Buena eternidade

Omara Portuondo fala de apresentação com time de bambas

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2012 | 03h10

O rapaz deixou uma mensagem na página do Facebook do Buena Vista Social Club: "Omara, minha rainha: viajo esta noite desde o Caribe colombiano, mil e oitocentos quilômetros até Bogotá, para desfrutar na sexta ao Buena Vista Social Club. Estou disposto a seguir te procurando como um homem busca a uma deusa. Que o Grande Arquiteto do Universo te conserve muito mais ainda".

A cantora Omara Portuondo, 81 anos, sobrevivente e ponta de lança do combo cubano Buena Vista Social Club, dá uma gargalhada divertida com o assanhamento. "Há cada vez mais interesse em conhecer o filín", ela diz, falando por telefone ao Estado de Havana. "E nós temos cada vez mais alegria e saúde para cantá-lo. Estou com 80 anos, mas sinto como se tivesse 20 anos."

"Filín" (do inglês feeling, sentimento) é como foi batizado o estilo que Omara globalizou a partir dos anos 40, misturando técnica dos crooners de jazz com bolero e raízes cubanas. É o que ela traz mais uma vez na bagagem na próxima semana com a Orquestra Buena Vista a São Paulo, no dia 20, no Bourbon Street - 14 anos após dominarem o planeta com a excursão que terminou em um show memorável no Carnegie Hall de Nova York (e com o filme de Wim Wenders).

Não só o filín, mas a rumba, o son, o bolero, o mambo, o chá-chá-chá. Omara Portuondo domina o ritmo. Ela começou cantando com o Cuarteto D'Aida quando tinha apenas 15 anos. Era muito influenciada pelos ritmos afro-cubanos, mas também pelo jazz e pela música clássica. "Quando eu era menina, não tinha eletricidade em casa, então a gente ouvia rádio de pilha. Costumavam transmitir concertos do Carnegie Hall pelo rádio, e a gente pegava isso em Cuba. Eu me lembro de ter ouvido uma cantora extraordinária chamada Marian Anderson. Quando estive no Carnegie Hall com o Buena Vista, vi uma foto dela lá, era uma negra estupenda", lembra.

A Orquestra Buena Vista que vem ao Brasil agora é muito diferente daquela que veio no seu auge, nos anos 1990. Morreram Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Rubén González, Pío Leyva, Puntillita. "Sim, é triste cantar sem eles por perto. Porém, eles vão com a gente eternamente. Sempre cantamos as músicas que eles gostavam. Os músicos que estão agora no Buena Vista também são excelentes e trazem para o palco outros ciclos, outras épocas. São muito talentosos. De todos, sinto muita falta de Ibrahim, era o mais carinhoso. Por mim, eu o teria por toda a vida ao meu lado, mas não é possível. Ainda assim, eu os levo comigo todas as noites para o palco", diz a cantora.

O disco Buena Vista Social Club, gravado em Havana em apenas 6 dias, em 1996, que ganhou o Grammy (e vendeu cerca de 8 milhões de exemplares mundo afora, tornando-se o disco de música cubana mais vendido do planeta). A proposição de seus mentores, o guitarrista norte-americano Ry Cooder e o cubano Juan de Marcos González.

Omara segue incansável em seu papel de embaixadora da música cubana. Em 2008, o álbum Gracias, de Omara, produzido pelo brasileiro Swami Jr, ganhou o Grammy latino e a levou a tocar no Town Hall de Nova York. Gravou com Maria Bethânia, que sempre admirou. "Nosso trabalho juntas foi fantástico, é sempre maravilhoso o encontro com a música brasileira, sua riqueza e suas linhas melódicas. Eu agora estou louca para cantar Marambaia", ela disse.

No ano passado, ela gravou o elogiado álbum Omara & Chucho e excursionou com o pianista Chucho Valdés, outro gigante da Ilha. "Conheço Chucho desde que era um menino e andava atrás do pai dele, Bebo", ela conta. Já profissionalmente, a primeira vez que Omara e Chucho se encontraram foi no antigo Tropicana cubano, cabaré dos anos 1940, ela como dançarina e cantora e ele como instrumentista. Em 1997, juntaram-se para gravar um disco pela primeira vez, o álbum Desafio. "Fizemos uma turnê maravilhosa no ano passado, estivemos até no Japão, tocamos coisas cubanas, standards. É um grande amigo."

Filha de negro e branca, mãe espanhola que a incentivou na carreira artística, Omara foi enormemente influenciada pela cubana María Teresa Vera (1895- 1965). "Em muitos lugares do planeta, nós tivemos escravos. Meus antepassados foram escravos em Cuba, e eu carrego essa tradição, assim como vocês no Brasil. Nós temos nossos carnavais, as raízes de nossas culturas são semelhantes, o ioruba, os cantos de Iemanjá. Eu gosto disso tudo, das melodias, das harmonias, das cantigas de amor."

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