Perc Pan/Divulgação
Perc Pan/Divulgação

Buraka, Kuduro... não se assuste, a mistura é boa

Grupo encerra o Percpan na quinta em São Paulo, fazendo fusões com Angola

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2010 | 00h00

Os nomes são sugestivos. No vaivém das relações da música africana com o mundo que se rende a ela, chega de Portugal o grupo Buraka Som Sistema, fazendo uma experiência progressista sobre um ritmo originário da periferia de Luanda (Angola), o kuduro. Depois de se apresentar no Rio amanhã, o Buraka encerra em São Paulo, na Via Funchal, a 17.ª edição do Percpan - Panorama Percussivo Mundial.

Como frisou o baterista João Barone em Salvador, a música africana vive um novo grande momento nos centros musicais do planeta. A veterana Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou - incensada por críticos como Jon Pareles, do New York Times - vai lançar outro álbum depois de 20 anos sem gravar, ressurgindo da poeira do tempo como uma espécie de Buena Vista Social Club, com novos integrantes.

A superbanda de Benin fez um show explosivo no Percpan, fundindo ritmos tradicionais com funk, afrobeat, soul e levadas latinas. Os americanos do Hypnotic Brass Ensemble e os peruanos do Novalima não fizeram por menos, ambos invertendo o caminho de volta à África. É significativo o Percpan encerrar esta edição com outra mistura de linguagens rítmicas dançantes com base nas matrizes africanas. O transe eletrônico do Buraka é uma bombástica síntese do intercâmbio entre três continentes representados numa das noites do festival em Salvador e no Rio.

Sem fronteiras. A banda foi criada em Buraca no distrito de Amadora (subúrbio de Lisboa), onde vivem muitos angolanos. A anglo-singalesa MIA, os curitibanos do Bonde do Rolê, a carioca Deize Tigrona e o americano Diplo, entre outros, são alguns de seus colaboradores/admiradores. É interessante como funk carioca, soca, dub. tecno e progressive house são casados com o ritmo angolano no som da banda, gerando o que eles chamam de "eletrônico kuduro progressivo", com uma sonoridade que não delimita fronteiras.

"Esses gêneros têm em comum o ritmo. Há desvios para essas latitudes, mas está tudo muito ligado às levadas africanas. Esta é a razão para estarmos a olhar para o funk, o coupe decale, da Costa do Marfim, assim como ritmos vindos de Londres, Paris, seja de onde for", diz o MC Kalaf. "Há sempre uma vontade procurar o que é novo, fresco. E o baile funk, a uma certa altura, nos foi novo. Nem tenho uma noção claríssima de quem é quem no funk, mas o encontro com o Bonde do Rolê, como outras colaborações que tivemos, como com MIA, aconteceu de forma orgânica, facilitada pela admiração mútua."

O quarteto de Curitiba não é bem representativo da raiz do funk carioca, assim como o Buraka não vem do berço do kuduro. Seu primeiro grande hit, Yah!, de 2006. Em 2008, o grupo lançou Black Diamond, com todas as colaborações citadas acima, e está em fase de elaboração do novo álbum. "Quando lançamos o EP em 2006 foi para tocar num clube pequeno em Lisboa, onde cabiam no máximo 150 pessoas", lembra Kalaf. "Saímos do clube com um relativo sucesso e a partir daí a coisa foi ganhando outros contornos. Já tínhamos mais responsabilidade, público maior, isso era um incentivo para fazermos música, porque um EP não era suficiente para ter uma hora de show."

Em quatro anos, a banda conquistou público e crítica respeitáveis no Hemisfério Norte, justificando com o resultado de Black Diamond a atenção toda que vinham tendo. "Acho uma pena que tudo o que fizemos até agora não tenha ecoado no Brasil e em toda a América Latina, com exceção do México, já que hoje está tudo tão fácil na internet. Faltava chegarmos aqui e fazer uma introdução à nossa música."

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