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Burman e sua alegria de filmar no Brasil

Diretor argentino conclui no Rio o longa 'O Mistério da Felicidade'

Luiz Carlos Merten / Rio, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2013 | 02h16

Sexta-feira da semana passada foi um dia especial para o argentino Daniel Burman. O diretor de Abraço Partido e A Sorte em Suas Mãos - em exibição na cidade - terminou de filmar no Rio a parte brasileira (e a filmagem toda) de seu novo longa, uma parceria com a Total Entertainment. Chama-se El Misterio de la Felicidade e esse mistério da felicidade é o enigma que dois amigos se propõem a decifrar. Burman resume o longa: "É sobre dois amigos (argentinos) que regressam ao Brasil por causa de uma aposta que fizeram quando jovens. Ela envolve uma mulher, e foi um prazer imenso filmar com Claudia Ohana."

Os atores argentinos são Guillermo Francella e Fabián Arenillas, pouco conhecidos por aqui - o espectador brasileiro tende a reduzir os astros argentinos a um só, Ricardo Darín -, mas que o diretor garante serem ótimos. Na história, mais que amigos, são sócios. E um dia um deles desaparece. O outro, acompanhado pela mulher, inicia uma busca, mas o casal percebe, lá pelas tantas, que não quer mais encontrá-lo. Por quê? É um filme de amor - mais um do diretor de A Sorte em Suas Mãos -, mas que procura ir além. Transpõe limites, aborda temas como amizade, fidelidade e traição. E não deixa de ter um componente geracional, na linha "o que restou dos nossos sonhos?". A atriz argentina que faz a mulher é Inés Estévez.

Burman adorou trabalhar com a equipe brasileira. "Achei que poderia ter problemas, até por causa da língua, mas foram todos muito eficientes e afetivos." Só isso já poderia fazer com que Burman se sentisse pleno, mas no último dia da filmagem de El Misterio de la Felicidade a equipe ainda cantou Parabéns a Você para ele. Burman, nascido em 1973, havia feito 40 anos no dia anterior, 29 de agosto. 40! Um virgem de 40 anos, o repórter brinca. E acrescenta que, agora que Burman entrou nos 'enta', nunca mais vai sair. Qual é a sensação? "Não sei se tem a ver com idade, mas antes, quando comecei a fazer cinema, tinha muito mais certezas sobre tudo - a arte, a vida, os filmes que queria fazer. Hoje, me indago muito mais. Tenho dúvidas. Acho que isso se chama amadurecer."

É um diretor muito ligado a temas como família, amizade. A condição judaica é essencial, mas Burman não faz filmes para reafirmar sua identidade. "É uma coisa que está muito entranhada em mim. O que há de judaísmo nos meus filmes é uma consciência de ser que me acompanha na vida, mas não preciso chegar nos lugares e dizer 'Olá, sou Daniel, sou judeu'. Nos filmes também é assim." Considerando que a Argentina é um país que possui um componente antissemita - Burman participou com um episódio do filme coletivo 18-J, sobre o ataque a uma sinagoga de Buenos Aires -, ele diz que pode se sentir privilegiado. "Nunca fizeram com que me sentisse diferente." Mas Burman concorda que a questão 'judia' está no centro de A Sorte em Suas Mãos. O judeu ligado em jogo busca um rabino para legitimar sua preferência pelos jogos de azar. Isso é tão importante quanto a história de amor ou a decisão do protagonista de fazer vasectomia.

É um recurso dramatúrgico que Burman não pretende aplicar em sua vida. Ele adora a prole - trouxe os filhos para comemorar o aniversário com ele. Na manhã do dia seguinte, passeou na praia com a caçula. A vida lhe parece boa. Faz os filmes que quer, as histórias que deseja contar. Precisa vestir o terno e provar que é um sujeito confiável, mas não tem tido muitas dificuldades para obter financiamento. Até os críticos lhe são simpáticos, quando não francamente elogioso. Sua fama é de 'Woody Allen latino-americano', mas ele não a leva muito a sério, e não porque não aprecie o humor sofisticado de Woody. É verdade que A Sorte em Suas Mãos colheu algumas críticas negativas no Brasil - a Jorge Drexler, que faz o protagonista, principalmente. Cantor e compositor - ganhou o Oscar da categoria com a canção de Diários de Motocicleta, de Walter Salles -, ele não seria, ou não é, um ator e o filme se ressente disso.

Foi o que andaram escrevendo, mas Burman se permite discordar. "Certas reticências que tenho visto em relação a Jorge são, na verdade, elogios, pelo menos para mim. As pessoas falam dos defeitos do ator, mas são defeitos do personagem, de seu comportamento, que Jorge cria muito bem."

Atores - está aí um assunto que encanta Burman. "É a parte mais criativa do cinema. Para mim, o filme se faz com os atores. Há muito antes e depois, o roteiro, a montagem. Mas o melhor de tudo é o set, quando vejo os personagens se construírem na interpretação dos atores." Não poupa elogios a Daniel Hendler, com quem fez alguns de seus filmes mais apreciados - e Abraço Partido ganhou o Urso de Prata em Berlim. "Daniel é um amigo. E, quando trabalhamos juntos, ele sempre traz uma contribuição importante para o desenho dos personagens."

Os atores de A Sorte em Suas Mãos são 'estupendos', uma palavra que os argentinos adoram usar. Tem o mesmo significado que assombroso, maravilhoso, em português. Jorge Drexler, Valeria Bertucelli e Norma Aleandro. Norma é uma diva. Cria sua personagem no limite. Humana, mas com uma imagem maior que a vida. O repórter elogia a cena em que ela se despe da sua aura para contar à filha como amou o pai da garota - e por que as coisas não deram certo entre eles. "É uma cena que precisa da persona de Norma. Não é qualquer uma que pode dizer aquilo, fazendo com que o espectador entre na onda e acredite. Até nisso tenho tido sorte. Em Dois Irmãos, tinha Graciela (Borges), que também é extraordinária. Sem os atores, meu cinema não seria nada."

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