o rock de São Paulo se expandir nesse cenário em território nacional. Mais de 25 anos depois, a sonoridade e as canções não envelheceram. "Elas sobrevivem primeiramente pela qualidade musical. Quando o disco foi lançado ainda havia uns tentáculos da ditadura, havia censura, mas muitas canções se mostram bastante atuais mesmo", observa Bellotto. "É que não são coisas tão circunstanciais. Por exemplo, Polícia, ela é tão seca, tinha a coisa da economia, que era uma estética nossa e facilitou que ela ficasse menos presa a uma circunstância", emenda Britto. "O exercício do poder, a corrupção, a violência, a arbitrariedade são coisas que existem há muito tempo aqui e não vão deixar de existir."

Para Bellotto, Igreja, por alguns aspectos, parece até mais significativa agora do que na época. "Hoje em dia essas bancadas religiosas estão muito mais fortes no sentido de exigir o poder, de atravancar os direitos de homossexuais, de se opor contra as pesquisas com células-tronco. São dados que continuam pertinentes, 26 anos depois."

Dois dos Titãs sentiram na pele diretamente (e isso se refletiu nos demais) a arbitrariedade quando Arnaldo Antunes e Bellotto foram presos por porte de drogas. Eles então passaram dos cadernos ilustrados para as páginas policiais dos jornais. O episódio também teve forte impacto na realização do disco e ao mesmo tempo gerou muita insegurança quanto ao futuro da banda. "Aquilo foi muito contundente porque a gente estava solidificando um nome e naquele momento foi um tapa que resolvemos dar", lembra Mello. "E a gente sentiu o tapa reacionário do outro lado", prossegue Miklos.

Apesar dos boicotes, com shows cancelados, o lançamento do álbum foi um acontecimento no meio cultural. "No dia da estreia do show no Projeto SP (um circo que fez história na esquina das Ruas Augusta e Caio Prado) a gente não sabia se ia ter público. De repente, as pessoas foram chegando e aquilo lotou", lembra Mello. No cenário havia painel de couro e até pirotecnia. Hoje eles vão cantar com outro visual, criado por Cássio Brasil, inspirado na capa do disco.

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