Bruce Lee: o pequeno dragão revive em biografia

Fred Astaire das artes marciais echinês mais importante do século 20 são apenas duas das diversasmaneiras de definir e enaltecer o mito Bruce Lee, talvez afigura mais influente do cinema asiático e responsável pela"descoberta" das artes marciais pelo Ocidente. E a justificativapara cada uma delas está detalhada no livro Bruce Lee Definitivo (80 págs., R$ 27), um volume generosamente ilustrado que aConrad acaba de mandar para as livrarias, mais um dos títulos doseu catálogo ligado ao Oriente, que agradam a um público fiel daeditora. Escrito pelo jornalista Marco Antonio Lopes, o livrorevela, especialmente para as novas gerações que ficam vidradasna frente de cenas de luta, como um garoto encrenqueiro ehiperativo de Hong Kong se tornou o herói que viu a fama deinvencível correr o mundo até virar mito - para alguns, um CheGuevara, um Pelé. "Até Bruce Lee aparecer, as artes marciais tinham um heroizinhoaqui e outro ali. A Ásia sempre produziu filmes de luta, masninguém tinha visto tanta plasticidade na aplicação dos golpes.E até hoje não apareceu outro como ele", anota o autor. Antes deBruce Lee, lembra Lopes, os filmes de luta costumavam descambarpara o pastelão - um pouco de farinha de trigo, e seriam OsTrapalhões. Mas o lutador que se esforçava para ser ator sesentia tão incomodado com isso que acabou convencendo produtorese diretores a filmar do seu jeito. E que jeito. As câmeras de cinema da época mal conseguiam captaros movimentos do aprendiz de ator que parecia voar. A técnicavinha do berço e, por incrível que pareça, da ópera. O pai deBruce, Li Hoi Cheun, era ator da Ópera de Pequim, que sofreuinfluência das artes marciais. Um dos três sobreviventes domassacre do templo Shaolin, ocorrido por volta de 1760, resolveuensinar a técnica de luta para os atores da companhia, parapreservar a tradição, e eles passaram a reproduzir os saltos,golpes e chutes no palco, uma tentativa de denunciar a violênciapraticada pela dinastia Ching. A tradição não morreu, como sesabe, mas só seria massificada em escala mundial com a chegadade Bruce Lee.O "pequeno dragão", um apelido de infância dado pela irmã Agnes,nasceu no bairro de Chinatown, em São Francisco, em 27 denovembro de 1940, por causa do trabalho do pai, que na épocaexcursionava pelos Estados Unidos com a companhia de ópera. Masvoltaria ao seu país natal somente aos 18 anos, uma viagemforçada, castigo de Li, que não agüentava mais as confusõesaprontadas pelo filho baderneiro - Bruce costumava desafiar oscolegas de escola. Saiu de Hong Kong com apenas US$ 115 dólares."Vá com esse dinheiro e vença na vida", disse o pai. Kung fuNos Estados Unidos teve vários subempregos típicos de imigrantes, mas não deixou de treinar kung fu e estudar filosofia - numamão segurava os halteres, na outra, o livro. Em agosto de 1964,foi descoberto num festival de artes marciais em Miami por umfuncionário dos estúdios Warner e foi parar na TV, como omotorista Kato do seriado Besouro Verde. "Ele perseguiu umacarreira no cinema obstinadamente, porque logo percebeu que essaseria uma maneira de disseminar as artes marciais no Ocidente",analisa Lopes.Depois que o seriado acabou e enquanto não conseguia coisamelhor em Hollywood, Bruce Lee montou uma escola em Los Angeles,e colecionou alunos notáveis, como Chuck Norris, Steve McQueen eo diretor Roman Polanski. Fora os famosos, as classes ficavam cheias de anônimos, quevinham aprender a técnica fantástica de desafiar as leis dafísica. Mas essa popularização do kung fu e outras técnicasmilenares de luta do lado de cá do globo não agradava aosmestres tradicionais, muito menos os chefões da máfia chinesaque chegaram a ameaçar Lee.É nessa implicância dos chineses mafiosos que está o surgimentode um dos maiores mistérios do meio cinematográfico. Bruce Lee,como se sabe, morreu jovem e no auge, aos 32 anos, e numasituação um tanto estranha, depois tomar um analgésico, quepoderia ter-lhe provocado um edema cerebral. Até hoje, muitagente se recusa a acreditar que um comprimido tenha tombado oherói e prefere pensar que a máfia o assassinou. Entender o gênioBruce Lee Definitivo opta pela versão oficial do caso. "Não sei,realmente, se alguém pode morrer por tomar um analgésico. Mas ofato é que Bruce já havia tido alguns desmaios e sentia fortesdores de cabeça, provavelmente causadas pelos golpes que levou",argumenta Lopes. "As pessoas próximas a ele não acreditam nateoria da conspiração. Mas, sabe como é, a versão conspiratóriaé sempre mais instigante."Para escrever o livro, o autor investigou jornalisticamente atécnica de luta do mestre, não só lendo O Tao do Jeet Kune Do -livro no qual Bruce Lee descreve minuciosamente o estilo quecriou, e que foi lançado em 2003 no Brasil também pela Conrad -,mas também freqüentando aulas em academias de kung fu, onde omito é cada vez mais cultuado. Queria entender o gênio,descobrir o que o tornava um lutador tão especial. "Ele não fazia movimentos desnecessários, os golpes eramprecisos. Na hora de transportar isso para o set, desenhavatodas as cenas antes, com uma riqueza impressionante de detalhes Ali, já estava previsto que daria tal golpe, que o sujeitocairia de tal jeito etc. Depois, repetia isso no set quantasvezes fosse necessário", conta o autor. "Quando em alguma cenaprecisava parecer estar levando a pior, simulava arranhões emachucados em lugares estratégicos, justamente onde estariam sefossem resultado de uma luta de verdade. Até nisso ele pensava."

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