Butantã a 10 mil pés

O professor Antônio Pedro Tota, autor do célebre livro O Imperialismo Sedutor (Companhia das Letras), lançado já em inglês até, como The Seduction of Brazil (University of Texas), promove na sua casa uns seminários.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2011 | 00h00

São pequenos. É preciso que os participantes todos caibam no balcão da sua cozinha, quatro ou cinco pessoas no máximo. Sempre falamos em gravar o áudio desses encontros. Durante o evento, ao menos, que inclui um jantar refinado elaborado pelo professor, nossas discussões soam relevantes; inventamos modas, máquinas, e comentamos os últimos acontecimentos no mundo da cultura de alto, médio e baixo calão. Já criamos diversas revistas. Falamos mais de uma vez da necessidade de pedir registro de nomes de produtos e empresas e solicitar patentes para nossas invenções espontâneas.

Na semana passada, no dia anterior ao seminário, o filósofo popular, diretor de arte e baterista Marcos Sismotto prometeu levar um gravador. Perguntou se eu tinha em casa uma fita cassete, o que denuncia um pouco a idade, é verdade. Mas, na última hora, Marcão não pôde comparecer e a sessão da quarta-feira se deu com as presenças do professor, minha e a do escritor Reinaldo Moraes, autor do festejado romance Pornopopeia. Mas sem gravador, nem o Marcão, infelizmente. De modo que ficou comigo o trabalho de transcrever o conteúdo do encontro.

Vou tentar ficar nos pontos altos. Abrimos com uma apresentação do Reinaldo sobre os benefícios para a literatura em geral e a sua, em particular, do seu novo escritório. Localizado em uma área residencial, próximo à minha casa, é tão silencioso, segundo o escritor, que ele consegue ouvir o ruído gerado pelo crescimento da sua própria próstata. Em todo o mundo, só Reinaldo Moraes é capaz de ter formulado essa frase, como sabem seus leitores. Antes do novo escritório, Reinaldo chegou a trabalhar com plugs de ouvido no chuveiro do seu apartamento em uma tentativa de combater o barulho. Eu vi a cena. Dava vontade de rir.

Não tenho dúvidas de que os leitores do Reinaldo serão os grandes beneficiados do seu novo local de trabalho. Pornopopeia, contou o autor, vai ser adaptado para o cinema. Quem leu o livro pode imaginar o desafio dos cineastas. Não vejo a hora de assistir. Vai virar um cult.

Outra vantagem do novo escritório, segundo o Rei, é a falta de internet. Como ainda não há conexão para a banda larga, não lhe resta quase nada para fazer a não ser escrever mesmo. Para quem, como ele, vive disso, é uma vantagem.

Foi aí que tivemos a primeira ideia para a mais nova patente. Imaginamos um computador, com processador de texto, dicionários, livros de referência e pesquisa embutidos, com todas as facilidades para cortar e copiar textos, mudar tipografias e o escambau, mas sem ligação para a internet, nem para o telefone, de modo que não fosse possível se distrair com e-mails, conversas, Facebook, twitter ou, como lembrou Reinaldo, sítios pornográficos.

Nos seminários, o professor procura manter - quase sempre - o nível, como ele mesmo diz. Trouxe o último capítulo da sua biografia de Nelson Rockefeller ao balcão e Reinaldo leu trechos da obra, ainda incompleta, em voz alta. É fascinante a influência que um único americano teve na história do Brasil. Na década de 1940, o homem mais rico do mundo era fascinado pelo País. Trouxe para cá máquinas agrícolas, planos de reforma agrária, o milho híbrido, as marginais de São Paulo e ternos prêt-à-porter, para mencionar apenas alguns itens. Pode falar qualquer coisa que o professor diz: "Foi o Nelson Rockefeller que fez".

Não sei bem como, mas do Nelson, como ele já é chamado entre nós, conseguimos chegar ao filme, Snakes on a Plane ("Serpentes a bordo"), com Samuel Jackson. Eu não sabia, mas tal como eu, Reinaldo é fã do filme, que já viu três vezes, uma a mais do que eu. Cheguei a recomendá-lo aqui mesmo no Caderno 2, quando saiu em 2006, mas recebi, depois, diversos questionamentos enérgicos da minha compreensão cinematográfica. Não precisa me escrever de novo. Entendo que é um gosto peculiar.

Contava essa história quando alguém teve uma ideia para uma sequência abrasileirada da obra. Teria que ser em 3D para começo de conversa. A sensação de ser atacado por centenas de cobras enquanto amarrado na poltrona em um avião seria forte nesse formato, concluímos. E a versão brasileira deveria ser dirigida, ainda, por Zé do Caixão.

O título quem deu foi o Reinaldo mesmo: Butantã a 10 Mil Pés. Já vamos registrá-lo.

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