Bruxa à solta no show biz

Shows cancelados, encalhe de ingressos, festivais que desaparecem: é crise?

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2012 | 02h08

Cancelamento do show da cantora Fiona Apple. Cancelamento do set de will.i.am na abertura de Madonna. Cancelamento do show do Sublime with Rome. Cancelamento do concerto do Coldplay, três dias após o anúncio da turnê.

Lady Gaga vendendo apenas metade dos ingressos disponíveis para seus shows no Brasil. E, mais recentemente, um baque no orgulho da Rainha do Pop: Madonna desembarcou ontem no Brasil para a 77ª apresentação da MDNA Tour fazendo uma insólita promoção de entradas - preço do ingresso para seu show caiu pela metade. Em sua última visita, houve filas homéricas e os ingressos tinham se esgotado em 24 horas.

A bruxa anda solta no reino do show biz. Após anos de euforia no setor - e do estabelecimento de três gigantes da área no Brasil, a T4F, a Geo Eventos e a XYZ Live -, o mercado vê um recuo nas pretensões de expansão. Festivais que chegaram a reunir 179 mil pessoas, como o SWU, sumiram da grade de programação do ano (ao Estado, os organizadores garantiram essa semana que deve voltar). Observadores já anteveem uma crise na área.

O primeiro grande show do ano, o de Bob Dylan, em abril, já demonstrava que haveria sinais de fadiga na relação fã-ídolo. No Rio de Janeiro, a casa de espetáculos Citibank Hall, que abrigou o show do cantor, vendia ingressos a até R$ 900. Resultado: o local estava somente com dois terços de sua capacidade ocupados (o ingresso mais barato estava a R$ 500).

No dia 9 de novembro, no Rio de Janeiro, Lady Gaga demonstrou não ser totalmente alienada à situação do show biz. "Eu sei o quanto são caros os ingressos do meu show. Eu agradeço aos que vieram, gastaram seu dinheiro e pagaram esse preço", afirmou a cantora, durante sua apresentação no Parque dos Atletas. O show recebeu cerca de 40 mil pessoas (inicialmente, a empresa promotora esperava 90 mil), público que só foi possível após uma promoção relâmpago que dava direito a comprar um ingresso e levar outro de presente.

Foi na América do Norte que se fizeram sentir os primeiros sintomas de que algo vai mal no reino do show biz. Em julho, o balanço do primeiro semestre de shows nos Estados Unidos e Canadá, divulgado em julho pela publicação Pollstar, ligava o sinal de alerta. Ali, apesar de se detectar que havia um crescimento do faturamento nos shows (de 1,2% sobre o mesmo período do ano anterior), o Pollstar detectara ter havido também queda de 9,4% no preço médio do ingresso (o mais baixo desde 2007).

Ou seja: as empresas norte-americanas de shows já tinham "calibrado" seus preços e aumentado o número de cidades em que seus artistas fariam shows. "A indústria aparenta ter feito alguns ajustes bem-sucedidos, e que melhor refletem as realidades econômicas atuais", analisou Gary Bongiovanni, editor-chefe do site Pollstar. "Colocando de forma simples, os preços dos ingressos baixaram e o tamanho das turnês aumentaram. Para manter os ganhos, muitos artistas estão fazendo mais shows. O Top 100 das turnês na América do Norte mostra um total combinado de 2.822 cidades, o que representa 17,4% acima do número de 2011; foram incluídas 420 novas cidades".

O mercado nacional precisa achar sua própria fórmula de sobrevivência se quiser continuar crescendo - e fazendo a América Latina crescer. O Brasil é responsável por 76% do mercado de shows internacionais, ante 16% da Argentina e 8% do Chile. Para a maior empresa do ramo, a T4F, o ano de 2011 foi de recordes: realizou 396 apresentações de música ao vivo, com mais de 2 milhões de ingressos vendidos (um crescimento de 14% sobre as 348 apresentações e 1,8 milhão de ingressos de 2010). Os números de 2012 não estão fechados, mas não devem repetir o êxito.

A empresa XYZ Live realizou no mês passado o show do Kiss com público razoável (mas não com o Anhembi lotado). O Kiss, há pouco tempo, colocou 40 mil no mesmo local, e agora só reuniu 25 mil pessoas. Mas a empresa está longe de se ressentir de crise: fez uma turnê bem-sucedida de J-Lo (e outra centena de espetáculos) este ano e já possui mais de 100 funcionários e 2 mil colaboradores.

O panorama de inflação nos preços de ingressos já tinha sido apontado em reportagem do Estado em 2008, sob o título Chuva de Cifrões. Levantamento feito pela reportagem, comparando preços de 1998 e 2008, mostrava que os preços dos ingressos para shows internacionais de rock e pop no Brasil tinham explodido nos últimos 10 anos, chegando a ter, em média, um valor quatro vezes superior ao que era praticado em 1998.

O cenário que havia (e que se consolidou em quatro anos), era o seguinte: a situação falimentar da indústria fonográfica gerou uma necessidade de diversificação no mundo da música; empresários migraram para o entretenimento ao vivo, que se constituiu num novo mercado; as antigas gravadoras passaram a usar recursos maciços para promover turnês; e o show passou a ser a principal fonte de renda para o artista, que não vende mais discos (artistas de maior fama, como Lady Gaga e Katy Perry, também emprestam o nome para linhas de perfume e moda).

Para o público, no entanto, nada muda: o que se vê é um cenário de aviltamento do mercado. Há ainda, em especial no Brasil, as condições externas ao concerto complicando tudo. Shows no Morumbi, por exemplo, são palco de abuso de preços de estacionamentos, táxis, alimentação, segurança. O fã acaba desanimando.

Há ainda uma teoria generalizada de que a chegada do gigante Lollapalooza, festival norte-americano que se instalou no ano passado no Brasil, fez minguar o cardápio de artistas para festivais menores, como o Planeta Terra. Sintoma da livre concorrência, isso pode levar a uma "atrofia" dos pequenos no País, limitados a um leque de artistas "menores", segundo disse ao Estado um produtor que não quis se identificar. Por outro lado, também pode obrigar ao uso da imaginação na escalação de bandas - em vez de escolher o hype, produtores darão mais atenção à qualidade e investirão em nomes que não são consagrados, mas podem surpreender.

Claro que nem todos os cancelamentos de shows no Brasil este ano se devem a um recuo em relação às condições dos shows na América Latina. A cantora Fiona Apple não veio por causa de sua cadela Janet, de 13 anos, que estava em estado terminal. "Não posso ir à América do Sul. Não agora", escreveu Fiona em seu blog. No mês passado, ela se apresentaria em Porto Alegre (dia 27), São Paulo (dia 29) e Rio de Janeiro (dia 30).

O grupo britânico Coldplay chegou a anunciar seu retorno ao Brasil para o próximo ano, com dois shows (no Estádio do Morumbi, São Paulo, e no Estádio do Zequinha, Porto Alegre), parte da divulgação do disco Mylo Xyloto. Três dias após esse anúncio, o grupo britânico cancelou sua turnê latino-americana, alegando problemas internos no grupo e informando que ficará 3 anos sem excursionar. "Com muitíssimo pesar, nos vemos forçados a postergar nossa turnê recém-anunciada devido a circunstâncias imprevistas", disse comunicado da banda.

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