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Brumadinho também é Mariana

Quatro dias antes de Brumadinho ser coberta pela lama da Vale, voltou ao cartaz pela quarta vez a peça 'Hotel Mariana'

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2019 | 02h00

Nenhuma tragédia é igual a outra, cada tragédia é desgraçada a sua maneira. Brumadinho é irmã de Mariana nos fatos: as mortes, o estouro da barragem. Mas cada vida é única, assim como a dor da perda. Cada morte, um abismo. Quatro dias antes de Brumadinho ser coberta pela lama da Vale, voltou ao cartaz pela quarta vez a peça Hotel Mariana na Oficina Cultural Oswald de Andrade. Repito, pela quarta vez. A importância fato está no interesse das pessoas em ouvir sobre as histórias de vida e morte dos moradores de Mariana, onde a barragem de Fundão rompeu-se em novembro de 2015, matando 18 pessoas. Agora, a quinta temporada está sendo viabilizada e a peça vai virar filme.

VERBATIM X LAMA 

Para fazer a dramaturgia de Hotel Mariana o ator e dramaturgo Munir Pedrosa foi à cidade mineira dias depois da tragédia, em 2015. Utilizou-se de uma técnica chamada verbatim, ligada ao teatro documental, que teria sido criado na Europa Oriental em meados dos anos 20. Empunhando um gravador, ouviu vários depoimentos de moradores de Mariana e da região. Ao retornar a São Paulo, consolida a dramaturgia com o diretor da montagem, Herberth Bianchi, e a peça estreia em fevereiro de 2017.

Com a nova tragédia, em Brumadinho, Pedrosa e Bianchi estão retomando as gravações originais porque estava claro, na voz dos sobreviventes, que haveria novo arrastão de lama. “Falar de Mariana é também falar de Brumadinho”, conta Pedrosa. “O que fizemos foi voltar para o material bruto da pesquisa que fiz em Mariana em 2015 para encontrar nos depoimentos as falas que dizem que a tragédia vai se repetir. Muitos depoentes já previam isso por conta de outras barragens comprometidas. É um descaso sem fim.” A mudança no texto da peça ocorrerá no seu desfecho. “Vamos fazer uma pequena adaptação, finalizando o espetáculo com essa triste previsão. Brumadinho está em Hotel Mariana.” No elenco da peça, além de Pedrosa, estão Ana Toledo, Bruno Feldman, Clarissa Drebtchinsky, Fani Feldman, Isabel Setti, Letícia Rocha, Marcelo Zorzeto, Rita Batata e Rodrigo Caetano.  

 

FILME SOBRE A LAMA 

O mesmo Munir Pedrosa acaba de colocar o ponto final no roteiro do filme sobre a tragédia de Mariana. Ontem estava sendo discutida com os produtores a possibilidade de incluir Brumadinho nas filmagens. “O filme utilizará os depoimentos presentes na peça e imagens de arquivo. Construiremos Bento Rodrigues e Paracatu simbólicas, onde atores e depoentes reais se encontrarão, conflitando os depoimentos de 2015 com os novos depoimentos dos dias de hoje”, diz Pedrosa. Além do roteiro, ele dirigirá o filme, que tem produção da MUK Filmes. O elenco ainda não está definido. 

  

MAIS LAMA NA TELA  

Rio de Lama é um filme, dirigido por Tadeu Jungle, e realizado em realidade virtual sobre a tragédia ocorrida em Mariana. É bom exemplo de como a tecnologia pode melhorar as narrativas, seja na ficção, seja na arte documental. O curta-metragem é certeiro ao tocar o coração em nove minutos. Está na rede para quem quiser assistir: busque por Rio de Lama 360.

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