Bryan Ferry, o bisturi certeiro

POP

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h00

Em 1986, no meio do Clube da Esquina, em Londrina, eu admiti que gostava de Slave to Love, de Bryan Ferry, e a garota riu de se acabar. "Bryan Ferry é muito brega!", ela disse. O trauma atravessou os anos, e só era superado quando eu confessava que gostava MUITO de Roberto Carlos.

Esta semana, quando Olympia, o novo álbum de Bryan Ferry desembarcou na minha mesa, hesitei: talvez fosse melhor manter certas predileções guardadas na última gaveta da cômoda. Mas foi só colocar uma faixa aleatória para tocar que me lembrei precisamente porque adoro a carreira solo do Bryan: é um sortimento de prazeres efêmeros (a última frase do sermão dominical, a reprise do filme com a Valerie Kaprisky, o cheiro do expresso, o perfume que escapa da bolsa que ela a abre para pegar o cigarro). A faixa que ouvi era Reason or Rhyme. Sim, é um som hedonista, cheio de sussurros moteleiros, e se prestou a trilha sonora do yuppismo, mas esse cara é um cirurgião musical,

"Nada é real, nada é verdadeiro/Gostaria de dizer a mesma coisa sobre você", canta Bryan, na pianística Me Oh My, que tem o auxílio luxuoso da guitarra de David Gilmour (do Pink Floyd) e do sintetizador de Brian Eno, ex-colega de Roxy Music. O glitter descarado vai se acentuando até a ultradançável Shameless, com baixo de Andy Cato, do Groove Armada, e armadilhas de sereia de Shar White nos corinhos. Garotas bonitas vão sendo distribuídas estrategicamente pelo álbum, começando com Kate Moss no ensaio da capa, culminando com a modelo Tallulah Harlech (protegée de Lagerfeld) no vocal de Song to the Siren.

Se a banda é inacreditável (Nile Rodgers na guitarra, Marcus Miller no baixo), a lista de convidados é covardia: o baixista Mani Mounfield, do Primal Scream, participa da faixa de abertura, You Can Dance, com o baixista Flea, do Red Hot Chili Peppers. O disco termina com Tender is the Night (título homônimo do livro Suave é a Noite, de F. Scott Fitzgerald), sob o piano quente de Steve Nieve, parceiro de Elvis Costello. Está claro agora: o desavergonhado pacto que Bryan Ferry propôs, nos anos 1980, já estava assinado por todos nós desde que nascemos.

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Artistas: David Bowie. Álbum: Modern Love (1983). Gravadora: Virgin Records. Preço médio: R$ 25

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