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Budos Band toca neste final de semana em São Paulo

Jared Tankel, da suingada banda, fala sobre Black Sabbath, Etiópia e outras influências

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2012 | 03h08

Ao contrário do que se espera, hoje em dia, de uma congregação de barbudos munidos de baquetas, guitarras e instrumentos de sopro, a Budos Band não é uma orquestra de afrobeat. Esta já foi sua bandeira, quando o grupo surgiu, na metade da década passada, em meio ao revival de soul music liderado pela gravadora Daptone, e ao sucesso da Antibalas Afrobeat Orchestra (esta, sim, como diz o nome, discípula de Fela Kuti). Mas o approach da Budos, que toca nesta sexta-feira, 24, e sábado, 25, no Sesc Pompeia, viajou muito além do Níger e dos grooves do Oeste Africano depois do disco de estreia, e a transformou em uma das poucas bandas híbridas que botam para bailar com distinção. "Não nos consideramos uma banda de afrobeat. Começamos o trabalho dentro dessa linguagem, mas as coisas evoluíram. Entre o primeiro e o segundo discos, ouvimos muito jazz etíope. Ouvimos uma pilha de compilações de bandas africanas dos anos 70 que estavam sendo relançadas por selos franceses (vide os relançamentos do selo Buda Musique)", conta o sax barítono Jared Tankel. "Isso abriu novas portas para nós. Seguimos nessa direção e lá ficamos no segundo e no terceiro disco", completa.

A direção a que Jared se refere é Leste. Leste ao delta do Nilo, terra do etíope Mulatu Astatke, que adaptou melodias regionais a harmonias modais, estáticas, para criar o ethio-jazz. A característica hipnótica do ethio - em que melodias se esticam como serpentes encantadas e induzem o ouvinte a um transe semelhante a uma viagem de haxixe - fundiu-se ao afrofunk já praticado e a uma tendência intuitiva em direção ao heavy-metal.

"O metal é um caminho muito claro para nós. Não somos uma banda de rock. Sempre teremos os nossos instrumentos de sopro, o que nos impede de enveredar totalmente, mas o peso da guitarra e do baixo pendem, certamente, nessa direção", conta Jared, antes de revelar que a Budos já chegou a tentar covers de Black Sabbath: "Nós tentamos, sim. Mas não deu certo. Como imitaríamos a voz de Ozzy com um instrumento de sopro? Ficaria besta. Nós amamos o Black Sabbath, mas não tem como nós o replicarmos - o que por um lado é bom, pois mantemos nossa identidade."

O resultado é o suingue escuro da Budos, peçonhento como os animais que costumam figurar nas capas da banda (um escorpião e uma naja são retratados nos dois últimos discos, The Budos Band II e III).

Ao contrário do que nos acostumamos a ouvir de bandas de funk, o grupo aprimorou uma pegada mais nervosa do que sensual. Afiados pelo naipe de sopros e pelas guitarras, os grooves soam mais imponentes do que de praxe e a Budos se equilibra com elegância entre dois abismos de mesmice: de um lado, as centenas de bandas retrô que ressuscitam a música negra instrumental - o jazz funk - dos anos 70; do outro, o mar de grupos de rock que tocam funk com guitarras distorcidas e batidas explícitas, como faz, por exemplo, o Nação Zumbi, desde que Chico Science se foi.

É um terreno traiçoeiro a ser trilhado, e funciona bem, em grande parte porque a Budos é extremamente econômica em seus arranjos, e parece nunca se esquecer de que os elementos negativos - silêncio e espaço - são fundamentais para o quadro sonoro. "Somos dez, o que nos obriga a ficar sempre atentos a excessos em nossa mistura", explica Jared.

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