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Buracos negros e pandemias

Coisas distantes têm a nitidez às vezes aterradora, que conduz a novos significados

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2020 | 03h00

Um antropólogo que muito influiu na antropologia evolucionista – Leslie Alva White – sugeriu que a observação sistemática, capaz de ultrapassar o senso comum, revelando regularidades além dos afetos e das sensibilidades, nasceu da observação do céu estralado. 

O céu noturno, com o seu profundo azul escuro e aveludado, coalhado de pontos luminosos grandes e minúsculos cujo movimento é regular e periódico, foi o início da saga científica. Se me lembro bem do argumento, lido faz tempo e aqui recordado com carinho e dívida, o mais distante teria o pendor de despertar curiosidade, transformando o poeta, ou os enamorados, em observadores imparciais. Enquanto muitos viam no céu estrelado a projeção de seus sentimentos, alguns o enxergaram como um mapa passível de mensuração e previsão. 

Realmente, as coisas distantes têm a nitidez às vezes aterradora, que conduz a novos significados das coisas familiares. A visão do longínquo inibe os afetos e permite que o deslumbramento do poeta ou o horror do sacerdote vire a sistemática e objetiva observação do cientista. Daquele que descobre o porquê tal ou qual coisa produz tanta emoção. 

Uma propriedade de um céu estrelado é a regularidade da movimentação dos seus astros. Um caminho independente dos transitórios eventos humanos. Um reino ou império terminava, mas Sol e Lua nasciam e morriam na mesma hora. A dialética entre a inexorabilidade daquilo que seria o eterno e o periódico foi a fagulha – se é que eu interpreto bem o argumento de Leslie White – para a transição da astrologia para a astronomia e desta para os códigos e axiomas da matemática celeste e da astrofísica. 

O processo de redução e autonomia relativa dos saberes ocorrido como rotina no Ocidente e, como diria Max Weber, somente nele, promoveu o nascimento dos telescópios liquidando o etnocentrismo geocêntrico. Deus Pai Criador do céu e da terra deu lugar a um conjunto de teorias de tal forma transformadoras que, exceto em termos religiosos, hoje ninguém mais supõe ter sido o mundo criado em sete dias. Os dois sistemas correm em paralelo, mas têm pontos insuspeitos de encontro neste século 21.

Pois, ao lado de certezas e imensas façanhas como a de pisar na Lua, observo a insegurança com a pandemia que veio para deixar rastro e engendrar um novo normal. 

Não é, pois, um mero acaso, a premiação com o Prêmio Nobel de pesquisadoras e pesquisadores que estudaram o paradoxo astronômico do “buraco negro”. Não o buraco negro de Calcutá, tão temido e cruel – uma prisão da qual ninguém saía vivo, mas as covas sem fundo que permeiam o universo e estão no centro da nossa galáxia. 

Num passeio pelo assunto, descobri que os astrofísicos se distinguem dos filósofos, dos humanistas e dos cientistas sociais porque eles falam matematicamente. A cada sentença que explica um buraco negro, esbarra-se numa fórmula criada pela Física – a mãe, sem dúvida, da tecnologia. A experiência das fórmulas misteriosas remeteu-me aos amigos matemáticos que não conseguiam explicar os seus objetos de trabalho. Mas, quando eu falava das minhas pesquisas sobre a sociologia indígena ou do Brasil, eles não apenas entendiam, mas tinham opinião e palpite. Não deve ser por acaso que o Nobel começa pela Física e termina na Economia, passando pela Literatura e por uma “Paz” tão difícil de ser alcançada. 

Buracos negros sustentam teorias e, paradoxalmente, levantam suspeita, pois atraem tudo. São sanguessugas do universo e, para alguns, subvertem o contínuo tempo-espaço. Não ousaria ir além disso, mas sua inusitada natureza reversa me arrebata para o mistério do desaparecer e para a inexorável sucção gravitacional da qual ninguém escapa: uma singularidade chamada morte.

Por isso, reitero que o Nobel para quem estuda “buracos negros” está ligado a esses tempos de pandemia – esse buraco negro epidêmico que nos enlouquece pela sua ausência de intencionalidade.

Meu lado freudiano pergunta se o buraco negro seria um equivalente do inconsciente (aquilo que tem enorme “massa”, mas é obscuro) do universo. 

Como saber? Sugiro que pandemias e buracos negros têm parentesco. Um laço forte e implícito com o nosso mundo embruacado por um consumismo capitalista destrutivo, cego e incontrolável. 

É HISTORIADOR E ANTROPÓLOGO SOCIAL, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’ 

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