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Buena Vista segue vivo na voz de Omara Portuondo

Últimos concertos em Havana comprovaram que a aclamada cantora é mais invencível que a Revolução

Lawrence Downes THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2016 | 04h00

“A revolução é invencível”, está escrito nos muros pintados ao longo das ruas de Havana, como se pudessem afastar a dúvida insistindo nessa tecla.

Mas quem é realmente invencível em Cuba é Omara Portuondo, a velha diva do Buena Vista Social Club, aos 85 anos em seu vestido vermelho, improvisando e dançando no palco, mostrando a uma plateia ruidosa que envelhecer e morrer não são sua preocupação.

Ela é a mesma cantora cujo rosto adorna os LPs da era de Batista vendidos a turistas na Plaza de Armas em Havana. Ela ainda está aqui e ainda é capaz de levar o teatro inteiro a saltar e dançar ao som do Besame Mucho e Quizas, Quizas, Quizas, com um simples movimentar dos braços.

Omara, uma lenda para os cubanos, foi membro original do fenômeno conhecido como Buena Vista Social Clube. Nos últimos dois anos ela e seus companheiros do grupo que ainda estão vivos, Barbarito Torres, Eliades Ochoa e Guajiro Mirabel, têm viajado com uma nova versão do antigo grupo, a Orquestra Buena Vista Social Club. Eles chamam sua turnê de Adiós Tour, que se encerrou em meados de maio no Teatro Karl Marx, em Havana.

Os membros do grupo já eram idosos há duas décadas, quando o mundo os descobriu pela primeira vez. Tempo e memória pareciam ter levado os músicos ao esquecimento quando Ry Cooder e o produtor musical britânico Nick Gold os reuniram em 1996 para produzir um disco. A coleção de música de dança cubana antiga, dos anos 30, 40 e 50, interpretada por um grupo improvisado de músicos da ilha ficou tão popular que resultou numa turnê mundial, alguns Grammys, um concerto no Carnegie Hall, um filme e gravações e turnês posteriores: um fenômeno mais fácil de saborear do que explicar.

Nos concertos no teatro Karl Marx, fotos tiradas de álbuns dos membros da banda que já partiram eram exibidas num telão atrás dos músicos e deram um toque de melancolia ao evento. Mas os artistas da linha de frente ainda vivos, acompanhados por jovens com idade para ser seus netos, mostraram como a morte pode se tornar irrelevante no que se refere à música.

Mas foi difícil evitar a sensação de perda iminente. O mesmo podemos dizer de um país para o qual o Buena Vista Social Club se tornou um bem cultural de exportação importante. Na era dos presidentes Obama e Raúl Casto, as relações normalizadas trouxeram novas preocupações. Quando os americanos chegarem, quando os navios de cruzeiro tomarem conta do porto de Havana, quando décadas de hostilidade forem substituídas por um abraço caloroso, e então? Independente do que isso vai pesar na infraestrutura, como a nova invasão de turistas afetará a alma cubana?

Ninguém pode falar pelos cubanos, mas imagino que muitos dirão que sua alma nacional continuará ótima, não só por causa da saúde vibrante da sua música. O grande número de hipsters, jovens pais e filhos dançando nos saguões do teatro deixaram isto muito claro: o Buena Vista Social Clube não é exatamente um espetáculo para velhinhos. Omara Portuondo partirá para uma nova turnê no começo do segundo semestre. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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