Christina Jaspars/Divulgação
Christina Jaspars/Divulgação

Buena Vista Social Mali

Nick Gold fala do projeto que unirá agora cubanos e músicos malineses

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

O acaso sempre participou como convidado especial em grandes discos. Sonny Rollins encontrou Coltrane a caminho do estúdio para a gravação de seu Tenor Madness. O jovem guitarrista Al Kooper atacou de pianista quando Dylan gravava Like a Rolling Stone, e fez um dos riffs mais memoráveis de todos os tempos.

O fenômeno cubano Buena Vista Social Club não foi exceção. Gravado às pressas, o disco que tirou bambas cubanos da aposentadoria musical e tornou-se o maior fenômeno de world music de todos os tempos foi bolado para tapar um buraco de produção.

A ideia inicial - batizada de Afrocubism - era reunir as natas musicais de Cuba e Mali, músicos como Eliades Ochoa e Bassekou Kouyate, para um diálogo intercontinental. Mas os vistos não saíram a tempo e os produtores Nick Gold e Juan de Marcos Gonzáles tiveram de se virar. Um Rubén Gonzáles daqui, um Cachaito dali, Compay Segundo e Ibrahim Ferrer de acolá. O resto é história.

 

 

 

 

 

Vídeo videoVeja trechos do documentário Afrocubism    

 

 

 

 

Afrocubism, no entanto, ficou cozinhando na cabeça de Gold, dono da influente gravadora de world music World Circuit, até que 13 anos depois, o produtor reuniu os músicos originais - e outras feras malinesas - para gravá-lo. Gold falou ao Estado sobre o disco (veja uma prévia no endereço myspace.com/afrocubism), que será lançado em outubro na Europa e nos EUA.

Qual era a proposta original das gravações?

Uma colaboração entre a música de Eliades Ochoa, que é de Santiago, no Leste de Cuba, e as composições de músicos malineses.

Há semelhanças entre a música dos dois países?

Se você for ao Mali ou ao Senegal, escutará muita música cubana. O estilo é bem popular por lá desde os anos 40 e muitos dos músicos são familiares com o son, a rumba e outros ritmos. Fazem a própria versão deles para as canções cubanas. Portanto, me parecia natural juntar as duas escolas.

O que aconteceu?

Os passaportes dos malineses foram parar em Burkina Faso para tirar o visto cubano e não voltaram a tempo. Então, tivemos de reorganizar tudo. Já havíamos agendado o estúdio e uma semana antes havíamos gravado o disco Afro Cuban All Stars, liderado por Juan de Marcos Gonzáles, com grandes músicos da velha guarda cubana. Quando percebemos que os africanos não viriam, juntamos a base do Afro Cuban com Compay, Ibrahim e companhia.

Como foi o clima da gravação?

No primeiro dia já dava para sentir que tínhamos um grande disco no forno, mas ninguém poderia imaginar o sucesso que viria.

Esse sucesso ocorreu por causa da química entre os músicos?

Bom, parte do sucesso foi por causa da música. Mas isso não basta para alcançar aquele nível de sucesso. Nós nos beneficiamos do grande interesse que havia pela música cubana na época - isso em parte por causa do embargo, mas também por causa da história dos músicos. Depois veio a turnê e o documentário do Wim Wenders, que capturaram a imaginação de muito gente. Mas houve também uma boa ajuda do governo. A União Soviética havia se separado e Cuba estava procurando outras fontes de renda e investindo em turismo.

Os malineses de Afrocubism carecem da exposição que os cubanos conseguiram?

Há sempre músicos que merecem mais atenção, mas não é o caso nesse disco.

A World Circuit é uma das mais importantes gravadoras de world music. O termo incomoda?

Um pouco. De certa maneira, foi muito útil no início, pois não havia espaço para esse tipo de música em lojas ou jornais. Os músicos pareciam precisar de uma categoria. Mas, ao longo dos anos, isso criou uma maneira marginalizada de ver as coisas e virou um problema. Toda a sua música, a música brasileira, se tornou parte de uma pequenina categoria musical - embora eu imagine que no Brasil os músicos não pensem assim.

 

 

 

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