Brubeck e Desmond: a cerimônia do adeus

U m presente de Natal com 44 anos de atraso. Assim se pode descrever Their Last Time Out: The Unreleased Live Concert, December 26, 1967, a última gravação do quarteto de Dave Brubeck que só agora chega ao mercado. São dois CDs, um total de 1h38, com peças conhecidas do seu repertório e dois temas inéditos: Set My People Free, um aceno político à campanha dos direitos civis, composto pelo baixista Eugene Wright, o único negro do grupo; e For Drummers Only, do baterista Joe Morello. Em ambos, o piano de Brubeck dialoga com o baixo e com a bateria, além de embarcar em solos candentes. Paul Desmond está fora, nas duas faixas. Pouco antes de morrer (em 1977, na flor dos 52 anos), Paul escreveu um livro sobre sua vida no DB4. O título bem-humorado (How Many of You Are There in the Quartet?) inspirou-se na pergunta que as aeromoças invariavelmente faziam ao grupo durante as turnês: "E quantos são vocês no quarteto?" A pergunta surreal era procedente: na verdade, o quarteto era só dois, Dave e Paul, - excetuando apenas um momento de Joe Morello: o solo antológico em Take Five. O pianista e o saxofonista se conheceram em 1944 na banda do 253.º Exército e, em 1951, iniciaram o Dave Brubeck Quartet, com um contrato assinado apenas por Brubeck, designando-o como líder do grupo e assegurando a Desmond 20% de toda a renda. E assim se passaram 17 anos, até a morte anunciada do quarteto. No fim de 1966, Brubeck comunicou aos companheiros que se aposentaria dentro de um ano, para compor e ficar mais tempo com a família. Todos sabiam que o show de 26 de dezembro, no salão de baile do hotel Statler Hilton em Pittsburgh, seria o último. A NBC-TV mandou até uma equipe para cobrir o evento. Na noite seguinte, a matéria foi ao ar, mas não sobrou nenhuma fita, apenas o script original que foi lido na ocasião.

O Estado de S.Paulo

31 de março de 2012 | 03h09

Em 1967 o jazz estava em baixa, longe da popularidade que levou Take Five a se tornar, em 1961, o primeiro disco de jazz - e o primeiro disco instrumental - a vender mais de 1 milhão de cópias. O Ano da Flor, com o seu Verão do Amor, 1967 registrou a erupção dos hippies ao som do rock. O Monterey Pop, precursor dos megafestivais, revelou estrelas meteóricas como Jimi Hendrix e Janis Joplin. Nas paradas, os Doors de Jim Morrison (Light My Fire), a virada dos Beatles em Sergeant Pepper's, e hits como Happy Together (The Turtles), If You Go to San Francisco (Scott McKenzie), A Whiter Shade of Pale (Procol Harum). Como outros jazzistas, Brubeck também recorreu à bossa nova para resistir à invasão do rock e emplacou até um hit em 1963, Bossa Nova U.S.A. Dave Brubeck foi a primeira Grande Esperança Branca que vingou no jazz moderno. Em 1954 ele se tornou o segundo músico de jazz na história a figurar na capa da revista Time, esse barômetro da alma americana - depois de Louis Armstrong em 1949, e antes de Duke Ellington (1956), Thelonious Monk (1964) e Wynton Marsalis (1990). Lembro da emoção com que ouvi o LP de 1955, Jazz: Red, Hot and Cool. A beleza da música era tanta que amorteceu totalmente meu espírito crítico. O disco, na verdade, era uma engenhosa parceria de merchandising da gravadora Columbia com os cosméticos Helena Rubinstein. A foto da capa, feita pelo famoso Richard Avedon, promovia um batom cuja cor aparecia nos lábios e no vestido vermelho da supermanequim Suzy Parker, debruçada languidamente com um cigarro na mão sobre o piano de Brubeck.

Aos 91 anos, Dave Brubeck continua colhendo os louros de uma carreira vitoriosa. Quatro de seus seis filhos são músicos profissionais. Eugene Wright também continua ativo, aos 88. Joe Morello, mestre e referência para bateristas do mundo inteiro, morreu há um ano, aos 82. Apenas Paul Desmond destoou desses sobreviventes. Ao deixar o quarteto, escreveu uma brilhante carreira pessoal, com dezenas de álbuns e colaborações. Lobo solitário, desejava que o seu saxofone soasse como um perfeito Martini seco. A metáfora cool vingou. Poucos sax altos souberam escapar da sombra de Charlie Parker e construir uma voz tão pessoal. Filho de judeu com irlandesa, Paul Emil Breitenfeld escolheu seu nome artístico folheando ao acaso uma lista telefônica. Sobre sua premiada composição Take Five, ele diz que foi inspirada por um caça-níqueis de um cassino de Reno: "O ritmo da máquina me sugeriu o tema. E, além do mais, eu precisava recuperar o dinheiro perdido naquele caça-níqueis..." Às vezes, dava outra explicação para a gênese de Take Five. Fumante compulsivo, dizia que concebeu o tema para que, durante o demorado solo de bateria, tivesse tempo de dar umas tragadas.

Voltando ao último concerto: a gravação monaural veio do arquivo do próprio Dave, descoberta por acaso pelo produtor Russell Gloyd. Entre o Natal e o ano-novo, as gravadoras não trabalhavam e a Columbia deixou passar essa oportunidade de ouro. Brubeck lembra como se sentia na ocasião: "Achei que, como era nossa última apresentação, não tínhamos que provar mais nada. Fomos simplesmente ao palco para nos divertir." Essa atmosfera é flagrante em cada nota de cada um dos quatro músicos que já tocavam juntos havia dez anos.

Na resenha para a Downbeat, John McDonough levanta uma tese que me intrigou: "Apesar de todos os anos em que Desmond e Brubeck cimentaram sua parceria, não podemos deixar de notar quão escassa foi a interação entre esses dois homens. Parecem funcionar como almas independentes de um mesmo todo, raramente como um conjunto." É o que podemos ouvir no belo standard You Go To My Head, ao longo de oito minutos: na primeira metade Desmond descreve uma trilha sinuosa apoiado nas escovinhas de Morello e na marcação do baixo, enquanto Brubeck praticamente se abstém do acompanhamento; nos quatro minutos seguintes, Brubeck sai de uma improvisação bluesy para construir uma catedral de acordes em bloco, tão diferente na estrutura e ao mesmo tão próxima em espírito do voo altaneiro de Desmond. Parafraseando a escritora Isak Dinesen: "O saxofone de Paul Desmond e o piano de Dave Brubeck são duas urnas fechadas, cada uma delas contendo a chave que abre a outra."

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