Brubeck: a renovação com legado

Para o músico que morreu na quarta, "nenhuma ditadura tolera o jazz", sinônimo de liberdade

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h09

Combinações inusitadas, empilhamento de ritmos, harmonias e melodias e a dupla paixão pelo jazz e pela música clássica são componentes essenciais da alma criativa do pianista Dave Brubeck, um dos músicos de jazz mais conhecidos em todo o mundo nas últimas sete décadas, morto na quarta-feira, dia 5), um dia antes de completar 92 anos.

Por que ele teria trazido fórmulas da música clássica contemporânea dos anos 40 para o reino então popularíssimo do jazz? Dave não vinha de família culturalmente refinada. Ao contrário, passara a infância e juventude trabalhando no rancho do pai, na Califórnia. Até o sucesso mundial com Take Five ao lado de Paul Desmond, dinheiro foi artigo escasso, como revelou em entrevista quando comemorou 90 anos: "Joe, açougueiro nosso vizinho em São Francisco, jamais esquecia de me perguntar semanalmente se eu queria ossos para o cachorro. Ele sabia que não tínhamos cachorro. Usávamos os ossos para fazer sopa. Eu também costumava dar uma passada no mercado para garimpar sobras de frutas e verduras. Economizávamos cada centavo".

Convocado pelo Exército em 1942, só voltou para a vida civil em 1946. Foi um dos milhares ex-combatentes que ganharam bolsas de estudo do governo. O programa GI Bill formou novas gerações de músicos de jazz mais sólidas do ponto de vista musical. Por isso, o jazz dos anos 50 incorporou maneirismos do mundo erudito.

Dave estudou com o francês Darius Milhaud no Mills College, uma mão dupla mágica. De um lado, Dave conheceu as pesquisas politonais de Milhaud, técnica harmônica que consiste em empilhar mais de uma tonalidade na mesma peça, provocando a sensação de instabilidade e dissonância. De outro, Milhaud, que entre 1917 e 1919 fora secretário do embaixador francês Paul Claudel no Rio, conhecia a força da música popular das Américas, e insistiu com Dave para que não abandonasse o jazz.

O derradeiro empurrão para o retrato musical completo do pianista aconteceu na segunda metade dos anos 50, quando a Casa Branca de Eisenhower bancou turnês dos grandes do jazz pelo mundo, na condição de "jazz ambassadors". Ou seja, Armstrong, Gillespie e Brubeck foram garotos-propaganda no auge da Guerra Fria. Dave viu de perto a riqueza rítmica africana e seus polirritmos (vários ritmos superpostos, em vez do linear e surrado 4 por 4 do jazz convencional), além de outras tradições não ocidentais.

As viagens renderam temas como Blue Rondo a la Turk, mas também certa consciência culpada. Na época, Brubeck declarou que "nenhuma ditadura tolera o jazz. Estas turnês são o primeiro sinal de retorno à liberdade". Há alguns anos, quando o entrevistei, ele reconheceu que "nenhuma mercadoria é tão estranha como esta coisa chamada intercâmbio cultural. Um intercâmbio traçado pelas mercadorias essenciais da Guerra Fria: o petróleo e o urânio. Em sua história, o jazz fala para pessoas, não para países ou governos. Fundiu as raças assim como muitos tipos diferentes de música. Hoje, limito-me a praticar a filosofia de Martin Luther King: ou viveremos juntos como irmãos ou morreremos juntos como loucos. Acredito no poder da arte, da literatura e especialmente da música para transcender diferenças étnicas e transformar os seres humanos".

Seu gênio foi deglutir este caldeirão sonoro, transformando-o num jazz "inclusivo", que brincou com os ritmos, enfiando os cacoetes do jazz em compassos irregulares, de cinco, sete e nove tempos. Escreveu temas e improvisou em duas ou mais tonalidades ao mesmo tempo, como numa gravação de 1950 do standard The Way You Look Tonight, na qual toca simultaneamente sobre as harmonias do primeiro e segundo temas da canção.

Em sua última década de vida, Dave deixou aflorar sua paixão pela música clássica em dois CDs excepcionais. O primeiro, de piano solo com John Salmon (Naxos, 2004), escancara a inspiração em Bach, com uma ótima Chromatic Fantasy Sonata e as peças de Aventuras a Duas Vozes evocando as Invenções a Duas Vozes. Em Songs (Naxos, 2005), mostra-se ótimo criador de refinadas canções eruditas. A letrista é sua mulher Iola. 14 canções, o próprio Brubeck acompanha os cantores em 6 delas. Destaque para a conhecida Strange Meadowlark, do CD Time Out e que agora se sabe surgiu eruditíssima nesta forma de canção. Pois é, o matuto nascido num rancho no interior da Califórnia conquistou o mundo, refinou-se musicalmente, mas manteve inalterado seu DNA criativo. Esta integridade criativa, aliada ao contínuo impulso de renovação, talvez seja o maior legado de um dos grandes músicos do século 20. Em sentido absoluto.

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