Burman, um olhar humano e social

GRAMADO

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2010 | 00h00

Assim como não acreditam no formato campeonato de filmes para o seu festival, os curadores José Carlos Avellar e Sérgio Sanz apostam em mostras paralelas. Os filmes devem interagir, como tema ou formato de produção, competindo ou em seções paralelas, brasileiros ou latinos. O documentário Ojos Bien Abiertos: Um Viaje por Sudamérica, de Gonzalo Arijón, abriu a competição latina. Foi precedido, na tarde de sábado, pelo argentino Dos Hermanos, de Daniel Burman, fora de concurso.

O longa argentino dialoga com os filmes brasileiros de Jefferson De e Beto Souza pelo tema da família. Conta a história de um casal de irmãos. Após a morte da mãe, a irmã quer vender a casa. Afloram velhos ressentimentos. Burman filma bem (Abraço Partido) e seu tipo de cinema humano, rico em observações sociais, depende muito do ator. Graciela Borges, grande estrela argentina, que filmou com Leopoldo Torre Nilsson nos anos 1960 e renasceu como a matriarca de O Pântano, de Lucrecia Martel, nos anos 2000, é excepcional como essa mulher que passa feito trator sobre o irmão (e todos à sua volta).

O uruguaio Arijón fez o que não deixa de "sua" versão de Ao Sul da Fronteira. Como Oliver Stone, ele viaja pela América boliviana, visitando países cujos presidentes criaram uma frente unida latina (Brasil, Venezuela, Chile, Argentina, Bolívia, Equador). Stone dialogou com a cúpula do poder. Arijón adota o ponto de vista do povo, mesmo que sua câmera acompanhe ora Lula, ora Hugo Chávez, ora Evo Morales. O farol é o livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, que Chávez oferece a Barack Obama no início. A tese: o Sul precisa ser pobre e subdesenvolvido para que o Norte possa ser rico e desenvolvido.

Há algo de "Pachamama", mas Arijón não experimenta a linguagem como Eryk Rocha. É mais direto, ousa menos. Como o documentário de Stone, sua viagem presta-se a certa crítica. Ele toma partido, não acredita na isenção jornalística. Está do lado dos oprimidos. Lula sai chamuscado: sua posse representa para o diretor a esperança de mudança. Um outro mundo é possível. Mas Lula, explica um dirigente comunitário da Amazônia, não é revolucionário. Ele veio do movimento sindical, crê (e se perde) na negociação. Morales e Chávez são revolucionários. A tese é polêmica. O filme tem imagens irrefutáveis como as verdades do livro de Galeano, um clássico da literatura de conscientização na AL.

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