Busquemos coisas agradáveis

Busquemos coisas agradáveis

Perdoem-me por começar falando de coisas minhas. É que meu romance Zero completa 35 anos de sua primeira edição brasileira. Teve uma vida atribulada esse livro, tendo ficado três anos proibido. Haverá em julho uma edição de aniversário. Enquanto isso, convido leitores para uma experiência. Um grupo de jovens escritores está reescrevendo o livro, no Twitter. O que será que vai acontecer? Estou curioso...

, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

Para acompanhar vá para www.twitter.com/Z_ER_O_O

Comecemos.

Pensei em falar do cinismo do Vaccari da Bancoop. Imaginei supor como ele se apresenta diante da família cada manhã, tendo lesado tantas famílias. Impossível conceber. Vai além da imaginação.

Desisti. Ficar remoendo coisas que indignam e envergonham? Não.

Mudei o rumo, começo com indagações.

São Paulo inunda? Inunda.

Congestiona? Claro, todo mundo vê e sente.

Tem ventos que derrubam árvores? Tem.

Violência? Ora, ora.

Tem os táxis e os restaurantes mais caros do Brasil? Tem.

Tem pedintes em cada cruzamento, grades nas portas, janelas, portões?

Mas será que é só isso?

Acho que não! E como é época de listas, há para tudo, elaborei a minha, muito particular, assim como cada um deve montar a sua, abrangendo toda a cidade ou o lugar onde vive. Porque nosso bairro é nossa aldeia, e nossa aldeia é o mundo.

Vamos falar de coisas boas, descobertas súbitas, do aconchego repentino?

Como o pastel de feira, o caldo de cana gelado com limão da feira da Rua Barão de Capanema, às quinta-feiras.

Ou a pitangueira da esquina da Rua Colômbia com a Honduras, em pleno Jardim América.

Uma sessão de cinema no Espaço Unibanco no sábado à tarde, na Rua Augusta.

E o mojito do bar Balcão.

As aulas de história da arte de Rodrigo Naves às terças-feiras de manhã, um oásis no marasmo cultural.

As sessões de chorinho ou samba quarta-feira à noite na autoelétrica do Pereira, Rua João Moura, retirados todos os carros.

A abertura de uma exposição na Pinacoteca. Falar nisso, amanhã haverá uma com assombrosas fotografias de árvores paulistas feitas por Valdir Cruz, que vive em Nova York.

O trem turístico que sai da Estação da Luz e vai a Jundiaí.

Já que falamos em Luz, por que não uma passagem prolongada pelo Museu da Língua Portuguesa?

Ou um concerto na Sala São Paulo, sem igual no Brasil, na América do Sul.

Uma tarde de futebol no meio da semana no estádio do Juventus na Rua Javari.

Uma passagem pelo corredor fresco que significa a Rua Atlântica com árvores talvez centenárias.

Uma fatia de abacaxi, desses de caminhão que fica na esquina?

Ou melancia, esta é a época.

Na Avenida Paulista entre no Masp, olhe um quadro e se vá iluminado, há Degas, Gauguin, Van Gogh, tantos mais.

Ou perder horas escolhendo filme numa locadora como S"Different que só nos oferece clássicos, filmes-cabeça, coisas que nos fizeram sentir bem através dos anos.

A loja Preta Pretinha, na Vila Madalena, com bonecas negras e orientais. Ainda bem que os politicamente corrretos estão quietos, senão vão mudar para "bonecas afro".

Ouvir música e poesia na Casa das Rosas no fim das tardes de sábado.

Marcar um dia para circular pelo ateliê de Maria Bonomi e ouvir o som de gravuras. O mistério é esse, o som de gravuras.

Uma sessão de teatro no Sesc Anchieta. Às quintas-feiras temos Lamartine Babo; nos outros dias, Policarpo Quaresma. Coisas do Antunes.

Um chope do bar do Leo, no centro velho.

O pastel do Mercadão. Qualquer um.

Circular pela Vila Madalena numa noite qualquer, escolher um bar, um lugar, há de tudo.

Conferir os grafitis que Osgemeos produzem.

Circular pela Oscar Freire, ver vitrines, sonhar com a Via Montenapoleone, com a Condotti, com a Rivoli.

Garimpar nos sebos da Rua Teodoro Sampaio, eles estão migrando para essa rua.

Comer Croque Monsieur no La Tartine, mas esperar que o acordeonista chegue.

Não economizar tempo, deixá-lo escorrer, enquanto mergulha nas prateleiras da Cultura ou da Livraria da Vila.

Numa tarde de calor, sentar-se num banco de igreja, deixar-se tomar pelo fresco da atmosfera. A Sé é uma delícia.

Percorrer as ruas de Higienópolis, observar os velhos prédios com apartamentos imensos, símbolos de uma época. Deixar-se envolver pela atmosfera do Bretagne de tão boas recordações.

Busque os edifícios de Artacho Jurado, kitsch puro, maravilhosos, delírios.

Não esquecer o Museu Lasar Segall, fora do circuito, mas perfeito.

Como esquecer que há uma exposição do Andy Warhol na cidade?

A tristeza é pensar que não teremos mais as tiras de Glauco, morto estupidamente.

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