Budismo tibetano dá 'refúgio' a seguidores no sul do país

O leve tom debossa nova é inevitável no começo, quando as vozes aindatreinam para recitar mantras milenares. A meditação domina odia, mas aguarda se houver futebol. A doutrina é do budismotibetano, e o cenário, o Brasil. Na serra gaúcha, a 72 quilômetros de Porto Alegre e a maisde 16 mil quilômetros de Lhasa, a capital do Tibete, fica ocentro budista Chagdud Gonpa Khadro Ling --nome que quer dizer"local sagrado dos dançarinos do céu". Ali, brasileiros e estrangeiros vivem juntos desde 1994 epraticam a religião surgida na Índia há cerca de 2.600 anos. No topo de uma montanha muitas vezes coberta de neblina, osbudistas tibetanos -- que somam cerca de 200 no Brasil, segundoo Censo de 2000 -- contam com o único palácio na América Latinadedicado ao guru Rinpoche Padmasambhava, que fixou a religiãono Tibete no século 8. Em meio a estátuas, templos e palácios coloridos, cerca de60 habitantes vivem na disciplinada rotina da doutrina budista,com orações no início e no fim do dia em nome da compaixão e dobem-estar da humanidade. Longas meditações e meses em completoretiro também são necessários no centro religioso. O divertimento dos moradores, muitos dos quais beminstruídos e originários da classe média, vem com leitura,filmes, música e esportes, principalmente o futebol. Mas semdeixar o budismo em segundo plano. VOCAÇÃO BRASILEIRA Para os líderes do budismo tibetano Vajraiana que vivemali, os brasileiros têm vocação para a fé, seja qual for areligião que escolhem, motivo que pesou para Chagdud TulkuRinpoche (1930-2002) construir no país, com ajuda de muitasdoações, o segundo centro budista dessa linhagem em todo oOcidente. O outro fica na Califórnia norte-americana. "Os brasileiros são mais persistentes e têm umareceptividade muito forte quando se conectam com um mestre comoo Rinpoche", disse à Reuters a diretora espiritual do centro,Chagdud Khadro, viúva do falecido líder Chagdud Tulku Rinpoche,exilado do Tibete desde a invasão da China. "Nos Estados Unidos, por exemplo, o questionamento à fé émais pesado", acrescentou ela, que trabalhava como repórter atéconhecer o líder religioso, em 1979. Além da persistência, o toque nacional também aparece navoz quase cantada, que dificulta para recitar mantras guturais,segundo a artista plástica e cantora Patrícia Henna, 35, quepassou um mês no centro. "O canto macio, com voz branca, é natural dos brasileiros",afirmou. "O som dos tibetanos é diferente, gutural, com maisprojeção de peito, como a que fazem no heavy metal. Também temmuitos vibratos, aquelas escalinhas de notas no final de cadafrase cantada. Isso é difícil para uma voz não treinada", diz. PAZ NO CAMPO Assim como Patrícia, que veio de São Paulo em busca de pazde espírito no centro gaúcho, outros habitantes dali tambémprocuraram o lugar porque desejavam trocar as agitadas capitaisbrasileiras para reforçar sua conexão com o budismo. O acesso ao centro é livre, mas para viver ali é preciso umconvite dos líderes. A paulistana Ana Paula Gouveia, 37, trabalhou comfotografia, teatro e cinema, fez mestrado e doutorado, mas dizque não perdeu nada ao trocar a metrópole pelo centro budista. "Aqui eu sinto uma tranquilidade enorme, é muito melhor doque viver correndo em São Paulo", afirmou. "Quando vi oRinpoche no Brasil, senti que era isto aqui que eu queria." Essa conexão foi a mesma que Eduardo Simões, 40, um dosprimeiros brasileiros chamados para morar no centro budista, há11 anos, sentiu. Ao contrário de muitos dos habitantes dali, oex-mecânico não tem curso superior nem fala inglês comfluência. Torcedor do Internacional, comemorou quase sozinho o títulodo Mundial de Clubes da Fifa de 2006, com a vitória por 1 x 0sobre o Barcelona, enquanto metade do Estado ia às ruas. "Foi curioso, eu feliz aqui na frente da televisão e estavaaquele silêncio todo", diverte-se. Uma colega dele conta que nas Copas do Mundo todo o centrobudista pára e vê as partidas da seleção brasileira. "Na última Copa o narrador de uma rádio daqui falou que oBrasil todo estava ligado no jogo, menos o centro budista. Eaqui estava todo mundo acompanhando", disse ela, inconformada. A expectativa do centro no momento não é com o futebol, massim com o Drubtchen, uma ocasião propícia para "tomar refúgio"--correspondente ao batismo católico-- entre os dias 22 e 30.Os habitantes nada pagam para participar, mas os turistasdesembolsam até 1.125 reais por um pacote completo.

MAURÍCIO SAVARESE, REUTERS

12 de setembro de 2007 | 17h22

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